6 de março de 2026

Personalidades #15 - Charles Dickens

Oi gente!

Vocês agora me perguntarão, porque, anos depois eu volto com a série Personalidades. Pois respondo que "não sei". Deu vontade. E estou naquela fase de transição para a menopausa que faço o dá vontade e ninguém me manda...rs. Por isso tô botando em dia alguns conteúdos que há tempos estou em dívida de deixar por aqui, até porque uso esse espaço para me organizar também e guardar tudo que acho importante relacionado à viagens, escritos e principalmente, literatura.

E um dos temas que preciso deixar aqui é uma das personalidades mais caricatas e debatidas da história da literatura inglesa: Charles Dickens. Autor que gosto demais e do qual já li quase toda a obra.


Minha narrativa sobre a vida de Charles Dickens

Entre os grandes nomes da literatura inglesa do século XIX, poucos tiveram uma trajetória tão intensa quanto a de Dickens. Embora tenha se tornado mundialmente conhecido como romancista e jornalista, sua primeira paixão era outra: o teatro. Desde muito jovem dizia sentir-se, antes de tudo, um ator. Para ele, a arte de representar não era simples entretenimento, mas uma espécie de refúgio, ou um espaço onde a imaginação podia transformar a realidade.

Essa ligação profunda com o palco atravessou toda a sua obra. Em seus romances, os personagens frequentemente surgem com traços exagerados, quase caricaturais, como figuras de uma peça teatral. A forma como falam, gesticulam e se expressam revela o olhar de alguém acostumado a observar o comportamento humano como um ator observa sua plateia.

Mas Dickens não permaneceu apenas como espectador do teatro. Ele também participou ativamente da cena cultural de sua época, escrevendo peças, dirigindo montagens e atuando. Em muitas ocasiões percorreu cidades com companhias teatrais e, mais tarde, com algo que se tornaria sua marca: as leituras públicas de seus próprios textos. Nessas apresentações, interpretava cada personagem com vozes e sotaques diferentes, transformando a leitura em verdadeiro espetáculo.

A aquarela "O Sonho de Dickens" pintada em 1875 por Robert William Buss

O sucesso dessas apresentações foi tão grande que o levou até os Estados Unidos. As páginas de obras como Oliver Twist trazem inclusive indicações de entonação e emoção, quase como se fossem roteiros de palco. Para as leituras, Dickens costumava revisar seus próprios textos, selecionando os trechos mais dramáticos ou mais engraçados.

A dedicação era tamanha que, em casa, frequentemente ensaiava em voz alta diante do espelho. Sua filha Kate contava que, por vezes, pensava que o pai discutia com alguém em outro cômodo quando, na verdade, ele estava apenas experimentando vozes e expressões para seus personagens. 

Na Inglaterra vitoriana, Dickens tornou-se uma figura de enorme destaque. Ele conviveu com nomes importantes da política, da literatura e do teatro, além de ter encontrado a própria rainha Queen Victoria. Entre seus admiradores estavam escritores como Fyodor Dostoevsky e Leo Tolstoy, que chegou a afirmar que os personagens de Dickens pareciam “amigos pessoais”.

Seu círculo de convivência incluía autores e intelectuais notáveis, entre eles Alfred Lord Tennyson, Robert Browning, Elizabeth Gaskell, Wilkie Collins e George Eliot. Durante um período, também recebeu em sua casa o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen.

Apesar da fama e do convívio com personalidades influentes, Dickens nunca perdeu o interesse pelos problemas sociais. Pelo contrário: quanto mais visibilidade conquistava, mais se dedicava a causas relacionadas aos mais vulneráveis. Defendia melhorias nas condições de vida de órfãos, crianças abandonadas e mulheres em situação de vulnerabilidade, chegando inclusive a apoiar a criação de instituições voltadas à recuperação de prostitutas.

Houve quem sugerisse que ele entrasse para a política. Dickens, porém, acreditava que sua maior força estava na literatura. Por meio da ficção, poderia alcançar um público maior e provocar reflexões profundas sobre a sociedade.

Local de nascimento de Charles Dickens, no n.º 393, Commercial Road, Portsmouth

Sua infância moldou a carreira de escritor. Grande parte da sensibilidade social presente em seus livros tem origem em sua própria infância. Ainda menino, Dickens viu sua família enfrentar graves dificuldades financeiras. Quando o pai foi preso por dívidas, a situação se agravou de maneira dramática.

O jovem Charles teve de abandonar a escola em Kent e enfrentar uma realidade dura em Londres. Enquanto a mãe e os irmãos foram viver na prisão de devedores ao lado do pai, ele permaneceu do lado de fora, trabalhando em uma fábrica de graxa em condições precárias.

Essa experiência de pobreza e abandono deixou marcas profundas. Décadas depois, essas lembranças surgiriam transformadas em literatura. Personagens como os protagonistas de David Copperfield e Oliver Twist carregam ecos claros dessa fase difícil da vida do autor.

A situação familiar mudou quando uma herança inesperada permitiu que seu pai quitasse as dívidas e recuperasse a liberdade. A mãe desejava que o filho continuasse trabalhando na fábrica, mas Dickens implorou ao pai que o deixasse voltar à escola. A decisão de retomar os estudos foi decisiva para seu futuro.

Já jovem adulto, Dickens começou a trabalhar como jornalista. Nos primeiros textos utilizava o pseudônimo Boz, nome sob o qual publicou seu primeiro grande sucesso: The Pickwick Papers, lançado inicialmente em fascículos mensais.

A estratégia de publicação em partes era comum na época e ajudou a construir um público fiel. Depois desse sucesso inicial vieram muitos outros romances, também publicados em série, entre eles Nicholas Nickleby, Bleak House, A Tale of Two Cities e Great Expectations. Outra obra marcante foi A Christmas Carol, escrita com o objetivo de sensibilizar a sociedade para a pobreza e estimular a caridade durante o período natalino.

O sucesso literário trouxe reconhecimento e prosperidade financeira. Mas apesar da fama e da estabilidade financeira, a vida pessoal de Dickens foi marcada por tensões. Após mais de vinte anos de casamento e dez filhos, separou-se da esposa, Catherine Dickens, decisão que gerou críticas e polêmica na sociedade da época. Nesse período também manteve um relacionamento secreto com a jovem atriz Ellen Ternan, muito mais nova que ele. A relação permaneceu envolta em mistério por muitos anos e ainda hoje levanta especulações entre biógrafos.

Mesmo com problemas de saúde cada vez mais evidentes, incluindo dores constantes, pressão alta e dificuldades cardíacas, Dickens continuou realizando suas famosas leituras públicas. Para ele, subir ao palco era uma forma de conexão profunda com o público.

Durante os últimos anos de vida percorreu diversas regiões do Reino Unido e também a América. Muitos contemporâneos acreditam que o ritmo exaustivo dessas apresentações contribuiu para o agravamento de sua saúde. Em março de 1870 realizou sua última apresentação diante de uma plateia emocionada. Poucos meses depois, Dickens morreria aos 58 anos. 

A obra de Dickens continua sendo uma das mais influentes da literatura ocidental. Seus romances combinam humor, crítica social e emoção, retratando com força a realidade da Inglaterra do século XIX. Mais do que histórias envolventes, ele deixou um retrato vívido de seu tempo, povoado por crianças abandonadas, trabalhadores explorados, figuras excêntricas e personagens profundamente humanos.

Talvez o próprio Dickens fosse difícil de definir: escritor e ator, observador da sociedade e também protagonista de conflitos pessoais intensos. Como ele mesmo sugeriu em um de seus textos, cada ser humano é um mistério complexo e talvez seja exatamente isso que torna suas histórias tão duradouras.

Confira algumas adaptações importantes de obras de Charles Dickens para o cinema:

 

David Copperfield (Reino Unido/EUA, 1935), de George Cukor.

Grandes Esperanças (Reino Unido, 1946), de David Lean.

Oliver Twist (Reino Unido, 1948), de David Lean.

Conto de Natal (Reino Unido, 1951), de Brian Desmond Hurst.

Os Fantasmas Contra-Atacam (Estados Unidos, 1988), de Richard Donner. (baseado em Um Conto de Natal)

Tempos Difíceis (Reino Unido, 1988), de João Botelho.

A Pequena Dorrit (Reino Unido, 1988), de Christine Edzard.

Grandes Esperanças (Estdos Unidos, 1998), de Alfonso Cuarón.

Os Fantasmas de Scrooge (Estados Unidos, 2009), de Robert Zemeckis. (baseado em Um Conto de Natal).

10 de dezembro de 2024

EU LI: SALENS Novo Ciclo (Nicolas V. da Roza)

Oi gente! Voltei quase no finalzinho do ano para deixar uma sugestão de leitura, uma publicação da qual fiz parte e que amei o resultado.

Se você é fã de fantasia, prepare-se para mergulhar de cabeça em um universo que mistura tradição, mistério e amadurecimento. Salens: Novo Ciclo é uma obra que encanta pela sua riqueza de detalhes e pela profundidade de seus personagens. Com um enredo que combina mitologia própria e aventuras cativantes, o autor entrega ao leitor um mundo onde os desafios e os ciclos da vida se entrelaçam de forma magistral.


A história acompanha Draken, Draina e Clawen, três jovens pertencentes aos sete clãs dos Salens, escolhidos para proteger seu povo. Seus dilemas pessoais e o caminho de amadurecimento são o ponto de conexão com o leitor, que se vê refletido em suas dúvidas e superações. A narrativa, habilmente conduzida, explora temas como amizade, coragem e o enfrentamento de medos, enquanto revela um mundo repleto de lendas, rituais e batalhas épicas.

Um dos pontos altos do livro é a construção do universo de Cycles. A Cidade das Lendas, por exemplo, é descrita com tanto esmero que parece saltar das páginas. Essa atenção aos detalhes transporta o leitor para os cenários vibrantes, permitindo que ele experimente cada emoção junto aos personagens.


Outro mérito é a forma como o autor apresenta seu mundo. A complexidade do universo fantástico de Salens não é um obstáculo para o leitor, mas sim um convite à exploração. Ao descrever os elementos desse mundo, o autor não sobrecarrega a narrativa, mas a enriquece, permitindo que as particularidades do universo sejam absorvidas aos poucos, quase como uma conversa fluida.

Para quem aprecia histórias de fantasia que vão além da ação, oferecendo também um mergulho nos sentimentos e nos valores dos protagonistas, Salens: Um Novo Ciclo é uma escolha certeira. Uma obra que, ao mesmo tempo, entretém e emociona, nos lembrando que a vida, assim como em Cycles, é feita de desafios e renascimentos.


Se você gosta de se perder em mundos fantásticos e encontrar em suas narrativas reflexões sobre o próprio mundo, este livro merece um lugar na sua estante. 

Boa leitura!

13 de abril de 2024

EU LI: Os Manuscritos Perdidos (Charlotte Brontë)

Oi gente!

Tem um livro que fez parte das minhas leituras de 2021 mas acho que vale registrar aqui.


"Os Manuscritos Perdidos" contém quatro ensaios de pesquisadoras e especialistas nas obras das Bronte sobre a história de um livro da família que ficou escondido com colecionadores por mais de duzentos anos.

Tudo teve início em 1810, quando Maria Branwell, que se tornaria mãe das famosas irmãs Brontë, obteve um livro, em sua terra natal. Dois anos depois, ela se mudou e o exemplar estava entre seus bens que naufragaram em um navio. O livro foi recuperado intacto e tornou-se precioso para toda a Família Brontë, sendo não apenas uma fonte de leitura, mas também de anotação pelas irmãs Charlotte, Emily, Anne, seu irmão Branwell e seu pai, Patrick. O ensaio que trata sobre como o livro inspirou Emily a escrever sua obra-prima "O Morro dos Ventos Uivantes" é sensacional.

Para quem gosta das vidas e obras das Bronte, é um livro riquíssimo de informações.

Boa leitura!

8 de abril de 2024

EU LI: Correndo Atrás dos Sonhos (e outros livros de Onacir Bueno)

Oi gente!

Estou decidida a deixar as redes sociais e voltar para o blog, um lugar que foi meu refúgio por anos e que está muito abandonado. Sinto-me bem aqui porque é um espaço meu e que chega quem quer. Diferente das redes sociais que espalha aos quatro ventos nossas opiniões e quereres, e só o que percebemos são críticas, comunicação violenta e comentários sem noção.

Por isso, pretendo retornar aqui ao menos com uma postagem semanal, por enquanto. Se você gosta desse espaço, se me segue há anos ou está chegando agora por aqui, sinta-se à vontade para maratonar e entrar em contato se quiser. Tem muito conteúdo bacana no histórico, para todos os gostos.

Hoje, por exemplo, vou falar de uma pessoa que conheci em 2019, o Onacir! Foi apresentado a mim pela amiga Margareth e na época ele precisava de assessoria para publicar seu primeiro livro. Não é um trabalho oficial que ofereço no mercado, vocês sabem. Minha profissão oficial é outra, mas literatura é uma paixão em paralelo e achei o trabalho do Onacir inspirador e necessário nas estantes.


Então posso dizer que tive o prazer de participar da produção, fazendo a revisão e leitura crítica. "Correndo atrás dos Sonhos" é baseado na palestra homônima que o autor apresenta em várias oportunidades, contando sua história de superação. Onacir é Economista, Licenciado em Letras, possui especialização em Gestão de Pessoas e Gestão Empresarial. Já foi Educador Corporativo, Mentor e Consultor Financeiro. Diagnosticado precocemente com uma doença neurodegenerativa, decidiu viver a vida intensamente e correr, literalmente, atrás dos seus sonhos, participando de maratonas e ultramaratonas pelo mundo. 

E mais recentemente, no início desse ano de 2024, eu recebi um exemplares de cada livro do Onacir publicado desde então, cuja edição não acompanhei e isso prova que o ajudei no "caminho das pedras" né? \o/
Aliás, produção esta que vem crescendo a cada ano, dá uma olhada aí!! "A estrada continua" é uma extensão do seu primeiro livro. Eu adorei a leitura e saber mais um pouco da trajetória do Onacir.


Ele também publicou o livro de contos "Crianças Imaginárias", o livro de poemas "Encontros e Desencontros" e um livro de contos com teor erótico "Fetiches e Fatoches". Uma produção de qualidade, com capas bem feitas, edição impecável e bem revisada da Editora Becalete.



Importante destacar que a renda líquida da venda dos livros do Onacir Bueno são doadas para a Associação Parkinson Paraná. Interessados em colaborar, contato direto com o autor via facebook ou pelo site da Editora.

Obrigada Onacir, por me permitir fazer parte do início do seu sonho. Desejo muito sucesso sempre!

2 de maio de 2023

EU LI: Gavetas da Vida (Lysandra Fortes do Amaral)

Oi gente!

Hoje mais uma leitura que fiz nos últimos meses. Conheci a Lysandra na data da posse da Academia de Letras José de Alencar, compartilhamos juntas desse momento especial e no dia não consegui conversar com a autora nem adquirir seu livro, mas fiz dias depois, por contato no Facebook.


Gavetas da Vida conta um pouco da vivência da Lysandra, incluindo momentos e pessoas importantes na sua trajetória. Mostra o quanto estamos interligados uns aos outros, o quanto influenciamos e somos influenciados, nas pequenas coisas e habituais rotinas. Identifiquei-me demais com sua experiência quando conta como conheceu o kardecismo e o quanto esse conhecimento passou a reger suas escolhas e ampliar seu aprendizado. Exatamente como aconteceu comigo há quase vinte anos.

Lysandra também conta experiências de viagens, fatos que marcaram sua vida e como conheceu Anita Zippin, presidente da ALJA, em um encontro inusitado e como a amizade nasceu e floresceu, levando-a a escrever esse livro e levar sua experiência ao mundo.

Sinopse: Não existe falar de mim ou de alguém sem contar as histórias ao nosso redor. Somos feitos das experiências e vamos sendo os resultados delas. Histórias tristes e histórias felizes, histórias! Tudo está interligado. Tudo é ponte. Somos pontes e temos pontes. Você já parou para pensar como cada ação nos levou a algum lugar? Algumas definidas pelo nosso livre-arbítrio e outras aconteceram sem o nosso controle. Todos nós somos aprendizes nesta grande escola chamada vida!

Recomendo a leitura!