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6 de março de 2026

Personalidades #15 - Charles Dickens

Oi gente!

Vocês agora me perguntarão, porque, anos depois eu volto com a série Personalidades. Pois respondo que "não sei". Deu vontade. E estou naquela fase de transição para a menopausa que faço o dá vontade e ninguém me manda...rs. Por isso tô botando em dia alguns conteúdos que há tempos estou em dívida de deixar por aqui, até porque uso esse espaço para me organizar também e guardar tudo que acho importante relacionado à viagens, escritos e principalmente, literatura.

E um dos temas que preciso deixar aqui é uma das personalidades mais caricatas e debatidas da história da literatura inglesa: Charles Dickens. Autor que gosto demais e do qual já li quase toda a obra.


Minha narrativa sobre a vida de Charles Dickens

Entre os grandes nomes da literatura inglesa do século XIX, poucos tiveram uma trajetória tão intensa quanto a de Dickens. Embora tenha se tornado mundialmente conhecido como romancista e jornalista, sua primeira paixão era outra: o teatro. Desde muito jovem dizia sentir-se, antes de tudo, um ator. Para ele, a arte de representar não era simples entretenimento, mas uma espécie de refúgio, ou um espaço onde a imaginação podia transformar a realidade.

Essa ligação profunda com o palco atravessou toda a sua obra. Em seus romances, os personagens frequentemente surgem com traços exagerados, quase caricaturais, como figuras de uma peça teatral. A forma como falam, gesticulam e se expressam revela o olhar de alguém acostumado a observar o comportamento humano como um ator observa sua plateia.

Mas Dickens não permaneceu apenas como espectador do teatro. Ele também participou ativamente da cena cultural de sua época, escrevendo peças, dirigindo montagens e atuando. Em muitas ocasiões percorreu cidades com companhias teatrais e, mais tarde, com algo que se tornaria sua marca: as leituras públicas de seus próprios textos. Nessas apresentações, interpretava cada personagem com vozes e sotaques diferentes, transformando a leitura em verdadeiro espetáculo.

A aquarela "O Sonho de Dickens" pintada em 1875 por Robert William Buss

O sucesso dessas apresentações foi tão grande que o levou até os Estados Unidos. As páginas de obras como Oliver Twist trazem inclusive indicações de entonação e emoção, quase como se fossem roteiros de palco. Para as leituras, Dickens costumava revisar seus próprios textos, selecionando os trechos mais dramáticos ou mais engraçados.

A dedicação era tamanha que, em casa, frequentemente ensaiava em voz alta diante do espelho. Sua filha Kate contava que, por vezes, pensava que o pai discutia com alguém em outro cômodo quando, na verdade, ele estava apenas experimentando vozes e expressões para seus personagens. 

Na Inglaterra vitoriana, Dickens tornou-se uma figura de enorme destaque. Ele conviveu com nomes importantes da política, da literatura e do teatro, além de ter encontrado a própria rainha Queen Victoria. Entre seus admiradores estavam escritores como Fyodor Dostoevsky e Leo Tolstoy, que chegou a afirmar que os personagens de Dickens pareciam “amigos pessoais”.

Seu círculo de convivência incluía autores e intelectuais notáveis, entre eles Alfred Lord Tennyson, Robert Browning, Elizabeth Gaskell, Wilkie Collins e George Eliot. Durante um período, também recebeu em sua casa o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen.

Apesar da fama e do convívio com personalidades influentes, Dickens nunca perdeu o interesse pelos problemas sociais. Pelo contrário: quanto mais visibilidade conquistava, mais se dedicava a causas relacionadas aos mais vulneráveis. Defendia melhorias nas condições de vida de órfãos, crianças abandonadas e mulheres em situação de vulnerabilidade, chegando inclusive a apoiar a criação de instituições voltadas à recuperação de prostitutas.

Houve quem sugerisse que ele entrasse para a política. Dickens, porém, acreditava que sua maior força estava na literatura. Por meio da ficção, poderia alcançar um público maior e provocar reflexões profundas sobre a sociedade.

Local de nascimento de Charles Dickens, no n.º 393, Commercial Road, Portsmouth

Sua infância moldou a carreira de escritor. Grande parte da sensibilidade social presente em seus livros tem origem em sua própria infância. Ainda menino, Dickens viu sua família enfrentar graves dificuldades financeiras. Quando o pai foi preso por dívidas, a situação se agravou de maneira dramática.

O jovem Charles teve de abandonar a escola em Kent e enfrentar uma realidade dura em Londres. Enquanto a mãe e os irmãos foram viver na prisão de devedores ao lado do pai, ele permaneceu do lado de fora, trabalhando em uma fábrica de graxa em condições precárias.

Essa experiência de pobreza e abandono deixou marcas profundas. Décadas depois, essas lembranças surgiriam transformadas em literatura. Personagens como os protagonistas de David Copperfield e Oliver Twist carregam ecos claros dessa fase difícil da vida do autor.

A situação familiar mudou quando uma herança inesperada permitiu que seu pai quitasse as dívidas e recuperasse a liberdade. A mãe desejava que o filho continuasse trabalhando na fábrica, mas Dickens implorou ao pai que o deixasse voltar à escola. A decisão de retomar os estudos foi decisiva para seu futuro.

Já jovem adulto, Dickens começou a trabalhar como jornalista. Nos primeiros textos utilizava o pseudônimo Boz, nome sob o qual publicou seu primeiro grande sucesso: The Pickwick Papers, lançado inicialmente em fascículos mensais.

A estratégia de publicação em partes era comum na época e ajudou a construir um público fiel. Depois desse sucesso inicial vieram muitos outros romances, também publicados em série, entre eles Nicholas Nickleby, Bleak House, A Tale of Two Cities e Great Expectations. Outra obra marcante foi A Christmas Carol, escrita com o objetivo de sensibilizar a sociedade para a pobreza e estimular a caridade durante o período natalino.

O sucesso literário trouxe reconhecimento e prosperidade financeira. Mas apesar da fama e da estabilidade financeira, a vida pessoal de Dickens foi marcada por tensões. Após mais de vinte anos de casamento e dez filhos, separou-se da esposa, Catherine Dickens, decisão que gerou críticas e polêmica na sociedade da época. Nesse período também manteve um relacionamento secreto com a jovem atriz Ellen Ternan, muito mais nova que ele. A relação permaneceu envolta em mistério por muitos anos e ainda hoje levanta especulações entre biógrafos.

Mesmo com problemas de saúde cada vez mais evidentes, incluindo dores constantes, pressão alta e dificuldades cardíacas, Dickens continuou realizando suas famosas leituras públicas. Para ele, subir ao palco era uma forma de conexão profunda com o público.

Durante os últimos anos de vida percorreu diversas regiões do Reino Unido e também a América. Muitos contemporâneos acreditam que o ritmo exaustivo dessas apresentações contribuiu para o agravamento de sua saúde. Em março de 1870 realizou sua última apresentação diante de uma plateia emocionada. Poucos meses depois, Dickens morreria aos 58 anos. 

A obra de Dickens continua sendo uma das mais influentes da literatura ocidental. Seus romances combinam humor, crítica social e emoção, retratando com força a realidade da Inglaterra do século XIX. Mais do que histórias envolventes, ele deixou um retrato vívido de seu tempo, povoado por crianças abandonadas, trabalhadores explorados, figuras excêntricas e personagens profundamente humanos.

Talvez o próprio Dickens fosse difícil de definir: escritor e ator, observador da sociedade e também protagonista de conflitos pessoais intensos. Como ele mesmo sugeriu em um de seus textos, cada ser humano é um mistério complexo e talvez seja exatamente isso que torna suas histórias tão duradouras.

Confira algumas adaptações importantes de obras de Charles Dickens para o cinema:

 

• David Copperfield (Reino Unido/EUA, 1935), de George Cukor.

• Grandes Esperanças (Reino Unido, 1946), de David Lean.

• Oliver Twist (Reino Unido, 1948), de David Lean.

• Conto de Natal (Reino Unido, 1951), de Brian Desmond Hurst.

• Os Fantasmas Contra-Atacam (Estados Unidos, 1988), de Richard Donner. (baseado em Um Conto de Natal)

• Tempos Difíceis (Reino Unido, 1988), de João Botelho.

• A Pequena Dorrit (Reino Unido, 1988), de Christine Edzard.

• Grandes Esperanças (Estdos Unidos, 1998), de Alfonso Cuarón.

• Os Fantasmas de Scrooge (Estados Unidos, 2009), de Robert Zemeckis. (baseado em Um Conto de Natal).

6 de março de 2021

Defesas da Poesia (Sir Philip Sidney & Percy Bysshe Shelley)

Oi gente!

Hoje trago mais uma aula da matéria do mestrado que estava em minhas anotações. Estudamos a obra "Defesas da Poesia", publicada em 1585 e que contém dois ensaios dos autores Sir Philip Sidney e Percy Bysshe Shelley (sim, o esposo da nossa queridinha Mary Shelley, autora de Frankestein!). 

Com cerca de 240 anos de intervalo, duas clássicas "Defesas da Poesia": a de sir Philip Sidney (1554-1586) e a de Percy Shelley (1792-1822) empenharam-se em responder ao famoso anátema de Platão. A editora Iluminuras, em colaboração com a FAPESP, reúne os dois textos num único volume, com tradução de Enid Abreu Dobránszky, que também assina um extenso, erudito e importante ensaio introdutório.

Na aula focamos no primeiro ensaio, cujo contexto histórico e autor eu descrevo abaixo.


Foi no reinado de Elizabeth I que surgiram na Inglaterra vários escritores que deixaram seu nome na história da literatura, entre eles Shakespeare e Ben Johson. Entre eles, embora longe das ruas e teatros pois vivia na corte, estava Sir Philip Sidney, um jovem poeta aristocrata e sobrinho de Sir Robert Dudley, um dos pretendentes à mão da rainha. Sidney nasceu em Kent, em 1554 e em 1572 viajou para a França com a embaixada que negociaria o casamento entre Elizabeth I e o Duque D'Alençon. Percorreu a Europa por vários anos, passando pela Alemanha, Itália, Polônia e Áustria e conhecendo intelectuais e políticos da época.

Em suas andanças, Sidney se incomodou com acusações feitas por puritanos, de que a poesia incitava à imoralidade, e em resposta, escreveu "Defence of Poetry", que dois séculos mais tarde, Shelley usava como inspiração para escrever sua defesa também, agora para responder a acusações de irrelevância da literatura dentro de uma era de progressos científicos. Hoje, os ensaios publicados postumamente adquiriram grande importância nos estudos da língua inglesa e na crítica literária ocidental.

Voltando à Sidney e sua defesa, cujo texto insiste no caráter edificante da poesia, o autor usa de vários argumentos e considera que os historiadores estão presos ao que aconteceu, enquanto que os poetas imaginam o que vai acontecer. Para ele poesia é a "arte da imitação" da natureza. Na época, para os classicistas, "imitar" (inclusive um autor) era um grande valor, diferente de hoje que beira a ofensa. 

"A poesia é, pois, uma arte de imitação, uma vez que Aristóteles a define pela palavra "mímeses", isto é, uma representação, uma simulação, ou figuração - para falar metaforicamente, uma imagem eloquente -cuja finalidade é ensinar e dar prazer". (Página 98) 

No texto Sidney parece que não querer banalizar a literatura, sequer se colocando como poeta. Embora defenda a poesia, a defende para os sábios. Segundo ele, o poeta é um "filósofo popular", ou seja, chega às massas. Em Poética, de Aristóteles, não havia espaço para a liberdade de escrita. Ex.: Quero falar de tragédia preciso falar dos nobres. Se quero falar das classes baixas, preciso escrever comédia. Havia regras, que só se extinguiram com o romancismo. Sidney atuou antes de Shakespeare, que inclusive teve muitos problemas com os neoclassicistas por chegar a misturar comédia com tragédia. Segundo ele, o poeta inspira ao que é valor, princípios, verdade. Ex.: Hércules, Áquiles, Enéas.

"...nem serdes mortos pelos encantamentos da poesia, ... ainda assim vos envio esta maldição, em nome de todos os poetas: que enquanto viverdes apaixonados e nunca sereis correspondidos porque vos faltará o talento para compor um soneto e quando morrerdes, ... vossa memória será varrida da terra por falta de um epitáfio".

Sidney tornou-se um dos mais importantes poetas do Reino Unido, chegando a conhecer Giordano Bruno em 1584, que a ele dedicou dois livros. Como protestante, participou de várias batalhas contra tropas espanholas e holandesas, até que em 1586, na Batalha de Zutphen, foi atingido e faleceu vinte e seus dias depois. 

O texto de Sidney nos traz uma análise da literatura da época e do quanto esforço houve para rebater os que a consideravam mentirosa e fútil. Talvez hoje tenhamos nos distanciado muito do puritanismo e do espírito de cobrança política a que esses dois textos, cada qual com o vocabulário próprio de seu tempo, procuram responder. Mas é interessante acompanhar os movimentos e como a literatura mudou sua forma ao longo dos séculos.

Boa leitura!

3 de novembro de 2020

19 de janeiro de 2020

Morte na Praia (Agatha Christie) | Portão Literário

Vamos agitar este domingão de janeiro com uma leitura ambientada na praia, com pessoas hospedadas em um luxuoso hotel localizado em uma ilha repleta de paz e relaxamento? Só que não! Com Agatha Christie dificilmente a história é serena né? Mais uma leitura para o projeto Agatha!

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7 de julho de 2019

A Inquilina de Wildfell Hall (Anne Brontë) | Portão Literário

Mais uma leitura da Anne Brontë! E gente, que livro! Hoje minhas impressões sobre "A Inquilina de Wildfell Hall", a maior denúncia que já li em um romance sobre a submissão da mulher no século XIX (e que infelizmente permanece até hoje, mas como naquela época, só as "Annes" escancaram os bastidores).

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17 de junho de 2019

Cartas na Mesa (Agatha Christie) | Portão Literário

O livro para o projeto Agatha foi adiantado neste mês! E foi um dos melhores dos últimos tempos! Confiram no vídeo minhas impressões sobre "Cartas na Mesa", publicado em 1936.

2 de maio de 2019

Oliver Twist (Charles Dickens) | Portão Literário

Mais um Dickens pra conta! No vídeo de hoje comento sobre a obra, uma adaptação infantojuvenil e adaptação cinematográfica.

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26 de março de 2019

O Vento da Noite (Emily Brontë) | Portão Literário

Poesia é o tema do vídeo de hoje! Mas não qualquer poesia, as poesias de Emily Brontë! Grande escritora do século XIX, que nos deixou, além da obra incomparável "O Morro dos Ventos Uivantes", um legado de poesias que mostravam muito da sua personalidade. Confiram no vídeo a tão elogiada tradução de Lúcio Cardoso, publicada pela Civilização Brasileira.

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27 de janeiro de 2019

A Casa Soturna (Charles Dickens) + seriado Bleak House (BBC) | Portão Literário

Senta que o vídeo de domingo é longo! Acabei extrapolando mas não consegui reduzir, porque comento no vídeo de hoje sobre minhas impressões de leitura da grande obra de Dickens "A Casa Soturna", cuja nova publicação eu estava desde 2017! Também deixo breves comentários sobre o que aprendi da obra na matéria Teoria da Ficção, que fiz no mestrado de Literatura. E para encerrar comento sobre o seriado da BBC "Bleak House", inspirado na obra. É muito assunto né gente? Mas na descrição tem o tempo certinho em que inicio cada assunto!

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11 de dezembro de 2018

26 de novembro de 2018

EU LI: Sr. Bliss (J. R. R. Tolkien)

Novembro terminando e com ele nosso projeto Tolkien.
Obrigada Lu Evans e Frankcimarks Oliveira por me acolherem nessa aventura, foi demais!
No vídeo de hoje, a cerejinha do bolo da minha estante Tolkien, ou o meu xodó Tolkieniano: "Sr. Bliss"!

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20 de setembro de 2016

Eu li #84 - Rainha Vitória

Oi gente!

Hoje tem impressões de leitura mas lá no canal! Um vídeo que amei fazer, onde converso um pouquinho sobre a influência da Era Vitoriana nas obras literárias da época. E claro, das Irmãs Brontë, motivo pelo qual atrelei a leitura ao projeto. Vem conferir!

Clique para assistir o vídeo
Beijos!

14 de junho de 2016

Eu li #72 - O Livro da Selva

Oi gente!

Enfim! Enfim! Enfim! O vídeo do Mogli saiu! Hahaha! E minha animação não é para menos, porque eu me diverti muito, não só lendo esse clássico de Rudyard Kipling e fazendo o vídeo, como relembrando os gibis do Mogli que lia na década de 80, o desenho, o filme, até as contações de histórias para meus sobrinhos. Acha pouco? Então acompanhe também um depoimento do Richard Rasmussen, apresentador do programa Mundo Selvagem, contando para nós um pouquinho do seu amor pela natureza e pelos animais. Assista tudinho clicando aqui ou na foto abaixo.

Clique aqui para assistir

Beijos!

13 de junho de 2016

Segundica Literária #16 - Irmãs Brontë

Oi gente!

Hoje a Segundica comporta não só uma dica, mas um convite! No vídeo do Portão, onde falei sobre minhas aquisições de maio, introduzi um projeto pessoal que estava em pauta e fiquei muito feliz com a repercussão! Vendo a animação de várias amigas para me acompanhar nesse projeto, resolvi deixá-lo como Segundica também e veremos no que vai dar! Então, vamos ler Irmãs Brontë? =) \o/

Foto: huffingtonpost.co.uk
Vou contextualizar um pouco, para quem não conhece a história da vida e obra dessas três irmãs talentosas e guerreiras (porque ser escritora mulher naquela época não era fácil!), depois falo sobre o projeto ok? Afinal, as obras das Brontë não só são considerados clássicos da literatura mundial como influenciaram outros escritores e diretores de teatro, cinema e televisão. As três irmãs conquistaram o sucesso no universo literário no século XIX, na Inglaterra, não sem superarem inúmeros obstáculos, como dificuldades financeiras e a perda da mãe, fato que repercutiu diretamente na qualidade da educação das moças. Além disso, para que suas obras fossem aceitas, elas precisaram lançar seus poemas e romances com pseudônimos masculinos. E finalmente, contrariando todas as expectativas, elas mostraram a que vieram e se tornaram mitos, produzindo obras lidas e admiradas até hoje.

Marie-France Pisier, Isabelle Adjani e Xavier Depraz, em produção cinematográfica de 1979 sob direção de André Téchiné.
A mãe das Brontë faleceu em 1821 e logo depois, em 1825, as duas irmãs mais velhas, Maria e Elizabeth, também faleceram vítimas de tuberculose. Os quatro sobreviventes (Charlotte, Emily, Anne e o irmão Bradwell) foram morar com uma tia. Charlotte e Emily frequentaram a escola por um tempo, mas depois voltaram para a casa do pai e seu único aprendizado foi através dos livros do pai e jornais. Mais tarde as duas fundaram uma escola de meninas e aprenderam línguas. Enquanto Charlotte ensinava inglês, Emily ensinava música. O irmão Patrick Brandwell tornou-se alcóolatra e terminou adoecendo e falecendo. As três irmãs também tiveram uma vida relativamente curta, pois todas faleceram entre os 28 e 39 anos de idade, vítimas de tuberculose. Porém, sua vida curta não as impediu de deixar um legado literário para a humanidade. Vamos passar rapidamente pelas suas obras principais e as que usarei no projeto de leitura.


"Jane Eyre" foi escrito pela irmã mais velha, Charlotte Brontë e é mais extensa do que a das suas irmãs. Charlotte viveu uma experiência pessoal, tentando ser professora no exterior e inseriu essa experiência na composição da sua obra. Por isso considera-se que "Jane Eyre" possui alguns traços biográficos da autora. A protagonista da obra é uma orfã que, após muito sofrer em sua infância, precisa correr atrás do seu sustento. Para isso, trabalhou como professora e depois como governanta na casa do Sr. Rochester, o homem por quem se apaixonaria e viveria um amor proibido.


"O Morro dos Ventos Uivantes", única obra escrita pela irmã do meio, Emily Brontë, já trata-se de um livro mais frio e rude. Porém, é considerado único na literatura universal, sendo impossível compará-lo a outras obras. Um dos motivos são as características sombrias de seus personagens. 


Apesar da obra "A Moradora de Wildfell Hall" ser citada por muitos como a obra mais importante da irmã caçula, Anne Brontë, eu escolhi outra que é muito citada também: "Agnes Grey". A obra contém uma protagonista similar à de Jane Eyre, a jovem Agnes, que também busca seu sustento trabalhando como enfermeira. 

E é tudo que sei dessas obras das irmãs Brontë gente! Como não li nenhuma, me deleguei um projeto pessoal, que servirá não só para conhecer as obras, mas tentar com meu olhar de leitora, conhecer as particularidades da escrita de cada uma, para comentar depois. Já tem uma introdução do cronograma lá no Portão Literário. Então fica aqui o convite e sugestão de leitura! =)

Beijos!

18 de maio de 2016

Eu li #67 - Alice no País do Espelho

Oi gente!

Hoje, além de mostrar mais um item da coleção Alice, também deixo registrada a leitura da segunda obra de Carroll, "Alice através do Espelho", ou "Alice no País do Espelho", como registra algumas edições, inclusive essa da L&PM Pocket. Bom, minha paixão é o clássico mais conhecido, "Alice no País das Maravilhas", mas como o filme vem aí e eu li há muito tempo, resolvi fazer uma releitura. E aí falamos de uma continuação das aventuras de Alice, que ao invés de cair em um buraco, atravessa o espelho e encontra um mundo ainda mais "nonsense" que o primeiro (rs). 

Justamente por essa falta de "sentido" nas histórias de Alice é que muitos relutam em ler. Eu digo que é o que me fascina. Mesmo por trás de tanta surrealidade, enxergo a Alice criança, inocente e desejosa de ir além da sua rotina. E olhando por esse ângulo, a entendo. Me identifico. Ponto. Vamos falar da história né? (rs).


Basicamente Alice está, como de costume, entediada. Dessa vez em sua sala, observando sua gata Dinah e suas filhotinhas. Enquanto dá uma bronca na gatinha relembra algumas experiências no País das Maravilhas e termina por descobrir que por trás do espelho da sua sala, há outro mundo maluco esperando-a para explorá-lo. Acaba por encontrar alguns velhos conhecidos, enquanto acostuma-se a flores falantes e um intrigante jogo de xadrez. Que na verdade não é um simples jogo de tabuleiro, mas um jogo onde ela é uma das peças e precisa se tornar a rainha. A partir daí, ela precisa avançar para chegar ao destino final e nessa aventura encontra personagens esquisitos e grandes aventuras!


Para quem já conhece Alice muito bem (e a escrita de Carroll), é fácil mergulhar nos devaneios da personagem e adaptar-se com as súbitas mudanças no decorrer da história. Ora estamos em um lugar e aparecemos em outro, encontrando personagens sem nenhuma lógica. Aliás, a história só tem uma certa lógica bem no início, depois... já era! Então, prepare-se porque é preciso um mínimo de concentração ao longo da história para perceber as tramas e jogadas do autor enquanto movimenta as peças no jogo. Enquanto isso encontramos velhos personagens com novas perspectivas.


"Alice no País do Espelho" apresenta uso constante de adivinhações e poemas. Tem várias conversas que parecem confusas para Alice (e para nós leitores), mas que se analisada a fundo, provam a riqueza da escrita de Carroll. Gosto da sua maneira sutil de transmitir lições educativas (considerando como que era a educação na época), para mim é a maior marca da sua genialidade como escritor.


Eu sou suspeita para "divagar" sobre Alice (rs). Poderia dissecar capítulos inteiros, analisando cada detalhe e tentando "entender" o que o autor quis transmitir. Sim, adoro dissecar Alice! Estou para ler um livro que é pura filosofia sobre o tema. Logo venho contar!

Beijos!



5 de maio de 2016

Eu li #65 - Emma

Oi gente!

Vamos para mais uma longa conversa sobre Jane Austen. Adoro! E o livro comentado de hoje é Emma, nossa última leitura do grupo "Heroínas de Jane Austen". O que falar de Emma? Muito! Mas para mim é impossível falar de Emma sem falar de Jane Austen. Porque eu acho que entendo melhor os personagens quando conheço quem os escreveu. De qualquer forma, por mais fãs que sejamos da autora, acho difícil alguém surpreender-se de maneira positiva com a obra Emma.

Para começar não falta na história os traços principais nas obras de Austen: sarcasmo e ironia! Nesse caso em particular, comparando com as obras anteriores, Emma é a primeira protagonista de Austen que não tem problemas financeiros, e ela deixa claro que esse é o motivo de não querer casar-se. O que já era uma afronta à sociedade inglesa da época, então defeitos à parte, ao menos coragem ela tinha...rs. E o resto? Aí complica!


No início parece que a intenção de Emma era fazer os outros felizes, então ela decide que não quer casar mas que é a pessoa perfeita para arranjar casamento para os outros. Só que não. Imagine que a própria Jane Austen, que escreveu a personagem, certa vez disse aos seus leitores que "Emma é o tipo de heroína que nem ela própria iria gostar muito". Isso resume tudo. Ela se achava a última bolacha do pacote e por isso, achava que estava acima dos sentimentos alheios e poderia decidir pela vida dos outros. É aí que ela desgosta o leitor. E confesso que dá mesmo muito raiva da Emma em alguns momentos. Para mim ficou nítido que sua vida é resumida em futilidades e ela se utiliza da desculpa de ser casamenteira para manipular as pessoas, apenas em função de alimentar seu próprio ego. 


Mas o problema não pára em Emma. A obra é composta de outros personagens irritantes. O pai de Emma por exemplo, é volúvel e pessimista, chega a ser hilário. E o tal do Frank? Até disfarça que é charmoso e conquistador, mas eu não gostei dele. Para mim só se salvou o Mr. Knightley que posso confessar? Ficou ali no páreo com o Mr. Darcy...hahaha! Ué, eu gostei dos modos dele com Emma e ponto. Acho até que a evolução dela como pesonagem dependeu muito dele. Inclusive posso falar porque não é spoiler, achei que Emma amadurece muito no decorrer da história, aliás eu acho que é o objetivo do livro, e também me salta aos olhos a genialidade de Austen em descrever essa transição! Só por isso não posso dizer que não gostei do livro. Não gostei de Emma (argh!) mas o livro... =)

Uma das versões cinematográficas de Emma, protagonizada por Gwyneth Paltrow
Emma teve várias adaptações para o cinema e televisão. A versão que eu vi foi a de 1996, com a Gwyneth Paltrow, que eu amei! Aliás, recomendo para quem não teve coragem de ler (o livro tem 605 páginas nessa versão que li) ou não teve paciência para terminar. Apesar da característica peculiar de Austen, não deixa de ser um romance de época muito bem detalhado (seja no livro ou na tela). Também tem resenha de Emma na Casinha de Livro da Pati Dias e no canal Livros e Scrap da Leila Cardoso. Sugiro a visita para saberem suas opiniões!

Beijos!

25 de abril de 2016

Segundica Literária #13 - Shakespeare

Oi gente!

Na Segundica Literária da semana passada, falamos sobre o Dia Nacional do Livro Infantil lembram? E no último sábado, dia 23 de abril, foi o Dia Mundial do Livro! E viva o Livro! Esse dia foi estipulado porque é o dia em que perdemos dois grandes escritores da história da Literatura. Miguel de Cervantes e Shakespeare. E é de Shakespeare que vamos falar hoje! Principalmente do quanto ele tem a ver com o mundo em que vivemos. Será que só eu gosto de Shakespeare? =)


Uma das coisas que mais me atraem na "literatura shakespereana" é a incrível capacidade com que o dramaturgo inglês tratava sobre conflitos humanos em suas peças, que não foram poucas. Ele deixou 38 peças e 154 sonetos que, segundo estudiosos, foram escritos com a mesma facilidade com que escrevemos um bilhete para deixar na porta da geladeira. 

E eu enfatizei a perguntinha acima, porque de verdade, me parecem raras as pessoas que gostam de ler Shakespeare. Muitos são os leitores que não o entendem como o maior dramaturgo de todos os tempos. Bom, cada um gosta do que quiser. Mas que é fato o cara conseguir reunir em seus escritos praticamente todos os temas da condição humana, isso é. Quem já leu sabe que a inveja, o racismo, as opções sexuais, a vingança, a sede de poder, a compaixão, a paixão, o ciúme, a traição, o amor, a caridade, o abandono, a cobrança, a competição, e muitos outros temas que são discutidos (e não lembrei agora), questionados e analisados até hoje, estão presentes na obra de Shakespeare.

William Shakespeare (Foto: Creative Commons) - Revista Galilieu

Pode ser chato ler obras em forma de peça de teatro? É, eu acho chatinho às vezes também. Soma-se o fato de que estamos falando de contextos históricos antigos, aristocráticos e longe da nossa realidade. Mas porque então suas histórias inspiram, ainda que após quatro séculos, o teatro e o cinema modernos? E a verdade é que se as peças e filmes ainda se sustentam, é porque que milhões de espectadores os desfrutam, provavelmente porque enxergam um pouco de si mesmos nos personagens. E é isso que me toca na obra de Shakespeare. Além da ambientação épica que já é um gosto meu, a certeza em suas tramas de que ninguém é perfeito e quem constrói a História é o homem. Seja na coletividade ou na individualidade, são nossas escolhas que definem o que somos. E o que o mundo é. 

E se deixar eu vou longe filosofando sobre Shakespeare (rs). Então, fica a dica. Tente! Surpreenda-se!

Beijos!