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13 de abril de 2024

EU LI: Os Manuscritos Perdidos (Charlotte Brontë)

Oi gente!

Tem um livro que fez parte das minhas leituras de 2021 mas acho que vale registrar aqui.


"Os Manuscritos Perdidos" contém quatro ensaios de pesquisadoras e especialistas nas obras das Bronte sobre a história de um livro da família que ficou escondido com colecionadores por mais de duzentos anos.

Tudo teve início em 1810, quando Maria Branwell, que se tornaria mãe das famosas irmãs Brontë, obteve um livro, em sua terra natal. Dois anos depois, ela se mudou e o exemplar estava entre seus bens que naufragaram em um navio. O livro foi recuperado intacto e tornou-se precioso para toda a Família Brontë, sendo não apenas uma fonte de leitura, mas também de anotação pelas irmãs Charlotte, Emily, Anne, seu irmão Branwell e seu pai, Patrick. O ensaio que trata sobre como o livro inspirou Emily a escrever sua obra-prima "O Morro dos Ventos Uivantes" é sensacional.

Para quem gosta das vidas e obras das Bronte, é um livro riquíssimo de informações.

Boa leitura!

6 de março de 2021

Defesas da Poesia (Sir Philip Sidney & Percy Bysshe Shelley)

Oi gente!

Hoje trago mais uma aula da matéria do mestrado que estava em minhas anotações. Estudamos a obra "Defesas da Poesia", publicada em 1585 e que contém dois ensaios dos autores Sir Philip Sidney e Percy Bysshe Shelley (sim, o esposo da nossa queridinha Mary Shelley, autora de Frankestein!). 

Com cerca de 240 anos de intervalo, duas clássicas "Defesas da Poesia": a de sir Philip Sidney (1554-1586) e a de Percy Shelley (1792-1822) empenharam-se em responder ao famoso anátema de Platão. A editora Iluminuras, em colaboração com a FAPESP, reúne os dois textos num único volume, com tradução de Enid Abreu Dobránszky, que também assina um extenso, erudito e importante ensaio introdutório.

Na aula focamos no primeiro ensaio, cujo contexto histórico e autor eu descrevo abaixo.


Foi no reinado de Elizabeth I que surgiram na Inglaterra vários escritores que deixaram seu nome na história da literatura, entre eles Shakespeare e Ben Johson. Entre eles, embora longe das ruas e teatros pois vivia na corte, estava Sir Philip Sidney, um jovem poeta aristocrata e sobrinho de Sir Robert Dudley, um dos pretendentes à mão da rainha. Sidney nasceu em Kent, em 1554 e em 1572 viajou para a França com a embaixada que negociaria o casamento entre Elizabeth I e o Duque D'Alençon. Percorreu a Europa por vários anos, passando pela Alemanha, Itália, Polônia e Áustria e conhecendo intelectuais e políticos da época.

Em suas andanças, Sidney se incomodou com acusações feitas por puritanos, de que a poesia incitava à imoralidade, e em resposta, escreveu "Defence of Poetry", que dois séculos mais tarde, Shelley usava como inspiração para escrever sua defesa também, agora para responder a acusações de irrelevância da literatura dentro de uma era de progressos científicos. Hoje, os ensaios publicados postumamente adquiriram grande importância nos estudos da língua inglesa e na crítica literária ocidental.

Voltando à Sidney e sua defesa, cujo texto insiste no caráter edificante da poesia, o autor usa de vários argumentos e considera que os historiadores estão presos ao que aconteceu, enquanto que os poetas imaginam o que vai acontecer. Para ele poesia é a "arte da imitação" da natureza. Na época, para os classicistas, "imitar" (inclusive um autor) era um grande valor, diferente de hoje que beira a ofensa. 

"A poesia é, pois, uma arte de imitação, uma vez que Aristóteles a define pela palavra "mímeses", isto é, uma representação, uma simulação, ou figuração - para falar metaforicamente, uma imagem eloquente -cuja finalidade é ensinar e dar prazer". (Página 98) 

No texto Sidney parece que não querer banalizar a literatura, sequer se colocando como poeta. Embora defenda a poesia, a defende para os sábios. Segundo ele, o poeta é um "filósofo popular", ou seja, chega às massas. Em Poética, de Aristóteles, não havia espaço para a liberdade de escrita. Ex.: Quero falar de tragédia preciso falar dos nobres. Se quero falar das classes baixas, preciso escrever comédia. Havia regras, que só se extinguiram com o romancismo. Sidney atuou antes de Shakespeare, que inclusive teve muitos problemas com os neoclassicistas por chegar a misturar comédia com tragédia. Segundo ele, o poeta inspira ao que é valor, princípios, verdade. Ex.: Hércules, Áquiles, Enéas.

"...nem serdes mortos pelos encantamentos da poesia, ... ainda assim vos envio esta maldição, em nome de todos os poetas: que enquanto viverdes apaixonados e nunca sereis correspondidos porque vos faltará o talento para compor um soneto e quando morrerdes, ... vossa memória será varrida da terra por falta de um epitáfio".

Sidney tornou-se um dos mais importantes poetas do Reino Unido, chegando a conhecer Giordano Bruno em 1584, que a ele dedicou dois livros. Como protestante, participou de várias batalhas contra tropas espanholas e holandesas, até que em 1586, na Batalha de Zutphen, foi atingido e faleceu vinte e seus dias depois. 

O texto de Sidney nos traz uma análise da literatura da época e do quanto esforço houve para rebater os que a consideravam mentirosa e fútil. Talvez hoje tenhamos nos distanciado muito do puritanismo e do espírito de cobrança política a que esses dois textos, cada qual com o vocabulário próprio de seu tempo, procuram responder. Mas é interessante acompanhar os movimentos e como a literatura mudou sua forma ao longo dos séculos.

Boa leitura!

28 de fevereiro de 2021

Ficção, por Catherine Gallagher (do Livro A Cultura do Romance, organizado por Franco Moretti)

Oi gente!

Prosseguindo com o conteúdo da matéria de mestrado que fiz em 2017 (Teoria da Ficção), hoje vou falar um pouco sobre a aula em que estudamos o ensaio de Catherine Gallagher para o livro "A cultura do romance", organizado por Franco Moretti e publicado pela Cosac Naisy (esgotadíssimo!!).


O livro apresenta ensaios sobre história e teoria literária e narra sobre esse gênero tão transgressor e único que é o romance. Franco Moretti é um grande conhecedor da literatura mundial e fez um belo trabalho. "A cultura do romance" basicamente narra sobre a ascensão, o apogeu e a crise do romance, com sua trajetória de conflitos e contradições. 

O ensaio que estudamos chama-se "Ficção" e foi escrito por Catherine Gallaguer, uma historicista americana, crítica literária e professora de inglês na Universidade da Califórnia. Diferente de Frye (que vimos na postagem passada) que buscou as diferenças a partir do romantismo, Gallagher analisa o movimento histórico da ficção. Começa seu ensaio afirmando que "nada no romance é tão óbvio e ao mesmo tempo tão invisível quanto o fato de ser ficção". Para ela, o primeiro passo onde a ficção não tem o compromisso com a veracidade é um exemplo de um personagem que não existe carnalmente mas que existe como espécie. 

Um ponto que achei bem interessante no ensaio é que ela enfatiza a pouca importância teórica dada ao estudo da ficção como conceito. Ela deixa então a sugestão para repensarmos o funcionamento da ficção, iniciando pelo modo de como a literatura tem se expandido para outras formas de narração, especialmente as combinações com narrações históricas ou etnográficas. Também aponta que uma das principais marcas delimitadoras da ficção enquanto modalidade discursiva é reconhecer a diferença entre a pessoa e a personagem. 

Na aula foi citado o exemplo de Fernando Pessoa. Seu espólio está sendo estudado por Jerônimo Pizarro, cujos escritos de Ricardo Reis, um dos heterônimos de Pessoa, alterado frequentemente pelo autor nos textos originais e publicados pelos críticos antigos em suas primeiras versões, agora vem à tona justamente na intenção de dar ao leitor a opção de analisar as nuances do escritor ao colocar no papel suas mudanças como personagem. Ou seja, sair da edição antiga, da qual o leitor está acostumado, para a nova realidade do autor. Na prática, especificamente no caso de Pessoa, é isso: a realidade é precária, mutável. Esses estudos representam a necessidade de se fazer uma separação, mas Pizarro problematiza essa separação, entre o útil da realidade objetiva (sequência de experiências vividas ao longo da experiência humana) e a subjetividade da ficção. 

Para Gallagher, “Não existiria modo algum de entrarmos em outra pessoa e não poderíamos experimentar aquele sutil alívio que sentimos ao pensarmos em nossa particularidade” se não pudéssemos contar com a certeza de que estamos em um mundo inventado, de que a “realidade criada pela ficção” é palpável por meio do personagem que atua como uma máscara para nos lembrar do quanto somos desconhecidos de nós mesmos. Ela fecha o ensaio sugerindo que esse estudo será atemporal, inclusive cita o jogo ontológico como tendência do século XXI. Jogo ontológico é não deixar que o leitor perceba onde está começando a veracidade factual. Quando as fronteiras entre a ficção e a realidade ficam "borradas", pergunta-se ao leitor: - Quem disse que era para ser só prazer, que não era para se correr riscos? 

Por fim, uma citação que achei interessante: "Se a etimologia da palavra tem algo a nos ensinar, devemos concluir que a ficção foi descoberta como modalidade discursiva com estatuto próprio somente quando os leitores desenvolveram a capacidade de distingui-la tanto da realidade como – sobretudo - da mentira."

É muita reflexão acadêmica né? Mas confesso que esse estudo abriu minha mente para meus trabalhos de escrita também.

Consegui alguns links em que você pode baixar o texto da Gallagher, caso interesse:

https://pt.scribd.com/document/317699461/Ficcao-Catherine-Gallagher

https://www.passeidireto.com/arquivo/78115578/literatura-ficcao-catherine-gallagher

https://vdocuments.site/4-catherine-gallagher-ficcao.html

Boa leitura!

10 de fevereiro de 2021

O Imaginativo e o Imaginário (do Livro A Imaginação Educada de Northrop Frye)

Oi gente!

No final de 2017 eu fiz uma matéria do mestrado de Literatura na UFPR (Teoria da Ficção), naquele esquema de aluno-visitante, para ver como era e decidir se encararia um mestrado aos quarenta e três anos, sem pretender lecionar. Por alguns motivos que prefiro não mencionar, mas também por achar que seria muito empenho para pouco conteúdo que realmente me interessava, não me inscrevi no curso (não diminuindo o mestrado, mas como não era minha intenção lecionar, achei muito técnico e pensei ser mais vantajoso partir para os cursos livres e focados nos meus temas preferidos).

Pois bem, como nenhum aprendizado é jogado no lixo, foram alguns meses de muita bagagem literária que angariei e até hoje mantive em minhas anotações pessoais. Então, dias atrás, pensei: "Porque não compartilhar né? Quem sabe animo alguém a fazer o mestrado!"

Então hoje começo a resgatar minhas anotações das aulas e registrar aqui no blog para quem se interessar. A primeira aula foi sobre um dos ensaios de Northrop Frye contidos no livro "A Imaginação Educada". 

Imagem: pxhehe.com


"Mas na imaginação vale tudo o que se possa ser imaginado, e o limite da imaginação é um mundo totalmente humano. Aqui resgatamos, em plena consciência, aquele perdido sentimento original de identificação com o que nos cerca, onde nada é externo à mente humana, onde tudo é idêntico à mente humana.” (Northrop Frye)

E quem foi Herman Northrop Frye? Frye viveu entre 1912 e 1991 e foi um dos mais influentes teóricos da literatura do século XX. "A Imaginação Educada" é uma transcrição de seis palestras concedidas pelo autor, na década de 60, a uma emissora de rádio canadense. O crítico apresenta sua visão sobre o significado e importância da literatura, apresentando inclusive um plano de estudos de literatura objetivando "educar a imaginação". Como assim? (também me perguntei isso na época!)

Imagem: wikipédia


Na verdade Frye reforça o conceito de que a linguagem e a literatura são a base de todas as relações sociais, por isso para ele, a criatividade e a imaginação que podem ser influenciadas pela literatura, se encontram na base da vida social. A força imaginativa ou criadora na mente é o que produziu tudo, o que chamamos de cultura ou civilização. Ou seja, o mundo em que vivemos foi criado em grande parte pela imaginação humana. Então educar a imaginação é também criar um povo liberto, que não se limita aos padrões ou se ilude com clichês. Ele afirma na página 121 que, "o trabalho que a imaginação vai executar no dia a dia é produzir, a partir da sociedade em que temos que viver, uma visão da sociedade em que queremos viver". Profundo né? 

Se pensarmos que a mitologia foi a primeira forma de associação e identificação e que deu origem ao que veio depois, inclusive a literatura, percebemos que com as transformações sociais, culturais e históricas, muitas narrativas mitológicas se tornaram desacreditadas. Porém, os heróis continuam representando arquétipos até hoje inseridos nas obras literárias. 

Com o romantismo, a ordem maior, antes privada pelo senso (principalmente das religiões), agora poderá ser regulada pelo indivíduo. Com isso, a criação passa a ser também do indivíduo, confrontando com a ideia de ordem de força maior.  Notamos uma mudança, por exemplo, desde a publicação de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, em 1840, que foi criticada por sair dos padrões literários, onde a autora mostra a natureza violenta (real) apresentada no contexto dela. Vivemos uma era dos discursos que se adequam à compreensão de que hoje nós construímos o nosso mundo e nosso modo de operar o mundo. O conceito de individualidade já estava consolidado em 1962, quando Fyre escreveu seu ensaio, mas foi reforçado a partir de então.

Imagem: pxhehe.com

O autor traz ao leitor vários conceitos que facilitam a educação imaginária, que não apenas conhece as narrativas que moldam o ser humano, mas também aplica esse olhar associativo para pertencer ao mundo, protegendo-se de ideologias e ilusões nas tentativas de grupos da sociedade que tentam manipular as pessoas.

Então, é possível vivermos em um mundo onde a visão é descompromissada com o real?  

Segundo Frye, Dom Quixote sugeria entrar no centro do senso, onde cada visão particular respeitava a visão do próximo, a fim de vivermos em sociedade de maneira ideal. A aposta de Frye é que, se existe um senso estabelecido, você tenha um imaginário para aplicar o contra senso quando o mesmo sair do controle. No final das contas, para ele sem a imaginação não existe humanidade, pois ela é uma forma das pessoas se identificarem e pertencerem ao mundo.

Mas será que vivemos em um mundo democrático onde tudo pode? Quais os termos do senso que nos regem hoje? São perguntas provocativas que nos levam a pensar, por exemplo, em uma questão muito debatida atualmente, sobre literatura como arte ou como produto. Nesse caso, será que a lei de mercado no contexto atual rege o senso?

"A Imaginação Educada" abre nossa mente como escritores e leitores de literatura. Vale a pena mergulhar no mundo de Frye. Ele nos passa o recado de que educar a imaginação é também nos assumir como transformadores da sociedade em que vivemos. 

Boa leitura!