17 de abril de 2020

EU LI: O Castelo de Papel (Mary del Priore)

Oi gente!

Como estão todos? Hoje passei para comentar uma leitura recente, "O Castelo de Papel", da historiadora Mary del Priore. Os livros da Mary abordam muito da História do Brasil e só por isso já são motivos para dividir opiniões. Foi minha primeira experiência com a autora.


"O Castelo de Papel" mistura romance com fatos históricos, baseados principalmente em pesquisas das cartas da Princesa Isabel e seu esposo Conde D'Eu, tornando o livro quase uma biografia do casal. Aliás, foi um dos aspectos que gostei, conhecer melhor este personagem que até então me era desconhecido, tanto quanto o fato de que Isabel casou-se com um estrangeiro, pois o Conde era neto do rei deposto da França, Luis Felipe I. O livro nos conta então sobre sua formação, seu papel na Guerra do Paraguai (que é bem contraditório com outras fontes que pesquisei), sua relação com o sogro (D. Pedro I), focando na relação conjugal com a Princesa.

O recurso que a autora usou foi demonstrar estes fatos de forma a humanizar os personagens. Temos aquelas impressões sobre o Segundo Reinado dos livros de História, ou artigos em linguagem acadêmica, mas aqui ela traça os perfis psicológico dos personagens com maior naturalidade. A própria Princesa Isabel é retratada diferente do que conhecemos, uma mulher típica do século XIX, que sonhava com uma família, era religiosa e preferia o refúgio de sua casa em Petrópolis às reuniões políticas.

Conhecemos então, através de uma narrativa fluída, a vida do casal desde o casamento arranjado que acabou se transformando em um amor sólido e companheiro, em paralelo com as transformações que o Brasil passava com os movimentos abolicionista e republicano. Dom Pedro nos é apresentado com uma personalidade egocêntrica e sisuda, sempre evitando envolver o casal nas decisões (o Conde por ser estrangeiro e Isabel por ser mulher), deixando-os responsáveis apenas em caso de ausências ou doença. Também acompanhamos a Condessa de Barral, mulher muito à frente da época, sempre influente e aconselhando o jovem casal.


O mais curioso para mim no livro, foi a desmistificação da Princesa Isabel como a salvadora dos escravos, ou "A Redentora", como é definida em vários livros de História. Pela visão da autora, a libertação dos escravos foi mais o resultado inevitável de anos de luta dos abolicionistas, do que a decisão pontual de uma mulher que, aproveitando uma viagem de Dom Pedro I, colocou a mão na consciência e decidiu por fim à escravidão no país. Segundo o livro e também em algumas cartas, a impressão é de que Isabel não queria governar, não tinha interesse em assuntos políticos e não foi preparada de forma alguma por seu pai para tal função. Fatos que indicam os motivos de tudo ter culminado para a exílio da família real e a Proclamação da República. Obviamente não deixamos de perceber as heranças que pairam no Brasil até hoje: maracutaias políticas, troca de favores e mudanças repentinas favorecidas por interesses do momento. Isto é nítido principalmente depois da queda da monarquia.



Temos em "O Castelo de Papel" um romance baseado em fatos pesquisados nas cartas dos protagonistas, mas também fiquei com a impressão de que a autora foi um pouco tendenciosa em sua narrativa. Além do protagonismo do Conde D'Eu na Guerra do Paraguai, que descobri gerar muitas controvérsias que discutem, ora uma participação positiva, ora negativa, há também esse aspecto sobre a Princesa Isabel abordado no parágrafo anterior. Existe uma carta da Princesa Isabel destinada ao Visconde Santa Victória, que era sócio do Barão de Mauá. Devem existir outros documentos arquivados na Biblioteca Nacional, mas esta carta percorreu alguns sites e blogs nas redes sociais, e eu a encontrei em uma matéria do Jornal de Brasília, de 2017. Nesta carta se percebe muito interesse da Princesa em amparar os escravos libertados, que estavam em situação de pobreza e sem perspectiva, inclusive citando que seu próximo passo era se dedicar a libertação das mulheres "dos grilhões do cativeiro doméstico". Essa afirmação no mínimo vai na contramão da personalidade de Isabel exposta em "O Castelo de Papel". Fica aqui o link caso queiram conferir, só clicar aqui.

Qual a versão correta da Princesa e demais personagens eu não sei dizer, não sou historiadora e não me compete opinar além das minhas impressões de leitura. Se você ficou curioso, sugiro que leia e tire suas próprias reflexões, ou conclusões. Gostei do livro, da narrativa acessível, das informações novas para mim. Inclusive já estou com outro livro da autora aqui para ler. De qualquer forma, livros que nos suscitam questionamentos e nos trazem releituras da História do Brasil, são sempre bem-vindos por aqui. Me ajudam a entender muito do comportamento atual, seja dos governantes ou do próprio povo brasileiro. 

Boa leitura!

24 de março de 2020

A VOLTA DOS DEUSES ASTRONAUTAS (Coletânea organizada por Ale Dossena e Lu Evans)

Oi gente!

Hoje passei para divulgar que estamos com mais uma coletânea prontinha para lançamento em e-book pelo selo Nebula. Quem nos acompanha nas redes sociais já deve estar sabendo, é mais um trabalho em parceria com a escritora Lu Evans e que nos deixou muito satisfeitas com o resultado!


Antes de divulgar os participantes, vamos falar um pouco da obra no geral. O tema proposto foi um tanto exótico, pois incorpora mitologias, deuses antigos e teorias da conspiração modernas que falam sobre deuses antigos como seres vindos de outros mundos. Inclusive a ideia foi inspirada na famosa obra do escritor e arqueólogo suíço Erich von Däniken: "Eram os Deuses Astronautas?". Os contos deveriam incorporar elementos de fantasia e ficção científica e os autores, além de dedicarem tempo em pesquisas, usaram e abusaram da imaginação!



A coletânea "A Volta dos Deuses Astronautas" teve como prefaciadora Van Ted, que é escritora e investigadora da teoria do Astronauta Antigo, além de consultora da Revista UFO, roteirista das histórias em quadrinhos Anunnaki - Os Senhores da Eternidade e autora do livro Anunnaki - A Era dos Deuses. Seu trabalho é extenso e se você se interessa pelo tema, pode acessar a página do seu livro aqui e seu blog aqui.



E agora vamos conhecer os autores selecionados, com seus respectivos contos? Percorram os banners individuais para conhecê-los, incluímos uma ilustração com nossa interpretação de cada conto e na descrição da imagem tem uma breve sinopse para você. Começaremos com os contos do Valter Cardoso, nosso autor convidado, e também os que receberam certificado de destaque.

Durante uma escavação, um homem se depara com um imenso objeto metálico, mas ao se ver rodeado de militares, descobre que não é o único interessado em desvendar a origem do artefato. 
Teorias de conspiração sobre discos voadores enterrados na Terra e em Marte são a base desse conto.

Um diário secreto sobre Lilith, a primeira esposa de Adão, é descoberto enquanto os criadores da humanidade retornam para clamar o que lhes pertencem. 
O conto foi inspirado nas lendas de Lilith e na mitologia dos sumérios sobre os Anunnakki.

Será a Terra o berço dos deuses? Ou vieram eles de outros mundos? Sofia encontra as respostas para essas e muitas outras questões no dia em que o Tempo para. 
A autora usou a imponente figura do deus Cronos para falar sobre a importância do tempo.

Após a destruição da Terra, os últimos humanos cruzam o universo em busca de um novo planeta para habitar, mas o Deus supremo não está de acordo com seus planos. 
Esse conto é uma releitura futurista das histórias bíblicas sobre a busca de Terra Prometida.

Abaixo os demais autores selecionados, que não deixaram em nada a desejar nas suas histórias. Teorias da conspiração, encontros e visitas inusitadas, sonhos, horror e aventuras. Histórias para todos os gostos! Aproveitarmos para parabenizar a todos pela criatividade e confiança depositada em nosso trabalho de organização.

Marcos tem sonhos sobre um passado do qual ele não fez parte, e nem mesmo sua terapeuta consegue ajudá-lo, mas uma mulher de outro mundo vem ao seu socorro.
Elementos de séries, documentários, filmes e livros foram usados para compor esse conto.

Uma espaçonave pousa na Terra e os militares precisam da ajuda de um especialista em tecnologia para entrar na nave e desvendar seus segredos.
Mitos gregos, hindus, hebraicos e da Mesopotâmia sobre arcas foram usados nesse conto.

Um robô programado para ter sentimentos e emoções relembra os ensinamentos do seu criador enquanto tenta concretizar a missão de salvar a espécie humana.
Filmes como Prometheus e Ex-Machina serviram de base a a escrita dessa história.

Um podólogo de mente peculiar está realizando um trabalho rotineiro durante o tão esperado retorno dos deuses antigos.
A autora se inspirou na mitologia lovecraftiana do retorno dos antigos para escrever seu conto.

Alienígenas que estiveram na Terra no passado remoto decidem retornar e escravizar os humanos usando os princípios religiosos dos diferentes povos para os manipular.
História de antigos deuses que ditaram os limites da espiritualidade humana inspiraram o autor.

Um astrônomo percebe a aproximação de uma nave alienígena no sistema solar. As autoridades se preparam para receber os visitantes, curiosos para descobrir suas intenções.
A história foi inspirada nas complexas culturas de antigos povos mesoamericanos.

Um homem é atormentado pelas diversas realidades paralelas que vivencia e o contato que tem com misteriosos personagens.
Este conto foi elaborado a partir de relatos de pacientes com patologias mentais.

Um homem recebe de um desconhecido um manuscrito em dialeto extinto, e com a ajuda de uma especialista em línguas mortas, descobre a incrível história de um viajante espacial.
A trama foi inspirada na vida de Allan Kardec, fundador do espiritismo.

Um agente do FBI se vê envolvido em uma aventura arriscada em Jerusalém após a aparição de seres celestiais.
Esse conto foi baseado nas antigas histórias bíblicas a respeito de anjos.

Deu para sentir a diversidade dos contos e a maravilha que vai ser essa coletânea? Também segue um pouquinho dos contos das organizadoras (eu e Lu), e aproveito para deixar o seu blog (só clicar aqui) e a página do selo Nebula para você conhecer todas as publicações (só clicar aqui).

Ela chegou das estrelas com a promessa de um futuro brilhante para as novas gerações da Terra, mas ninguém faz ideia das suas reais intenções.
A teoria da conspiração sobre pessoas ruivas terem ancestrais extraterrestes e o livro "O Fim da Infância" serviram de ponto de partida para essa história.

Uma colecionadora de antiguidades recebe do marido um presente muito especial: um disco com inscrições astecas, mas o objeto desencadeia misteriosos acontecimentos.
Para escrever esse conto, a autora usou a lenda de Coyolxauhqui, deusa asteca da lua.

Eu e Lu, como organizadoras, estamos super empolgadas e finalizando tudo com muito capricho para o lançamento, que será em abril. Acompanhem as notícias em nossas redes sociais e não percam os primeiros dias, porque assim como nas anteriores, teremos um final de semana para download grátis!

Boa leitura!

27 de fevereiro de 2020

EU LI: Teoria do Medalhão (Machado de Assis)


Oi gente!

A postagem de hoje é especial. Vamos falar sobre um conto de Machado de Assis, que li para o projeto literário do Divã de Escrita e coincidiu com a temática que estudei durante o mês de fevereiro (li o conto na edição da foto - "50 Contos de Machado de Assis", da Companhia das Letras). O plano inicial era gravar com o vídeo do mês do Divã, mas decidi deixar minhas impressões do conto aqui no blog, porque fica mais detalhado. Tenho outras coisas para falar no vídeo e dicas de livros para mostrar, está programado para o próximo final de semana.



Então começo com a coincidência que comentei. No mês de fevereiro me aprofundei um pouco no estudo da escrita de diálogos. Li o “Como Escrever Diálogos”, da autora Silvia Adela Kohan e um dos capítulos de “Para Ler Como um Escritor” da Francine Prose era só sobre diálogos. Fiquei bem feliz quando percebi que o conto “Teoria do Medalhão” de Machado de Assis, escolhido para um dos meses do projeto, era composto de um diálogo entre pai e filho, sem narrador. Maravilha não? O universo da Literatura conspirando a favor de quem estuda. =)

O conto “Teoria do Medalhão foi publicado pela primeira vez na Gazeta de Notícias, em 1881. Depois foi integrado ao livro “Papéis Avulsos”, uma coletânea de contos do autor. Machado de Assis construiu muitos personagens que se acham intelectuais, mas que no fundo são perfeitos idiotas. Ele fazia isso para inserir sua crítica social, mostrando a intelectualidade medíocre dos brasileiros da época. Com o conto “Teoria do Medalhão” não foi diferente. O diferencial é que ele conseguiu fazer isso inserindo todas as ideias em um diálogo entre pai e filho.

Após o jantar de aniversário em que o filho completa sua maioridade (21 anos), seu pai inicia com ele uma conversa de aconselhamento. Os conselhos? Basicamente servem para que o filho alcance prestígio em uma sociedade que vive de aparências. Claro que com todo o cinismo, humor e ironia que Machado, apresentando-se como escritor realista na época, sabia muito bem como escrever. Então ele inicia a conversa dizendo que, mesmo que o filho conquista um diploma e uma carreira profissional, gostaria que realizasse seu sonho: se tornar um Medalhão. Para ele significava um homem chegando à maturidade após adquirir fama na sociedade.

Imagine um pai aconselhando o filho a abster-se de ideias próprias e evita-las exercendo atividades como jogos de bilhar. Ou seja, o mesmo que em pleno século XXI, dizer: - Filho, não leia tantos livros que te fazem pensar, se previna gastando seu tempo com realities shows na TV! Ou então: - Esteja sempre acompanhado porque a solidão dá margens a ideias! Ou pior (e essa é do Machado adaptada por mim): - Se for a uma livraria, vá só para bater papo ou contar piadas, isso vai ajudar a reduzir seu intelecto.

E por aí vai o conto. O pai ensinando algumas citações que o filho pode empregar em discursos prontos, como fazer marketing pessoal sem esforço intelectual ou como entrar na política da forma mais neutra possível, sem adotar novas ideias e apenas discursar sobre assuntos que incitem discussões e debates. Sem imaginação, sem reflexão, sem filosofia. Até na área do humor ele arrisca uns conselhos escrupulosos.

“Teoria do Medalhão” é desenvolvida em forma de crítica em torno do comportamento de alguns membros da sociedade, em uma época em que no Brasil ainda imperava uma economia agrícola, com o Rio de Janeiro como principal exportador de café. As falas do pai são uma ironia direta aos que prezam o parecer acima de ser e que obtêm ascensão social sem nada de esforço.

Ao ler os conselhos do pai, conseguimos identificar como são construídos os “medalhões”, que esquecem sua essência para viverem de aparência. Afinal, um medalhão não é isso? Tem um belo, adornado, reluzente, visto e admirado por todos, e outro oculto, sem nenhum atrativo e que fica sempre virado para dentro.

“Teoria do Medalhão” é um conto satírico, muito bem escrito no formato de um diálogo, contendo todos os ingredientes da estética machadiana, que nos permite uma reflexão sobre a mediocridade da sociedade brasileira da época (porém um conto atemporal!). A propósito, preciso ler Voltaire, pois me contaram que seus escritos contêm essa ironia filosófica que pode ter inspirado Machado de Assis.

Boa leitura!