28 de fevereiro de 2021

Ficção, por Catherine Gallagher (do Livro A Cultura do Romance, organizado por Franco Moretti)

Oi gente!

Prosseguindo com o conteúdo da matéria de mestrado que fiz em 2017 (Teoria da Ficção), hoje vou falar um pouco sobre a aula em que estudamos o ensaio de Catherine Gallagher para o livro "A cultura do romance", organizado por Franco Moretti e publicado pela Cosac Naisy (esgotadíssimo!!).


O livro apresenta ensaios sobre história e teoria literária e narra sobre esse gênero tão transgressor e único que é o romance. Franco Moretti é um grande conhecedor da literatura mundial e fez um belo trabalho. "A cultura do romance" basicamente narra sobre a ascensão, o apogeu e a crise do romance, com sua trajetória de conflitos e contradições. 

O ensaio que estudamos chama-se "Ficção" e foi escrito por Catherine Gallaguer, uma historicista americana, crítica literária e professora de inglês na Universidade da Califórnia. Diferente de Frye (que vimos na postagem passada) que buscou as diferenças a partir do romantismo, Gallagher analisa o movimento histórico da ficção. Começa seu ensaio afirmando que "nada no romance é tão óbvio e ao mesmo tempo tão invisível quanto o fato de ser ficção". Para ela, o primeiro passo onde a ficção não tem o compromisso com a veracidade é um exemplo de um personagem que não existe carnalmente mas que existe como espécie. 

Um ponto que achei bem interessante no ensaio é que ela enfatiza a pouca importância teórica dada ao estudo da ficção como conceito. Ela deixa então a sugestão para repensarmos o funcionamento da ficção, iniciando pelo modo de como a literatura tem se expandido para outras formas de narração, especialmente as combinações com narrações históricas ou etnográficas. Também aponta que uma das principais marcas delimitadoras da ficção enquanto modalidade discursiva é reconhecer a diferença entre a pessoa e a personagem. 

Na aula foi citado o exemplo de Fernando Pessoa. Seu espólio está sendo estudado por Jerônimo Pizarro, cujos escritos de Ricardo Reis, um dos heterônimos de Pessoa, alterado frequentemente pelo autor nos textos originais e publicados pelos críticos antigos em suas primeiras versões, agora vem à tona justamente na intenção de dar ao leitor a opção de analisar as nuances do escritor ao colocar no papel suas mudanças como personagem. Ou seja, sair da edição antiga, da qual o leitor está acostumado, para a nova realidade do autor. Na prática, especificamente no caso de Pessoa, é isso: a realidade é precária, mutável. Esses estudos representam a necessidade de se fazer uma separação, mas Pizarro problematiza essa separação, entre o útil da realidade objetiva (sequência de experiências vividas ao longo da experiência humana) e a subjetividade da ficção. 

Para Gallagher, “Não existiria modo algum de entrarmos em outra pessoa e não poderíamos experimentar aquele sutil alívio que sentimos ao pensarmos em nossa particularidade” se não pudéssemos contar com a certeza de que estamos em um mundo inventado, de que a “realidade criada pela ficção” é palpável por meio do personagem que atua como uma máscara para nos lembrar do quanto somos desconhecidos de nós mesmos. Ela fecha o ensaio sugerindo que esse estudo será atemporal, inclusive cita o jogo ontológico como tendência do século XXI. Jogo ontológico é não deixar que o leitor perceba onde está começando a veracidade factual. Quando as fronteiras entre a ficção e a realidade ficam "borradas", pergunta-se ao leitor: - Quem disse que era para ser só prazer, que não era para se correr riscos? 

Por fim, uma citação que achei interessante: "Se a etimologia da palavra tem algo a nos ensinar, devemos concluir que a ficção foi descoberta como modalidade discursiva com estatuto próprio somente quando os leitores desenvolveram a capacidade de distingui-la tanto da realidade como – sobretudo - da mentira."

É muita reflexão acadêmica né? Mas confesso que esse estudo abriu minha mente para meus trabalhos de escrita também.

Consegui alguns links em que você pode baixar o texto da Gallagher, caso interesse:

https://pt.scribd.com/document/317699461/Ficcao-Catherine-Gallagher

https://www.passeidireto.com/arquivo/78115578/literatura-ficcao-catherine-gallagher

https://vdocuments.site/4-catherine-gallagher-ficcao.html

Boa leitura!

25 de fevereiro de 2021

#TBT Especial Divã de Escrita #6 - Minha trajetória (2016 - Continuidade)

Oi gente!

Lá vamos nos para mais um  #TBT do Divã! Hoje relembramos o ano de 2016, que considero uma continuidade do que iniciei em 2013, optando por publicar um livro de contos infanto-juvenis. Além da publicação do meu terceiro livro, também iniciei os trabalhos com o Portão Literário, meu canal no YT. Esses trabalhos me abriram muitas portas no decorrer do ano e também me animaram a começar a visitar feiras e participar de eventos de livros.


Iniciei o ano mais uma vez fazendo um aniversário especial. No mês de fevereiro convidei as amigas do Clube do Livro que eu participava e fiz algo como um "Bazar de Livros". Foram muitas doações, que depois foram direcionadas ao Projeto Pegaí Leitura Grátis. Tem uma postagem sobre essa festinha aqui:

Segundica Literária #5 - Encontro literário! Una o útil ao agradável!


Como já mencionei, um dos grandes momentos do ano foi o lançamento do meu terceiro livro, "O sapo Tonico e sua descoberta", um conto que eu tinha escrito para o projeto de Alagoas e que se transformou em livro solo. O livro também foi ilustrado por mim (de forma bem amadora, mas foi capricho meu, eu queria!), as ilustrações coloridas pela amiga Lu Yaros, e foi um livro muito simbólico na minha carreira. Até hoje ouço falar das aventuras do sapo que aprendeu a ler! A foto abaixo é do lançamento nas Livrarias Curitiba, com direito a contação de histórias, com a amiga Lilian.


Outro momento marcante foi a participação na Bienal do Livro de SP. Já era minha segunda vez e eu fui toda contente autografar "O sapo Tonico e sua descoberta", no estande da editora que produziu o livro. Essa Bienal foi bem especial, além de acompanhada do marido, encontrei várias pessoas que já conhecia virtualmente através dos trabalhos com o canal.


Aqui a gente não entende nada de horóscopo chinês, mas nos meus trabalhos de escritora posso dizer que 2016 foi o ano do sapo (rs). No segundo semestre participei de um evento da Literarte, a editora de "O Diário de Lirityl". Foi um evento de três dias, em que ganhei um prêmio pelo livro da Lirityl e também tive a oportunidade de lançar o Tonico, com direito a camiseta impressa com poema de minha autoria. Tem postagem sobre esse evento aqui:

Segundica Literária #18 - Eventos culturais (Literarte em Curitiba)




Também participei da Bienal de Quadrinhos aqui em Curitiba, além de ter ministrado várias palestras em universidades da cidade, sobre minha trajetória profissional e como resolvi agregar a ela minhas conquistas como escritora.


E aí foi que justamente nesse momento da vida, eis que fui demitida da empresa onde trabalhava. Lembram que contei no final da postagem passada, sobre como as coisas começaram a ficar estranhas, mesmo eu dando conta de tudo e não deixando meu trabalho oficial de lado em momento algum? Pois é. Não adiantou. Em setembro de 2016 eu deixava a empresa para a qual dediquei 22 anos da minha vida. Feliz pelas novas perspectivas mas decepcionada pela tratativa que recebi. A justificativa foi de que meus serviços foram centralizados na matriz de São Paulo, mas eu sabia que a verdade era que, após tantos anos de promoções, meu salário estava bem acima da média do mercado para minha função. Resumindo: paguei um preço por ser competente.

Eu estava com 42 anos e o ano de 2016 foi um divisor de águas na minha vida. Então aproveito o final dessa postagem para perguntar: almejar uma segunda carreira na maturidade é um ato de bravura ou insanidade? Porque um alto executivo de uma empresa não pode gerenciar uma padaria? Porque a competente diretora de marketing não pode se tornar uma talentosa bailarina? A resposta deveria ser "mas pode ué", só que não é bem assim. Aprendi com minha experiência que em algum momento uma parcela da sociedade ditou uma regra absurda que proíbe você de ser quem você quer ser, nem quando é jovem e nem quando se torna dono do seu nariz. Para essa parcela da sociedade a verdadeira regra é: não sonhe, esqueça o que você quer. 

A demissão me fechou uma porta mas abriu as cortinas de janelas que eu já tinha aberto com meu próprio esforço. Hoje sou grata por ter decidido publicar meus livros em 2012 e encarar essa nova área na minha vida. Vejo tantas pessoas sendo demitidas depois dos quarenta anos e acabarem engolidas pela depressão. No meu caso, foi num momento em que estava vislumbrando um novo mundo, e embora em 2017 eu voltasse a trabalhar no meio corporativo (meu trabalho oficial atual), hoje tenho flexibilidade e apoio do meu líder e dos colegas para seguir meus sonhos em paralelo. 

Mas 2017 é assunto para o próximo "#TBT do Divã". Até lá!

18 de fevereiro de 2021

#TBT Especial Divã de Escrita #5 - Minha trajetória (2015 - Absorção)

Oi gente!

Continuando nosso #TBT do Divã, hoje vou contar sobre o ano de 2015. Ano maravilhoso, em todos os sentidos. Em 2015 ganhei um parceiro de vida que me apoiou em tudo, sem cobranças, ciúmes ou competições. Sabe aquela pessoa que soma na sua vida? Esse é o André, meu marido há seis anos. Eu estava naquela fase das realizações e reconhecimento e foi muito bom ter ele ao meu lado, aproveitando cada momento e me dando forças para sonhar mais além. Muitas coisas boas aconteceram em 2015!

Uma novidade logo no início do ano é que iniciei o curso de Licenciatura em Letras, também motivada pelo André, que já tinha cursado o primeiro ano. Eu já tinha duas faculdades e uma pós-graduação (na área em que trabalhava), pensei muito mas decidi que ajudaria nos meus trabalhos de escritora, e lá fui eu (não que tenha ajudado muito, mas isso seria assunto para outra postagem). 

Mas a grande conquista do ano foi nossa viagem à Buenos Aires (Argentina)! Através da Literarte (editora do meu segundo livro) fui convidada a receber uma homenagem do Núcleo de Artes e Letras de Buenos Aires. E aí, como eu e André já estávamos casadinhos, aproveitamos o embalo para uma breve lua-de-mel. Nos divertimos muito, conhecemos lugares maravilhosos, como a Livraria El Ateneo, a Galeria do Rock, o Cemitério La Recoleta, a Casa Rosada, o Estádio La Bombonera e até fizemos pose de tango  no Caminito. Se você gosta de Diários de Viagens, pode conferir os detalhes aqui:

Diário de viagem - Buenos Aires #1



Foram três dias incríveis e a noite da cerimônia foi inesquecível. O evento foi no Teatro Piazzola, com direito a jantar e show de tango. O melhor foi ver meus livros sendo citados e folheados, dar autógrafos durante a cerimônia e receber o Trofeo Casa de Jorge Amado das mãos da Carla Britto, presidente do Núcleo na ocasião. Tem mais fotos aqui:

Diário de viagem - Buenos Aires #2


A viagem foi no início de maio (ou de abril, sabe que agora não lembro!?), mas o restante do ano foi recheado de coisas boas, como as trilhas que percorremos na natureza (primeira foto da postagem), o evento em comemoração aos 150 anos de Alice que organizei com a amiga Pati Dias, o final de semana na Escola do Escritor em SP, além da minha primeira tatuagem e do registro do próximo livro que lançaria em 2016. Eu estava no pique total!!

Encontro Fãs de Alice em Curitiba!

Serendipity



O ano de 2015 também foi marcado pelas primeiras filmagens que em 2016 inauguraram o Portão Literário, canal no YouTube que tenho até hoje. A foto abaixo é para mim o registro desse momento tão importante na minha vida. Eu era extremamente tímida e sem jeito com câmeras (só ver os primeiros vídeos do canal para comprovar!! rs), não fosse a insistência e apoio do André, que inclusive é o responsável pelo nome do canal, ele não existiria.


Pois bem. Foi um ano produtivo, alegre e leve. Eu estava empolgada com a ideia de publicar "O sapo Tonico e sua descoberta", uma história que fez parte daquele projeto em Alagoas que eu mostrei na postagem passada. Eu também ainda não fazia ideia de que dar continuidade na literatura infantil seria futuramente um obstáculo para meus outros trabalhos como escritora. O importante é que estava feliz e pronta para mais uma publicação!


Mas, como nem tudo são flores, lembram que comentei no post passado sobre o lado profissional? Aqui nesse momento, as coisas começaram a ficar tensas no meu trabalho oficial. E não era por mim, eu dava conta! Trabalhava em período integral, fazia faculdade à noite e escrevia nas horas vagas. Todos os eventos que participei eram usados com dias de férias acumuladas ou em feriados. Porém, quando você trabalha muito tempo no ambiente corporativo, se dá conta de que nem todas as pessoas são "mente aberta" e enxergam a amplitude que existe além da mesa de trabalho. A empresa em que eu trabalhava começou a centralizar serviços na matriz de SP e coincidentemente, eu já era vista por alguns como a profissional que "resolveu ser escritora e não quer mais trabalhar". Como se as duas coisas não fossem compatíveis né? 

Mas isso é história para a próxima postagem. Espero você para contar sobre 2016 no próximo TBT do Divã de Escrita!

10 de fevereiro de 2021

O Imaginativo e o Imaginário (do Livro A Imaginação Educada de Northrop Frye)

Oi gente!

No final de 2017 eu fiz uma matéria do mestrado de Literatura na UFPR (Teoria da Ficcão), naquele esquema de aluno-visitante, para ver como era e decidir se encararia um mestrado aos quarenta e três anos, sem pretender lecionar. Por alguns motivos que prefiro não mencionar, mas também por achar que seria muito empenho para pouco conteúdo que realmente me interessava, não me inscrevi no curso (não diminuindo o mestrado, mas como não era minha intenção lecionar, achei muito técnico e pensei ser mais vantajoso partir para os cursos livres e focados nos meus temas preferidos).

Pois bem, como nenhum aprendizado é jogado no lixo, foram alguns meses de muita bagagem literária que angariei e até hoje mantive em minhas anotações pessoais. Então, dias atrás, pensei: "Porque não compartilhar né? Quem sabe animo alguém a fazer o mestrado!"

Então hoje começo a resgatar minhas anotações das aulas e registrar aqui no blog para quem se interessar. A primeira aula foi sobre um dos ensaios de Northrop Frye contidos no livro "A Imaginação Educada". 

Imagem: pxhehe.com


"Mas na imaginação vale tudo o que se possa ser imaginado, e o limite da imaginação é um mundo totalmente humano. Aqui resgatamos, em plena consciência, aquele perdido sentimento original de identificação com o que nos cerca, onde nada é externo à mente humana, onde tudo é idêntico à mente humana.” (Northrop Frye)

E quem foi Herman Northrop Frye? Frye viveu entre 1912 e 1991 e foi um dos mais influentes teóricos da literatura do século XX. "A Imaginação Educada" é uma transcrição de seis palestras concedidas pelo autor, na década de 60, a uma emissora de rádio canadense. O crítico apresenta sua visão sobre o significado e importância da literatura, apresentando inclusive um plano de estudos de literatura objetivando "educar a imaginação". Como assim? (também me perguntei isso na época!)

Imagem: wikipédia


Na verdade Frye reforça o conceito de que a linguagem e a literatura são a base de todas as relações sociais, por isso para ele, a criatividade e a imaginação que podem ser influenciadas pela literatura, se encontram na base da vida social. A força imaginativa ou criadora na mente é o que produziu tudo, o que chamamos de cultura ou civilização. Ou seja, o mundo em que vivemos foi criado em grande parte pela imaginação humana. Então educar a imaginação é também criar um povo liberto, que não se limita aos padrões ou se ilude com clichês. Ele afirma na página 121 que, "o trabalho que a imaginação vai executar no dia a dia é produzir, a partir da sociedade em que temos que viver, uma visão da sociedade em que queremos viver". Profundo né? 

Se pensarmos que a mitologia foi a primeira forma de associação e identificação e que deu origem ao que veio depois, inclusive a literatura, percebemos que com as transformações sociais, culturais e históricas, muitas narrativas mitológicas se tornaram desacreditadas. Porém, os heróis continuam representando arquétipos até hoje inseridos nas obras literárias. 

Com o romantismo, a ordem maior, antes privada pelo senso (principalmente das religiões), agora poderá ser regulada pelo indivíduo. Com isso, a criação passa a ser também do indivíduo, confrontando com a ideia de ordem de força maior.  Notamos uma mudança, por exemplo, desde a publicação de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, em 1840, que foi criticada por sair dos padrões literários, onde a autora mostra a natureza violenta (real) apresentada no contexto dela. Vivemos uma era dos discursos que se adequam à compreensão de que hoje nós construímos o nosso mundo e nosso modo de operar o mundo. O conceito de individualidade já estava consolidado em 1962, quando Fyre escreveu seu ensaio, mas foi reforçado a partir de então.

Imagem: pxhehe.com

O autor traz ao leitor vários conceitos que facilitam a educação imaginária, que não apenas conhece as narrativas que moldam o ser humano, mas também aplica esse olhar associativo para pertencer ao mundo, protegendo-se de ideologias e ilusões nas tentativas de grupos da sociedade que tentam manipular as pessoas.

Então, é possível vivermos em um mundo onde a visão é descompromissada com o real?  

Segundo Frye, Dom Quixote sugeria entrar no centro do senso, onde cada visão particular respeitava a visão do próximo, a fim de vivermos em sociedade de maneira ideal. A aposta de Frye é que, se existe um senso estabelecido, você tenha um imaginário para aplicar o contra senso quando o mesmo sair do controle. No final das contas, para ele sem a imaginação não existe humanidade, pois ela é uma forma das pessoas se identificarem e pertencerem ao mundo.

Mas será que vivemos em um mundo democrático onde tudo pode? Quais os termos do senso que nos regem hoje? São perguntas provocativas que nos levam a pensar, por exemplo, em uma questão muito debatida atualmente, sobre literatura como arte ou como produto. Nesse caso, será que a lei de mercado no contexto atual rege o senso?

"A Imaginação Educada" abre nossa mente como escritores e leitores de literatura. Vale a pena mergulhar no mundo de Frye. Ele nos passa o recado de que educar a imaginação é também nos assumir como transformadores da sociedade em que vivemos. 

Boa leitura!

4 de fevereiro de 2021

#TBT Especial Divã de Escrita #4 - Minha trajetória (2014 - Realização)

Oi gente!

Continuando nosso #TBT do Divã, hoje vou contar sobre o ano de 2014, que para mim foi um ano de muitas realizações mas também de grandes mudanças na vida pessoal. Foi um ano de autoconhecimento, percepção de talentos que eu não acreditava em mim, além de um ano em que me libertei de sentimentos do passado, terminando por descobrir que eles me sufocavam ao invés de me fazerem bem.


Comecei o ano completando 40 aninhos de vida. Sim! Os "enta" foram um divisor de águas na minha vida. Nasci em fevereiro e naquele ano, fiz três comemorações (uma com minha família, uma com a família do "relacionamento complicado" e uma com meus amigos, essa última em um restaurante mexicano. Então lá vai meu registro oficial da virada para os "enta".


Nessa época eu ainda estava naquele relacionamento que comentei em algumas postagens, foram em média de 5 a 6 anos de relacionamento, era um resgate de um relacionamento do passado (um retorno após quatorze anos de afastamento) e eu continuava achando que daria certo. Mas infelizmente até nosso coração se engana, descobrimos que os sentimentos se confundem e na ânsia de agradar a outra pessoa, esquecemos de quem somos. Foi basicamente o que aconteceu. Pela segunda vez na minha vida, com a mesma pessoa. Ainda assim comecei o ano lutando para fazer dar certo, mas parece que minha "recente libertação" começou a incomodar. Eu passei a fazer coisas sozinha, como por exemplo, viajar à Floripa para visitar minha grande amiga Déa e levar um exemplar de "O Diário de Lirityl" para o Henrique, seu filho. De quebra também conheci a Cecília, filha da amiga Gisele. Foi demais! Tem uma postagem aqui no blog sobre a viagem:

Diário de viagem Floripa - [Visitando Henrique e Cecília]



O ano foi passando, eu vendia meus exemplares pela internet e logo a primeira edição (pela CBJE) esgotou. Eu já estava em contato com a presidente da Literarte (que conheci no evento Melhores Contistas, mencionado no post anterior) e decidi fazer minha segunda edição com eles, decisão acertada que me abriu muitas portas e me trouxe mais premiações. O primeiro reconhecimento foi conseguir uma vaga para autografar o livro na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que aconteceu entre 22 a 31 de agosto de 2014.

No início de agosto meu relacionamento chegou ao fim. Um episódio recorrente, mas que na ocasião foi a gota d'água, me trouxe a decisão de colocar em definitivo um ponto final. Términos de relacionamento são tristes, decepcionantes. Mas eu acho que qualquer rompimento tem responsabilidade nas duas partes. Sempre admiti minhas fraquezas e defeitos, não sou perfeita. Infelizmente, se a outra parte acha que detém a perfeição e que a culpa está de um lado só, não tem como haver continuidade, na minha opinião. Só que o fato do ponto final ter sido colocado semanas antes da viagem à Bienal, fui julgada por ter feito propositalmente. E isso rendeu meses de críticas e julgamentos, que graças ao apoio dos amigos e minha consciência tranquilíssima, não afetou minhas conquistas. Sim gente! Eu vivi assédio moral em um relacionamento, percebi isso depois de muito tempo, mas garanto a vocês que é uma violência tão destrutiva quanto a violência física. Importante finalizar esse assunto (porque ninguém veio aqui para ouvir meus desabafos pessoais né?) registrando que não guardo nenhuma mágoa da pessoa e dos que me julgaram. Foi um baita aprendizado para minha vida em vários aspectos. Eu não seria a Ale que sou hoje sem superar esse processo.

Mas vamos falar de coisas boas! Eis que embarquei no avião rumo à minha primeira Bienal do Livro e... foi um momento maravilhoso! Não só conhecer uma feira gigante de livros, mas como uma autora publicada com horário para autografar. Sensação indescritível ver minha foto nos cartazes, meu livro na prateleira e dar até entrevista para a TV! Tem várias postagens aqui no blog sobre a Bienal de 2014:

Lirityl na Bienal de SP 2014!





Voltando da Bienal eu já tinha outra viagem marcada para setembro. Através da professora Simone, que atua em uma escola em Luziápolis, no interior do Alagoas e que me descobriu pela internet, fui convidada pela Prefeitura e Secretaria da Educação de lá, para visitar as escolas e levar meu livro às crianças alagoanas. E lá fui eu, acompanhada da minha fiel escudeira amiga Vera, conhecer a linda Maceió e depois o interior de Alagoas.

Os primeiros dois dias foram programados para turistar. Nos divertimos conhecendo os pontos turísticos e históricos, praias e artesanato local. E que povo acolhedor!!!! Tem duas postagens no blog sobre os primeiros dias da viagem:



Depois, enquanto a Vera ficava em Maceió aproveitando o resto do feriadão (foi no feriado de 7 de setembro), o Secretário da Educação de Luziápolis me apanhou em Maceió e lá fomos nós levar a Lirityl para o interior do estado. Foram momentos inesquecíveis, abraços que sinto até hoje e palavras de carinho que vez em quando sussurram como lembranças em meus ouvidos. Visitei escolas, a turma da Simone fez um teatro com o conto da Lirityl no evento da escola, fotografei muito, ganhei presentes, fui convidada a falar ao lado da prefeita da cidade, que inclusive me acolheu generosamente também. Almocei na casa da Simone, conheci sua família e recebi um carinho imenso do "painho" e da "mainha", que até hoje enche meu coração de gratidão. Sem palavras para expressar tudo em um parágrafo, está tudo detalhado nas postagens abaixo:



Bom, acho que nem precisava de mais eventos para definir o ano de 2014 como um dos mais especiais nos meus trabalhos como escritora. E digo mais, a viagem à Luziápolis foi um marco inesquecível na minha vida em vários aspectos. Conviver alguns dias com a simplicidade e alegria daquele povo que vive feliz com tão pouco material, e que preenche essa escassez com fé e disposição em abundância, me trouxe ainda mais mudanças e diferentes perspectivas. As novidades na escrita em 2014 param por aí, mas quando retornei de Maceió houve a consolidação de uma grande mudança na vida pessoal. 

Lá pela metade do ano, eu tinha participado de um encontro que reuniu duas turmas da oitava série do ensino fundamental (25 anos depois da formatura!!) e revi muitos amigos e amigas da adolescência. A chave para esse encontro foi uma professora de português, inesquecível para a maioria dos alunos: a professora Josiana (à direita na foto).


Acontece que duas semanas depois que voltei de Maceió (e agora oficialmente solteira novamente), fui a um churrasco com essa turminha e a professora Josiana levou seu filho, o André, que também estava separado do último relacionamento e morando com ela na época. E o André me foi apresentado naquele churrasco, conversamos muito e ele me contou que estava cursando Letras, e começamos a falar de livros, descobrimos uma paixão em comum pela literatura de Tolkien, trocamos contatos e telefones e... hoje o André é meu marido e a professora Josiana inesquecível, minha sogra! 

Parece história de ficção né? Principalmente vindo de uma escritora. Mas afirmo e "dou fé" que não é invenção, tudo aconteceu exatamente desse jeito. E tem mais, naquele dia do churrasco eu deixei de ir ao casamento da minha prima (que hoje já me perdoou...rs), porque confesso, não tenho muito saco para eventos formais demais. Então, 2014 foi ou não foi um ano de decisões felizes e acertadas? 

Hoje posso afirmar sem que isso pareça discurso de autoajuda, porque vivi essa experiência: "Quando você se reconhece como ser único e especial, valorizando suas qualidades e perdoando seus defeitos embora buscando sempre se melhorar, o Universo conspira a seu favor".  

Comecei 2015 me sentindo amada, reconhecida e amadurecida. Mais momentos felizes porém outra mudança começava a acontecer: no lado profissional. Espero você para contar sobre 2015 no próximo TBT do Divã de Escrita!