23 de setembro de 2020

David Copperfield (Charles Dickens) | Portão Literário

Oi gente! Depois de um período para reorganização da vida, eis que consegui gravar um vídeo!

Hoje vamos falar de mais uma obra deste escritor incrível que foi Charles Dickens! Minhas impressões sobre David Copperfield, o personagem queridinho do autor. 😍

E vamos torcer para que o canal volte ao normal! 🙏

Clique para assistir


7 de setembro de 2020

EU LI: O Cortiço (Aluísio Azevedo)

Oi gente!

Ainda não tô conseguindo gravar vídeos, mas acho que é uma questão de dias (eu espero!). Por enquanto, vou comentando por aqui sobre minhas leituras mais impactantes. Como foi o caso de "O Cortiço", de Aluísio Azavedo, que li no mês passado junto com o Carlos, do canal @livroseebooks. Sempre tive receio de ler essa obra, lembro que tinha uma edição antiga que até doei sem me encorajar em fazer a leitura. Até que consegui essa edição moderna e comentada da Panda Books (que aliás tem uma coleção de clássicos neste formato e tô bem animada para ler alguns!), agora foi!


"O Cortiço" foi publicado em 1890 e é uma das obras nacionais que mais representam o naturalismo. A história é um retrato das condições de vida das classes mais baixas no Rio de Janeiro da época. Acompanhando o dia a dia dos moradores do cortiço, 


O principal personagem é João Romão, que construiu o cortiço após receber uma quantia de um português, para o qual trabalhou muito. Morava com Bertoleza, uma ex-escrava que fugiu dos seus antigos donos e até então João não tinha muitas preocupações além de aumentar seu capital. Até a chegada de Miranda, seu vizinho, que lhe despertava inveja pelo status e títulos que possuía, vindo a tornar-se seu maior rival. 

"O Cortiço" é narrado de forma linear, em terceira pessoa como narrador onisciente. Além da ambientação do cortiço, são apresentados ao leitor cenas da história que se passam na pedreira e na taverna, também são propriedades de João Romão, que na história simboliza o capitalismo desenfreado, pois usa de muitas artimanhas, inclusive explorar e enganar pessoas, para obter lucros e riquezas. O romance tem muitas descrições, explorando características e comportamentos dos personagens, cujas vidas são retratadas a cada capítulo, entrelaçando-se para enfrentar a pobreza, abandono e maldades.



No Brasil, "O Cortiço" é a obra mais emblemática do movimento literário naturalista. Por isso, a história mostra muito da degradação social dos moradores do cortiço, bem como sua animalização, em muitas partes marcadas pela violência e instintos sexuais. Segundo o naturalismo, o meio influencia diretamente o comportamento das pessoas, então não vemos muitos desfechos "felizes" na história. Em vários núcleos são ressaltadas a desigualdade social, ambição, promiscuidades, entre outros. 

A obra retrata muito bem a sociedade brasileira do século XIX e se apresenta bem atemporal em alguns aspectos, como comportamentos em busca da ascensão social, tão bem representado no protagonista João Romão. Muitos outros personagens sejam importantes na trama, como Jerônimo, o português que administra a pedreira, e Rita Baiana, uma mulata toda sedutora que a princípio tem um caso com Firmo que representam a mistura de raças. 

Um detalhe interessante em "O Cortiço" é a característica marcante e presente nas obras naturalistas, onde o cortiço em muitos trechos é personificado, como personagem principal, enquanto os personagens humanos são animalizados. Este trecho é um exemplo da personificação do cortiço: Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da ultima guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.” Já a aproximação do homem com o animalesco pode ser observada em várias metáforas utilizadas pelo autor, comparando os personagens com animais selvagens ou até mesmo plantas.



As personagens femininas marcantes da obra me chamaram a atenção. Temos a Piedade, a típica representante dos valores europeus da época, esposa recatada de Jerônimo. Temos a Pombinha, que leva algum tempo para se descobrir mulher, até deixar a pureza de lado e se tornar prostituta. A Estela, esposa infiel que levou o Miranda a mudar-se para o bairro do cortiço. Mas nenhuma merece tanto destaque como a Rita Baiana, representante fiel do imaginário da mulher brasileira: alegre, sensual, fogosa, dançante e fã dos pagodes e rodas de samba. Sempre otimista apesar das mazelas. Na minha opinião Rita Baiana é a personagem mais popular da história, que se destaca independente das suas participações na trama (até porque eu não concordaria com algumas atitudes suas), pelo modelo de exaltação da mulher que ela nos passa. Os capítulos com a Rita Baiana são cheios de brasileirismo, alegria, positividade, apesar da pobreza ambientada ao seu redor.


"O Cortiço" leva ao leitor muitos acontecimentos que marcaram a época retratada. Trabalho assalariado, desenvolvimento de setores secundários, novas categorias sociais, chegada de imigrantes, mescla de raças, descobertas na área científica e escravidão. Ambientação inspirada nos cortiços da época, espaços demarcados por construções precárias e sufocantes. Uma importante fonte literária para entendermos nosso Brasil antigo e fazermos uma análise social para infelizmente percebermos que muitas coisas ainda não mudaram em nada.

Estudiosos apontam como principal inspiração para Aluísio Azevedo escrever "O Cortiço", a obra do francês Émile Zola, "Germinal", que também usou seus personagens para gravitar em torno da narrativa, de modo a expor as questões naturalistas. Sabendo disso, a curiosa aqui resolveu então conhecer a obra de Zola, e enquanto publico esta postagem, devo estar já na parte dois ou três do livro. E já posso adiantar que sim, tem muitas semelhanças com a obra de Aluísio. Mas isso é assunto para outra postagem, ou vídeo. Logo volto com as atividades no canal!

Beijos!

23 de agosto de 2020

Divã de Escrita 2020 #6 (As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury) - Unindo contos com maestria | Portão Literário

Oi gente!

Mais um Divã de Escrita aqui pelo blog, porque ainda vai um tempinho para os vídeos voltarem no canal. Ainda estamos nos organizando em nossa nova casa e agora que consegui deixar meu cantinho de trabalho pronto, para então colocar em dia o atraso. Mas não posso deixar o Divã parado porque continuo firme no projeto "ler contos, para melhor escrever contos", que começou no início do ano e tem como proposta uma listinha de livros de contos de autores renomados.

O livro da vez foi o incrível "As Crônicas Marcianas" de Ray Bradbury, que, para quem não lembra, é famoso por sua obra Fahrenheit 451. O livro é composto por 26 contos, unidos em ordem cronológica, em um espaço de tempo entre os anos de 1999 e 2026. O tema que perpassa toda a obra é basicamente a ida de seres humanos ao planeta Marte e um processo de colonização ocorrido lá. 

Quem conta o livro é um narrador-observador e nesses vinte e sete anos, desde o início da colonização de Marte até o final, os contos são conduzidos por três grandes momentos. Os sete primeiros contos falam sobre expedições feitas até Marte e os encontros entre os homens e os marcianos. A partir do oitavo conto, a temática gira em torno da colonização de Marte e em um terceiro momento, entre os anos de 2005 e 2026, uma guerra eclode na Terra, fazendo com que, apesar da ameça de extinção do planeta, os moradores de Marte desejem voltar ao seu planeta natal. 

A proposta para o Divã era ler o conto "...E a Lua Continua Brilhando". Fiz uma análise dele, mas vou manter a postagem sobre o livro como um todo, porque achei sensacional a capacidade do autor de manter um fio condutor entre eles. Porque originalmente, alguns dos contos do livro foram publicados separadamente em revistas de Ficção Científica e somente na década de 50 o autor os juntou em único livro. Ainda que sejam contos isolados, há sempre um evento sendo retomado, seja por nome de personagens ou alusão a algum acontecimento narrado em um conto anterior. 

Além da melancolia como artifício na escrita de Ray Bradbury, em que como leitora captei no ressentimento da narrativa sobre o avanço do homem em Marte, há também um lirismo existente nas subjetividades da visão dos personagens. E é aí que eu entro com o conto proposto: "...E a Lua Continua Brilhando", que mostra uma expedição chegando à Marte e descobrindo que o povo Marciano foi extinto pela catapora, provavelmente contraída das expedições anteriores. No conto conhecemos o astronauta Spender, que se mostra contrário aos seus colegas de expedição após conhecer as riquezas da culta Marciana. O Capitão Wilder consegue entender os argumentos de Spender, mas a contragosto o detém, em prol do sucesso da expedição, pois  Spender mata alguns colegas para defender o que restou dos Marcianos. Não temos neste conto um herói e nem um personagem principal, mas a ideia de humanidade. Outros contos relembram Spender como "louco" e outro conto seguinte retorna com o Capitão Wilder comentando sobre o ocorrido. 

via mrpoecrafthyde.com

"As Crônicas Marcianas" nos trazem personagens complexos e temas atuais, como exploração nuclear, força de trabalho, imperialismo e problemas ambientais. Além disso, os contos embora classificados como FC, transitam entre outros gêneros. Um exemplo é o conto "Usher II", que faz referência ao conto "A Casa de Usher" de Edgar Allan Poe (e foi um dos meus contos preferidos"). Há muito de filosofia nos contos também, levando em conta que a vida de milhões de Marcianos foi o preço para a permanência dos humanos no planeta. Essas reflexões profundas que permeiam todo o livro foram para mim o excelência na escrita do autor, que consegue com a narrativa explorar o peso e a dor da temática com o leitor. O autor não impõe uma moral, mas com criatividade mostra sempre os dois lados e conduz a história para questões complexas da humanidade.

É aqui que finalizo, deixando minha experiência de aprendizado com a escrita do autor nos contos deste livro. Além da exímia organização da cronologia dos contos, unindo-os em forma de romance, colocar na escrita dos seus contos todo um peso das escolhas dos humanos, que não contentes em destruir seu planeta, decidem colonizar outro para fugir de seus conflitos e sentimento de solidão. Ray Brudbury afirmou certa vez, que a união de seus contos deu origem a um romance acidental: "Os contos de Green Town que encontraram o seu caminho no romance acidental intitulado O vinho da alegria e os contos do Planeta Vermelho que se tornaram outro romance acidental chamado As crônicas marcianas, foram escritos nos mesmos anos em que eu corri para o barril de chuva do lado de fora da casa de meus avós para desafogar todas as lembranças, os mitos, as associações de palavras dos anos passados". (BRADBURY, 2011)

Isso me fez pensar como existem autores que não estão preocupados em escrever através de fórmulas propostas e estruturas pré-definidas. Que existem sim, formatos indicados para ajudar aos iniciantes, mas que a forma de narrar é intrínseca ao autor e cabe a cada um descobrir sua melhor forma. =)

Até a próxima!

21 de julho de 2020

EU LI: As cinco pessoas que você encontra no céu (Mitch Albom)

Oi gente!

Já passou da hora de comentar sobre essa história por aqui. Desde que comecei o canal no You Tube, "As cinco pessoas que você encontra no céu", do autor Mitch Albom, já foi citado em vários vídeos sobre leituras da vida. Embora eu tenha conhecido a adaptação antes, já fiz leitura e releitura dessa obra tão significativa para mim.


"As cinco pessoas que você encontra no céu" é um daqueles livros que afaga meu coração, por isso reli recentemente para enfrentar algumas dificuldades por aqui. Meu primeiro contato com a história já fazem alguns bons anos, foi assistindo a adaptação de 2004, dirigida por Lloyd Kramer. A dica foi do meu sobrinho, que sempre me indica ótimos livros e filmes, por termos alguns gostos em comum.



Um dos motivos para não ter feito ainda uma postagem sobre ele é que, seja lendo o livro ou vendo o filme, me preencho de uma vontade de falar muito sobre, porém quando tento as palavras somem. Desenvolvi uma teoria para isso. Essa história me desperta muitos sentimentos, sensações profundas difíceis de serem traduzidas em palavras. Agora decidi tentar.

A história é sobre Eddie, um senhor que trabalha em um parque de diversões, como responsável pela manutenção dos brinquedos. Conhecido pelas crianças como "Eddie Manutenção", o conteúdo do seu crachá de identificação. Eddie é um idoso sério, um tanto amargurado, mas que leva sua profissão com toda a responsabilidade, sempre preocupado em checar os brinquedos para garantir a segurança de todos. Algo acontece (e é algo que faz relação com a mensagem do livro) e um dos brinquedos acusa uma falha, em funcionamento. Tentando salvar a vida de uma criança, Eddie morre.

Então você me pergunta: - Mas morre assim, logo no início do livro?

Sim. Porque a jornada de Eddie vai começar após a sua morte. Quando ele encontra suas cinco pessoas. 

Então você me pergunta de novo: - Como assim, cinco pessoas?

A história usa como simbolismo as cinco pessoas, para explicar como as vidas terrenas são entrelaçadas, independente das pessoas se conhecerem ou não. E o principal e o que mais me toca: como uma pessoa pode impactar na vida de outra, seja de forma positiva ou negativa, muitas vezes sem nem saber disso! Como um pequeno gesto pode transformar sua vida para sempre.

Você entenderá isso melhor acompanhando o passado de Eddie, desde sua infância. Conhecerá durante a narrativa seus sonhos de menino, suas decisões na juventude, suas conquistas e fracassos. Tudo que o tornou o homem que era antes de morrer, sua frustração por achar que sua vida não valeu à pena, porque abriu mão do sonho de ser engenheiro para lutar na guerra. Enquanto tenta descobrir se conseguiu salvar a menina no parque de diversões, Eddie encontra suas cinco pessoas e com cada uma delas aprende uma lição. Inclusive a de que nada existe por acaso e que estamos todos ligados uns aos outros. 



É obviamente este um dos motivos deste livro me tocar tanto. Porque compartilha com o que acredito. E sempre que sinto vontade de pensar sobre o legado da minha vida, retorno à história de Eddie. "As cinco pessoas que você encontra no céu" é um livro para se ler nos momentos em que nos sentimos fracos e inúteis. Ele nos lembra que em momento algum desperdiçamos nossa vida e que pequenos gestos podem mudar o destino de outras pessoas para sempre. Um gesto de bondade pode ser nada para você, mas pode ser decisivo na vida de outra pessoa. O livro também nos alerta para o efeito negativo. O quanto nossa impulsividade e egoísmo momentâneos também interferem em outras vidas.

Para quem acredita na continuidade da vida após a morte, a leitura é um prato cheio. Principalmente porque temos sempre aquela impressão que reencontraremos as pessoas mais próximas, os entes amados ou familiares. Na história de Eddie, as coisas não são bem assim. E minhas crenças fazem com que eu trilhe junto com Eddie sua trajetória, me surpreendendo, me assustando, me emocionando.

"As cinco pessoas que você encontra no céu" certamente nos mostra uma forma diferente de entender a vida e a morte. Não precisamos de nada grandioso para deixar um bom legado. Tudo está conectado e temos diariamente o poder de impactar vidas. Que o façamos de maneira positiva!

Boa leitura!

20 de junho de 2020

Divã de Escrita 2020 #5 (Rashômon e Outros Contos, de Ryünosuke Akutagawa) - Um conto com múltiplas versões | Portão Literário

Oi gente!

Como combinado, dando continuidade ao Divã de Escrita aqui pelo blog, enquanto não consigo retomar o canal. Se você chegou agora e não entendeu nada, pode se atualizar lendo a postagem anterior. Hoje vou deixar minhas impressões sobre mais um dos contos listados para o projeto, que me proporcionou conhecer a literatura de um grande contista japonês: Ryünosuke Akutagawa.


Embora o conto que dá título ao livro também seja ótimo e muito comentado, vou me concentrar nas impressões do conto citado no projeto, "Dentro de um bosque", e que basicamente dá ao leitor uma reconstituição do assassinato de um samurai em sete versões diferentes. Duvida que um escritor faça isso? O Akutagawa fez! Então antes de falar do conto, vamos falar um pouco sobre o autor.

Ryūnosuke Akutagawa (1892 - 1927)
Ryünosuke Akutagawa nasceu em Tóquio no ano de 1892. Não escreveu nenhum romance mas foi um grande contista japonês, deixando mais de 150 contos durante sua curta vida (cometeu suicídio aos 35 anos). Ficou famoso pelo estilo e riqueza de detalhes nas suas histórias, considerado por isso o "pai do conto japonês". Acredita-se que o sentimento de solidão por ser abandonado pela mãe, que enloqueceu logo após seu nascimento, tenha sido um dos combustíveis para sua literatura. Apesar de ter sido adotado pelo tio, ele cresceu em um ambiente empobrecido, cujo isolamento fazia parte da rotina e incorporando-se ao seu trabalho. Seu conto "Dentro de um bosque" foi publicado em 1922 e é um dos contos mais reconhecidos da literatura japonesa, inclusive serviu como uma das inspirações para o filme "Rashõmon", clássico de 1950 do diretor Akira Kurosawa (que eu preciso ver!). 

A construção do conto, que tem uma essência sombria, envolve o leitor de uma forma única. Sua narrativa compreende os relatos de sete personagens que tentam explicar como foi o assassinato de um homem, cujo cadáver foi encontrado em um bambuzal. A vitima viajava com sua esposa, quando foram abordados por um ladrão que lhe rouba a espada, o arco, as flechas e estupra sua mulher, sem que ele consiga reagir. 

O autor constrói um enredo similar a uma história policial e o curioso é que mais de um personagem assume a responsabilidade pelo ato, mas a cereja do bolo é que no final das contas, ele não entrega ao leitor qual dos depoimentos é o verdadeiro e quem realmente é o assassino. 

É extremamente intrigante a leitura deste conto. Os relatos mostram divergências, um último relato surpreende mas deixa dúvidas da mesma forma por ser "terceirizado", digamos assim. Ainda que exista essa estrutura fragmentada, o conto é coerente e compreensível. E para mim, o melhor, nos faz refletir como uma mesma situação pode ser encarada por diferentes visões e experiências de cada um. Deixamos nos levar por cada testemunho, cogitando se realmente o personagem acredita no que está expondo ou se mente por vontade própria. Para mim, um dos pontos marcantes do conto foi o depoimento do ladrão, que depois de confessar o crime, deixa ao policial uma reflexão acompanhada de um sorriso irônico, que sugere claramente uma crítica ao Estado.  

Estudos apontam que Akutagawa, ao escrever "Dentro de um bosque", inspirou-se em narrativas clássicas da literatura japonesa, que fazem parte de uma coletânea chamada "Konjaku Monogatarishû", composta de anedotas de cunho budista, compiladas no século XII. São histórias que registram novos valores de uma época, a sociedade de guerreiros simbolizada pelos samurais e um momento de tranformações políticas, culturais e sociais. Tanto que a personagem feminina do conto é o oposto do que era o tradicional na literatura da época, mulheres passivas, submissas e invisíveis. Basta ler seu depoimento para o leitor reparar que os papeis sociais do marido e esposa estão completamente invertidos para os padrões sociais da época.

"Dentro de um bosque" é um conto direto e minimalista (característica do autor), em que o leitor é apresentado apenas aos depoimentos, sem situar-se em um contexto ou local, antes ou depois dos acontecimentos. Sequer existem conexões gramaticais ligando os depoimentos, os fatos são desencadeados e o último depoimento coloca fim à narrativa. Simples assim. E simples assim, muito bem escrito! Assim como Tchekhov, citado no último Divã de Escrita, também não encontrei apelos moralistas nos contos de Akutagawa, o que me satisfaz como leitora, por sentir-me liberta a construir minha própria interpretação.  
Vale também citar que o Prêmio Akutagawa, um dos prêmios literários mais cobiçados do Japão, foi criado em 1935, em homenagem ao autor. 
Recomendo aos contistas de plantão que conheçam o trabalho de Ryünosuke Akutagawa, mais uma aula para nós!
Até!