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19 de julho de 2021

EU LI: O Primo Basílio (Eça de Queirós)

Oi gente!

Nosso processo de mudança está quase lá! Estamos no auge das reformas e se tudo der certo, mais uns quinze dias estamos mudando em definitivo. Mas agora é a fase mais trabalhosa, correrias mil e tá bem difícil gravar vídeo. Então, decidi deixar aqui no blog as minhas impressões da leitura de junho do nosso grupo com o Carlos do canal Livros &Ebooks: O PRIMO BASÍLIO de Eça de Queirós.


Acho legal comentar que a escolha do livro foi uma consequência da leitura de maio, que foi Madame Bovary do Flaubert e tem vídeo no canal. Quando comentado no grupo que a literatura de Flaubert foi inspiração para muitos escritores, inclusive para o Eça escrever "O Primo Basílio", batemos o martelo com o intuito de não só conhecer a história, mas comparar as obras e identificar paralelos entre uma e outra. Isso porque o tema central das duas obras foca foi um tema bem comum na chamada vanguarda realista: o adultério. 

Publicado pela primeira vez em 1878, "O Primo Basílio" é ambientado na sociedade urbana de Lisboa e percebe-se um intuito muito grande do autor em criticar o romantismo e analisar a moral da classe burguesa em Portugal na época. Além de  "Madame Bovary", o romance português também dialoga com o russo "Anna Karenina" e o brasileiro "Dom Casmurro", cujo autor aliás, nosso grande Machado, era crítico ferrenho da obra de Eça. Mas isso dá "pano prá manga" e seria assunto para outro post.

Em resumo e sem spoilers, a história mostra um lar aparentemente feliz, onde vivem Jorge e Luísa. Jorge é um engenheiro e marido dedicado, enquanto Luísa é uma vítima de fantasias românticas (como Bovary). Essa alienação da realidade a leva ao adultério, enxergando em seu primo Basílio a realização dos seus sonhos românticos. Já Basílio, que é irresponsável e conquistador, aproveita-se da situação e exerce tamanho poder em Luísa, que a torna incapaz de discernir seus valores morais. Inconsequente e apaixonada, durante uma viagem de Jorge a trabalho, ela se rende aos encantos do primo. Nessa apresentação de personagens e início da história notei um paralelo de Jorge com Charles Bovary, no sentido de ser acomodado, quando Luísa lamenta não poder viajar ou conhecer lugares porque "o marido era tão caseiro", e Eça aproveita para alfinetar sua gente completando a fala de Luísa: "...tão lisboeta"!

Temos outros dois personagens importantes na história: Juliana e Sebastião. Juliana é empregada doméstica da casa e não se entende com Luísa de jeito nenhum. Luísa é impositiva o tempo todo, alimentando em Juliana, que já se apresenta com caráter duvidoso, o desejo de vingança. Já Sebastião é amigo de Jorge desde criança, com laços fraternos e indissolúveis. Conformado por seus planos de ser sócio de Sebastião terem minguado, agora atua como um sombra do casal, ajudando Jorge nos agrados com a esposa. Além dos personagens centrais, temos também a beata Dona Felicidade, o fofoqueiro Senhor Paula, o empregado Julião e Castro, que tem uma paixão platônica pela Luísa. 


Em meio aos personagens e enredo, temos uma Juliana frustrada com sua vida solitária, que canaliza sua raiva em Luísa pelos maus tratos e abraça a oportunidade de vingar-se e beneficiar-se com os segredos que descobre. O final do livro remete ao que deveria ser o final para os padrões da época, mas muito triste, como em Madame Bovary. Enfim, era o que eu esperava levando em conta o autor, época e escola literária. Gostei da leitura, exceto pelo que me irritou um pouco, o excesso de diminutivos utilizados pelo autor ao se referir às características, ações ou sentimentos de Luisa (pensamentozinhos, pezinhos, rendazinhas do vestido...), ou descrição de locais (canteirinhos, terraçozinho), mas imagino que foi proposital.


"O Primo Basílio" foi adaptado para o cinema e televisão. A Globo lançou a sua versão em 1988, escrita por Gilberto Braga e dirigida por Daniel Filho, que também assinou a adaptação de 2007. Há também uma versão portuguesa dirigida por Antônio Lopes Ribeiro e recentemente, o ator londrino Ben Kingsley anunciou que a sua produtora, a Lavender Productions, em parceria com a Nevision, faria uma adaptação televisiva para o romance reconhecido mundialmente. A obra já está em domínio público e pode ser acessada por esse link aqui


Boa leitura!

8 de abril de 2021

Uma viagem à Índia (Gonçalo M. Tavares)

Oi gente!

Hoje encerro as postagens das aulas da matéria do mestrado. Fecho com chave de ouro, comentando um pouco sobre o livro que tive o prazer de escolher como meu tema de apresentação e que me trouxe uma gratificante experiência de análise e leitura: "Uma Viagem à Índia", de Gonçalo M. Tavares.


Falando um pouco do autor, Tavares nasceu em 1970 em Angola, já foi premiado e seus livros foram traduzidos para vários idiomas. Um de seus livros mais renomados, "Uma Viagem à Índia" trata-se de um romance escrito de forma epopeica, dividido em dez cantos, sendo que cada um divide-se em estrofes, que também podem ser lidas de forma aleatória e separada. Sim, é uma experiência incrível!

O livro conta-nos a história de Bloom que após uma série de acontecimentos trágicos que serão contados durante o decorrer da ação, decide partir de Portugal para a Índia, pensando em adquirir sabedoria e libertar-se do passado. Bloom acredita que é impossível viajar à Índia sem passar por diversos lugares antes de alcança-la. Para ele, a Índia não é uma mera localização geográfica, mas sim um estado de espírito.

O livro faz um paralelo com "Os Lusíadas" de Luis Vaz de Camões e também com "Ulisses" de James Joyce, onde ele vai buscar o nome do personagem. Mas apesar das referências, é uma obra original e muito bem escrita. Bloom tem sua inspiração maior em "Ulisses", de James Joyce, porém ao invés de concentrar a sua "odisséia" em um só dia, a faz durar meses, se metendo em confusões e encrencas.

Este Bloom de Tavares, que vive em 2003, parte e volta sozinha de sua viagem física e mental. Ele viaja para esquecer o passado e viver o presente sem laços. Ao fazer o personagem demorar-se em cada paragem, nunca revelando pressa, Tavares manifesta a sua posição em relação ao excesso de velocidade a que opera o mundo no século XXI. Excesso este responsável pelo tédio nas sociedades dos dias de hoje. No presente ambiente de excesso de consumismo (senso) e de experiências instantâneas, o homem procura constantemente novas sensações, viajando entre emoções na esperança de se sentir alguma espécie de felicidade, ainda que transitória e passageira.

O maravilhoso do livro não é a história, mas sim o personagem e sua caminhada. Bloom não é um herói, é um ser humano como todos nós, com mágoas e alegrias do passado, buscando respostas para construir um futuro melhor. Nesse caso o caminho físico nada mais é do que um deslocamento interno pelo sentimento de culpa, tédio, fuga e busca da sabedoria. Imaginação não é distante da realidade. Quem imagina também parte de elementos do mundo.

Em "Uma viagem à Índia", Bloom também se entrega a essas alegrias passageiras para escapar ao tédio que o domina durante a viagem, particularmente no seu regresso da Índia, depois de descobrir, ou melhor, depois de confirmar que tudo o que acreditou ser aquele país mágico e místico não passava de uma mentira.

A viagem termina precisamente com aquilo que fez com o que protagonista iniciasse a sua fuga - um assassinato, que significa que nada deu resultado, tudo voltou ao mesmo, à semelhança do que aconteceu com o tédio, a indiferença. "Chega à Lisboa, nenhum ódio o recebe e nenhum amor". Mas essa libertação temporária que sentiu não dura muito, dando lugar ao pânico e ao medo que o levam a regressar, agora com pressa, à Lisboa, onde apenas encontra o vazio.

O final da aventura de Bloom é melancólico e nele se revelam finalmente, de forma bastante intensa e profunda, todo o desencanto e todo o tédio que o acompanham ao longo de seu percurso. Uma mensagem de que preocupamo-nos muito com o que é a vida, com a busca da felicidade, com grandes acontecimentos, e acabamos paralisados de tanto pensar, não percebendo que a cada dia a vida passa, e somos nós que não damos peso ao que nos acontece.

Garanto a você que a leitura da apopéia de Bloom marcará para sempre sua experiência como leitor!

Boa leitura!

20 de março de 2021

O Livro do Desassossego (Fernando Pessoa)

Oi gente!

Vamos hoje comentar sobre mais uma das aulas da matéria do mestrado que fiz em 2017. Uma das mais complexas, daquelas que fazem surgir assunto para um mestrado inteiro. Falamos sobre o "Livro do Desassossego", uma das mais belas e importantes obras do poeta português Fernando Pessoa, que aparece no livro sob o heterônimo de Bernardo Soares, um ajudante de guarda-livros que mora em Lisboa.


"Livro do Desassossego" começou a ser escrito em 1913 e foi publicado em 1929. Inicialmente foi escrito com o heterônimo de Vicente Guedes para depois Pessoa decidir por Bernardo Soares. Segundo ele, é um fragmento dele mesmo. A obra foi escrita em cartas sem nenhum tipo de norma ou organização. Uma das complicações do livro é que é impossível desmembrar ou estudar um parágrafo isolado, pois Bernardo Soares escreve em um nível de autoanálise que resulta em "estou em um estado triste", já abaixo da minha consciência.

A obra é permeada por temas como metafísica e história, mas também retrata a condição humana, as angústias do ser e o tédio como uma sensação de inutilidade. Em meio à prosa poética, se destacam novos rumos de pensamento e reflexões, trazendo ao leitor uma identificação com as dores e confissões expostas. Uma frase do prólogo diz que: "A palavra desassossego refere-se não tanto a uma perturbação existencial no homem como à inquietação e incerteza inerentes em tudo e agora destiladas no narrador retórico. Mas a força dum outro desassossego - mais íntimo e profundo - impõe-se pouco a pouco, e o livro assume dimensões inesperadas". Diz-se que a obra contém uma espécie de biografia do autor, contendo todo o essencial da sua diversidade heteronímica. Bernardo Soares mistura objetividade e subjetividade, quando declara que "o universo não é meu: sou eu".

Fernando Pessoa, em toda a sua obra, refugiou-se em personalidades inventadas. Há muitos estudos envolvendo esse tema e muitas explicações já registradas. Assim como todos nós, o autor muda durante a vida, sua realidade não é imutável, e suas obras acompanham esses ciclos através de seus heterônimos. Seria como se o autor se metamorfoseasse em vários livros e diferentes autores. A todo momento do livro em que novas sensações e reflexões afloram, os pensamentos tomam um novo rumo. Dizem que "O Livro do Desassossego" é um livro interminável, uma leitura que deve ser feita sem pressa e sem ordem, para uma melhor experiência e percepção da inquietação que o autor pretendeu passar ao leitor.

Em "Pensamento e Imaginação", por exemplo, de Alberto Caiero, o próprio Pessoa conta sobre sua "pequena humanidade imaginária", mas em nenhum momento menciona o termo "imaginação". Caiero é considerado o mestre dos heterônimos de Pessoa, pois é ele quem revela a "realidade", que de certa forma é sentida. Álvaro de Campos diz que o mestre Caiero foi o poeta mais sincero do mundo. A forma dele escrever é uma forma livre, não segue modelos.

Já "Poemas Inconjuntos" foi escrito em forma de diário durante a evolução da doença que o matou. Alberto Caiero morreu em 1915, deixando o diário para Ricardo Reis publicar postumamente. Questiona-se o motivo do pensamento ser um problema para Caiero e a resposta está em que cada pensamento gera uma realidade e as pessoas não aceitam a realidade do outro. Caiero abomina crenças e esperanças. Nesse momento, é interessante pensar na relação paradoxal entre a personagem Madame Bovary de Flaubert e as afirmações de Caiero sobre sentir em primeiro lugar sem racionalizar. Pois ao racionalizar você perde a capacidade de sentir o mundo, como o fez Bovary.

Ainda que analisando outras obras de Pessoa, percebemos que a prosa poética do "Livro do Desassossego" demonstra, para além da invenção dos nomes e biografias, que essa diversidade é um movimento próprio da escrita de Pessoa, que permeia toda a sua obra. 

"Porque eu não sou nada, eu posso imaginar-me a ser qualquer coisa".

Boa leitura!

27 de julho de 2016

Eu li #77 - O Conto da Ilha Desconhecida

Oi gente!

As férias acabaram e volto para colocar em dia o atraso das resenhas. Ainda não postei alguns livros lidos em junho, mas quem quiser saber sobre minhas leituras do mês. saiu ontem o vídeo lá no Portão, só clicar aqui. E hoje vou falar de uma delas, "O Conto da Ilha Desconhecida", de José Saramago. Não é novidade que a escrita de Saramago é muito peculiar, mas ao me deparar com esse volume caprichado, com aquarelas lindas (na capa e no miolo) de Arthur Luiz Piza, que conta a história de um homem que vai ao palácio do rei para pedir-lhe um barco, me apaixonei! Quero ler tudo desse autor!



"O Conto da Ilha Desconhecida" conta a história desse homem, que depois de informar querer um barco para procurar a ilha desconhecida, precisa vencer toda uma burocracia para convencer o rei, que questiona o motivo, já que para ele "não há ilhas desconhecidas", pois todas estão no mapa. E quando o rei pergunta: "Que ilha desconhecida é essa?", o homem responde: "Se eu te pudesse dizer, então não seria desconhecida". Sem mais argumentos (depois dessa resposta...rs) enfim o rei lhe dá o barco. Em paralelo, a mulher da limpeza do palácio e que tinha atendido a porta para o homem, resolve sair de lá e segui-lo, pois viu nele uma oportunidade para mudar seu futuro. E não vou contar mais, porque o conto é curto e a partir daí, muitas surpresas chegam. Sutilmente, Saramago nos releva questões sobre persistência, sonhos e várias questões humanas.

O que posso dizer é que a leitura flui facilmente e os personagens mostram questões de hierarquia e diferenças sociais. O sonho do homem em perseguir a ilha desconhecida revela sua inquietude com as coisas do cotidiano e acaba inspirando a mulher, que era ousada e corajosa. Quanto ao cenário do conto? Só posso dizer que a metáfora que Saramago usou foi sensacional! Eu me pergunto: como é possível com tão poucas palavras, Saramago escrever tanta complexidade? Por isso é Saramago, por isso é universalmente admirado, por isso ganhou o Nobel de Literatura. =)

A capa de outra edição publicado pela Editorial Caminho foi ilustrada Bartolomeu Cid dos Santos.
Eu recomendo muito essa leitura, principalmente porque são apenas 64 páginas. Difícil não se envolver com o personagem, que luta contra um mundo incapaz de aceitar o desconhecido como uma busca mágica. E principalmente, aceitar as pessoas que tem coragem para vivê-la.

Beijos!

24 de junho de 2016

Eu li #74 - Amor de Perdição

Oi gente!

Já estamos quase no final do mês dos namorados e eu aproveitei o tema para fazer algumas leituras estilo "Romeu e Julieta" (rs). E vamos combinar, impossível não comparar "Amor de Perdição" com a tragédia de Shakespeare né? Nem me preocupo com esse comentário parecer spoiller porque em primeiro lugar, acho que sou uma peça rara por não ter lido essa obra-prima de Camilo Castelo Branco. E em segundo lugar, não é preciso percorrer muitas páginas para saber que esse amor tinha tudo para ser triste! Minha nossa! Eu li nessa edição aí e a capa já diz tudo (rs).


A leitura é lenta por conta da linguagem arcaica, mas eu estava no embalo da literatura portuguesa na faculdade e, embora esse título não fizesse parte do escopo do semestre, incluí por conta. E não me arrependo, que história gente! Esse livro foi escrito em 1862 e fez parte da escola literária do Romantismo. Nessa época, o amor era escrito sempre carregado de dor e sofrimento. Para encorpar ainda mais isso, "Amor de Perdição" foi escrito em poucos dias, enquanto o autor estava na cadeia, e conta uma saga acontecida em sua família.

Algumas capas de "Amor de Perdição"

Simão e Teresa são os protagonistas. Dois jovens cujas famílias se odiavam (tá vendo?). Simão era metido a valentão, vivia da mesada dos pais e Teresa era a cara da mulher do século XIX. Esperava alguém para levá-la ao altar, mas nesse caso com uma particularidade: tinha que ser Simão ou mais ninguém. Nem quando o seu primo Baltazar, a personificação do noivo perfeito, a corteja, ela esquece seu primeiro amor. Simão e Tereza trocam cartas às escondidas e sofrem, e sofrem, e sofrem! Simão tem suas impulsividades e com elas se complica a cada dia, então sofre ainda mais! Tereza prefere ir para um convento a desistir de amar Simão, até que seu pai acata a ideia e aí ela sofre ainda mais! Gente, não é exagero. O livro é assim! Os pais dos infelizes, principalmente o de Tereza, fazem birra em nome da honra e levam o amor de seus filhos à loucura. 

Amor de Perdição na versão cinematográfica de 1979, dirigida pelo português Manoel de Oliveira.

No decorrer da história aparece João da Cruz, extremamente grato ao pai de Simão por um favor do passado, com sua filha Mariana, que acaba se apaixonando pelo moço. Passamos então a ler a história de três pessoas que amam demais, e sofrem! Então sim, é uma história sofrida, mas MUITO BEM ESCRITA! Uma linda história de amor proibido, cativante e envolvente!

Beijos!

25 de maio de 2016

Eu li #69 - O Mandarim

Oi gente!

Hoje vamos falar mais um pouco de um tema frequente por aqui nesse semestre. Literatura Portuguesa! Simplesmente porque é uma das matérias que estou fazendo na faculdade e para cumprí-la precisei da leitura e releitura de algumas obras de autores portugueses. Comento sobre outras obras aqui nesse link. E o livro da vez é "O Mandarim", de Eça de Queirós, com essa edição linda (com ilustrações fantásticas de Alberto Cedrón) que adquiri em uma banca de revistas aqui no centro de Curitiba, cuja dica falei nesse vídeo aqui.


"O Mandarim" trata do tema escolhas e consequências, mas por meio de uma narrativa fantasiosa (que eu particularmente amo!), espiritualista e filosófica. Basicamente vai contar a história de Teodoro, um senhor de classe média que levava uma vida relativamente normal, não era ambicioso ao extremo e curava seu tédio lendo livros que comprava no sebo da cidade. Até que certa noite, lendo uma obra chamada "Brecha das Almas", deparou-se com um trecho que lhe informava o seguinte: quem tocasse a campainha que apareceria ao seu lado, mataria um mandarim na distante China e herdaria toda a sua fortuna.


Teodoro é claro desdenhou da mensagem. Porém, descrente como era de Deus e do Diabo, do Céu e do Inferno, embora rezasse vez em quando, acabou prestando atenção quando surgiu diante dele um homem vestido de preto, insistindo que apertasse a campainha. E embora tenha refletido um pouco, decidiu tocar a tal sineta, esperou um pouco sem notar nada diferente e finalmente decidiu dormir. Tempos depois, recebeu um telegrama informando que herdou uma herança de um mandarim chinês e tornou-se milionário. Então ele finalmente consegue aproveitar o "regalo" de uma vida de riquezas e luxúrias! Mas não dura muito, pois começa a ser atormentado pelo fantasma do mandarim, se enche de remorsos e decide ir à China em busca dos verdadeiros herdeiros do falecido. E agora "José", ou melhor, e agora "Teodoro"?


"O Mandarim" foi uma de minhas leituras portuguesas preferidas. Achei que a obra é uma reflexão muito bem escrita sobre a ambição e o desejo imediato de coisas fáceis e futilidades, que podem nos proporcionar felicidade momentânea, por um alto preço de infelicidade eterna. Me remeteu ao filme "A Caixa", de 2009, cuja protagonista era Cameron Diaz. Uma mistura de ficção científica, terror, suspense e drama em um conceito exatamente igual: escolhas e consequências. Alguém viu? 


Agora, voltando ao livro, um conselho. Você aí, ou fica imaginando o que aconteceu com Teodoro, a fortuna e o fantasma do mandarim, ou trata de ler logo o livro porque ele é curtinho e muito bem escrito! Pudera, o escritor português também é autor de obras como "O crime do Padre Amaro", "O Primo Basílio", "Os Maias"(que aliás tem uma edição linda nos clássicos da Zahar!). E nem precisa comprar o livro, porque a obra é de domínio público e está na internet. 

Beijos!

20 de maio de 2016

Eu li #68 - A Confissão de Lúcio

Oi gente!

Li "A Confissão de Lúcio", do autor Mário de Sá-Carneiro, no início do mês, para atender ao cronograma de leitura das aulas de Literatura Portuguesa. E na última aula aprendemos um pouco mais sobre Fernando Pessoa. Opa! Mas o que uma coisa tem a ver com outra? Explico. Os dois escritores ficaram muito conhecidos em sua época pela "fragmentação do ser" em suas obras, embora de maneiras diferentes. Fernando Pessoa, desejando ser muitos, dividiu-se em heterônimos, assumindo em cada um, história e personalidade próprias. Já o Sá-Carneiro, projetou-se em outro, em "ser o outro". E isso é bem visível nessa obra, que provoca no leitor as sensações e impressões vividas pelo protagonista.

O livro é narrado em primeira pessoa e conta a história de Lúcio, que como o título diz, nos deixa uma confissão. E ela se dá após ele ser condenado e preso por dez anos, por assassinato! Lúcio foi acusado de assassinar o poeta e seu melhor amigo, Ricardo de Loureiro e, depois de cumprir sua pena, decide defender-se e relatar os acontecidos. Então, na medida que ele descreve seus sentimentos é que vai revelando os acontecimentos externos que os envolveram, tornando a narrativa um pouco lenta. Pequenos gestos são relatados detalhadamente, mas por outro lado, esse excesso de detalhes é que nos aproxima do protagonista e nos envolve na trama.


A impressão que eu tive ao ler foi de que Lúcio parece juntar os pedacinhos, reconstruir toda sua existência, quando triste e solitário, vai minunciando os fatos sob a sua perspectiva. Revive tudo lentamente, desde o primeiro acontecimento, no ano de 1895 até o momento atual em 1913. Mas também há um tempo psicológico que parece tentar buscar, conforme a memória desponta, a origem dos seus problemas. Uma história para muitas sensações, eu diria!

Mario de Sá-Carneiro
Falando um pouco do autor, Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa em 19 de maio de 1890. Filho e neto de militares, teve seus primeiros anos marcados pela morte da mãe, em 1892. Passou grande parte da infância com os avós e iniciou na poesia com doze anos. Aos quinze já traduzia Victor Hugo e aos dezesseis, Goethe e Schiller. Um passo para começar a escrever.

E aí chega novamente Fernando Pessoa, que o conheceu em 1911 na Faculdade de Direito de Coimbra e tornou-se seu melhor amigo, introduzindo-o no ciclo dos modernistas. Sá-Carneiro deixou a faculdade quando foi para Paris, entregando-se à boêmia e aos espetáculos para esquecer suas crises existenciais. Não consegue adaptar-se socialmente, continua dependendo financeiramente de seu pai e nessa época, totalmente instabilizado emocionalmente, é que produz grande parte da sua obra e troca várias cartas com Fernando Pessoa, seu confidente. As crises de depressão aumentam e com elas as crises financeiras. Foi então que em 1916, ele anuncia em uma das cartas à Pessoa, a intenção de suicidar-se. E o faz, no dia 26 de abril daquele ano, em um quarto de hotel.

Mais um escritor que deixou sua marca na história da Literatura, embora tenha decidido escrever sua própria história de maneira tão trágica. 

Beijos!

15 de março de 2016

Eu li #54 - Auto da Barca do Inferno

Oi gente!

Hoje vou falar de uma das metas de leitura para a faculdade, matéria de Literatura Portuguesa que terei nesse semestre. Vem muita coisa por aí! Camões, Fernando Pessoa, José Saramago, entre outros. Mas hoje iniciamos com Gil Vicente, o primeiro dramaturgo da língua portuguesa, com sua peça "Auto da Barca do Inferno", encenado pela primeira vez em 1517. A história de treze personagens que falecem e chegam a um rio, onde encontram duas barcas: a Barca do Inferno, comandada pelo diabo e um companheiro, e a Barca da Glória, comandada por um anjo. Antes de contar sobre o tema, para quem não sabe o significado de "auto", é uma peça teatral com temática religiosa.


O livro é pequeno, em torno de 50 páginas, mas como foi escrito no século XVI, é totalmente diferente do que estamos acostumados em relação ao vocabulário e linguística. Então a leitura não flui facilmente e não prende. Mas é legal perceber que a história é uma sátira à sociedade de Lisboa daquela época. Cada personagem ao chegar, avista primeiro a Barca do Inferno e inicia um diálogo com o diabo. Este, que conhece muito bem cada um deles, age com ironia e sarcasmo, se portando como um juiz e expondo seus fracassos e erros durante a vida. Com vários argumentos, insiste para que entrem na sua barca, mas todos resistem e vários tentam entrar na Barca da Glória e são proibidos pelo anjo. Só alguns salvam-se.


Ilustração para o livro do Sistema Educar por Douglas Docelino 

É durante esses diálogos, tentativas e julgamentos que as críticas à sociedade ficam explícitas, principalmente quando o anjo explica os motivos pelos quais não podem entrar na barca. Alguns personagens se arrependem do que fizeram em vida, mas a maioria sequer chega a ter consciência disso e retornam, digamos que "com o rabinho entre as pernas" (rs), para a Barca do Inferno. Um Fidalgo (representando a nobreza), um Onzeneiro (agiota), um Parvo (representante do povo), um Sapateiro (representando o mestre dos ofícios), um Frade (representando os maus sacerdotes), uma Cafetina (representando a degradação moral), um Judeu (considerados na época infiéis pois não seguiam a fé cristã), um Procurador (representando a burocracia jurídica), um Enforcado (representando a perdição) e quatro Cavaleiros (representando as Cruzadas). Gil Vicente usa os personagens para criticar a avareza, a soberda, a fofoca, a maldade, a falta de fé e outras características que condenava na sociedade portuguesa. Pelo que percebi, mas maiores críticas vão para a nobreza, o clero e a exploração do povo pelo próprio povo (mestre de ofícios).

Ilustração da edição original do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente.

Basicamente é isso. Difícil resenhar apenas, porque os desfechos são meio previsíveis né? É uma leitura bacana para se adentrar um pouco na história, imaginar como era a arte como entretenimento na época e que tipo de mensagens eram transmitidas através dela. O "Auto da Barca do Inferno" foi escrito em um contexto histórico praticamente catolicista (Gil Vicente era católico), então obviamente ele acredita que a vida terrena deveria ser guiada pelos preceitos religiosos dele. Mas só para atiçar a curiosidade deixo um spoiler: o Frade, por exemplo, foi para o inferno! Tá, não é tão previsível assim (rs). Mas embora tenha sentido religioso, não é um livro pesado, eu diria que é irônico e engraçado.

Beijos!