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13 de abril de 2021

EU LI: A TERRÍVEL MISSÃO DE JUDITE EVANS (Frankcimarks Oliveira)

Oi gente!

Hoje vou falar sobre um belíssimo trabalho que já deveria estar publicado aqui desde o ano passado, mas vocês já sabem como foi meu 2020 né? Mas antes tarde do que nunca!

Apresento a vocês mais uma participação na literatura dos colegas escritores. Fui convidada para escrever a apresentação e fazer a leitura crítica do livro de estreia do autor paraibano Frankcimarks Oliveira, "A Terrível Missão de Judite Evans". Um trabalho que me trouxe, além da alegria em fazer parte deste projeto, uma experiência intensa de leitura.

SINOPSE

Aos treze anos de idade, Judite Evans muda-se com a tia para o orfanato São Jerônimo no pequeno distrito de Capela Branca. Lá ela conhece Monique Anderson, uma anciã misteriosa que a fará descobrir os poderes ocultos de sua fé. A amizade com Monique é um refrigério para a menina que testemunha os mais horrendos tipos de abusos dentro da instituição onde vive. Os órfãos correm perigo. Judite sente-se impotente diante dos fatos. Entretanto, seus traumas despertam um dom. O que Judite fará com ele?


Só a sinopse já dá aquela vontade de ler né? Além do título e da capa super atrativos e que deixam o leitor muito curioso. Apesar do livro abordar uma temática pesada, mas não menos importante de ser divulgada, que é o drama da violência infantil, a história é recheada de fantasia e realismo mágico.

A protagonista da história, Judite, é uma menina de treze anos que vive em um orfanato. E lá presencia uma série de abusos, principalmente por parte de sua tia Margot, acostumada a maltratar as crianças. Esse fato que torna o semblante de Judite triste, além de sua personalidade desconfiada e de pouca fé. Além da tia Margot, alguns padres também ajudam a ampliar o problema, se afastando de sua principal função de ajudar ao próximo.

É aí que Judite, já sem esperanças, se aproxima de uma vizinha, a velha Monique, que tenta ajuda-la através de um enigmático livro, que contém mistérios de magia advindos de uma filosofia que mostra um lado sombrio do poder da religião. Nossa protagonista, sedente por conhecimento, memoriza os encantamentos e tenta com eles solucionar os problemas do orfanato.

"A Terrível Missão de Judite Evans" é uma narrativa que prende o leitor do início ao fim pelo tom de suspense e mistério, além de escrita em linguagem de fácil compreensão. O tempo todo torcemos para que Judite tenha um final feliz e livre as crianças daquela situação catastrófica, que sabemos existir fora da ficção. Por isso, também valorizo o livro como uma denúncia aos abusos cometidos contra crianças, no mundo inteiro.

O escritor, que é paraibano da cidade de Patos, concedeu uma entrevista sobre seu lançamento para a Folha Patoense, você pode conferir clicando aqui:

http://www.folhapatoense.com/2020/05/09/escritor-patoense-lanca-livro-de-ficcao-e-fantasia-na-internet/

Você pode adquirir “A terrível missão de Judite Evans”, no Kindle Unlimited ou em qualquer dispositivo móvel, basta clicar no livro e será direcionado ao site da Amazon:


Boa leitura!

7 de setembro de 2020

EU LI: O Cortiço (Aluísio Azevedo)

Oi gente!

Ainda não tô conseguindo gravar vídeos, mas acho que é uma questão de dias (eu espero!). Por enquanto, vou comentando por aqui sobre minhas leituras mais impactantes. Como foi o caso de "O Cortiço", de Aluísio Azavedo, que li no mês passado junto com o Carlos, do canal @livroseebooks. Sempre tive receio de ler essa obra, lembro que tinha uma edição antiga que até doei sem me encorajar em fazer a leitura. Até que consegui essa edição moderna e comentada da Panda Books (que aliás tem uma coleção de clássicos neste formato e tô bem animada para ler alguns!), agora foi!


"O Cortiço" foi publicado em 1890 e é uma das obras nacionais que mais representam o naturalismo. A história é um retrato das condições de vida das classes mais baixas no Rio de Janeiro da época. Acompanhando o dia a dia dos moradores do cortiço, 


O principal personagem é João Romão, que construiu o cortiço após receber uma quantia de um português, para o qual trabalhou muito. Morava com Bertoleza, uma ex-escrava que fugiu dos seus antigos donos e até então João não tinha muitas preocupações além de aumentar seu capital. Até a chegada de Miranda, seu vizinho, que lhe despertava inveja pelo status e títulos que possuía, vindo a tornar-se seu maior rival. 

"O Cortiço" é narrado de forma linear, em terceira pessoa como narrador onisciente. Além da ambientação do cortiço, são apresentados ao leitor cenas da história que se passam na pedreira e na taverna, também são propriedades de João Romão, que na história simboliza o capitalismo desenfreado, pois usa de muitas artimanhas, inclusive explorar e enganar pessoas, para obter lucros e riquezas. O romance tem muitas descrições, explorando características e comportamentos dos personagens, cujas vidas são retratadas a cada capítulo, entrelaçando-se para enfrentar a pobreza, abandono e maldades.



No Brasil, "O Cortiço" é a obra mais emblemática do movimento literário naturalista. Por isso, a história mostra muito da degradação social dos moradores do cortiço, bem como sua animalização, em muitas partes marcadas pela violência e instintos sexuais. Segundo o naturalismo, o meio influencia diretamente o comportamento das pessoas, então não vemos muitos desfechos "felizes" na história. Em vários núcleos são ressaltadas a desigualdade social, ambição, promiscuidades, entre outros. 

A obra retrata muito bem a sociedade brasileira do século XIX e se apresenta bem atemporal em alguns aspectos, como comportamentos em busca da ascensão social, tão bem representado no protagonista João Romão. Muitos outros personagens sejam importantes na trama, como Jerônimo, o português que administra a pedreira, e Rita Baiana, uma mulata toda sedutora que a princípio tem um caso com Firmo que representam a mistura de raças. 

Um detalhe interessante em "O Cortiço" é a característica marcante e presente nas obras naturalistas, onde o cortiço em muitos trechos é personificado, como personagem principal, enquanto os personagens humanos são animalizados. Este trecho é um exemplo da personificação do cortiço: “Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da ultima guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.” Já a aproximação do homem com o animalesco pode ser observada em várias metáforas utilizadas pelo autor, comparando os personagens com animais selvagens ou até mesmo plantas.



As personagens femininas marcantes da obra me chamaram a atenção. Temos a Piedade, a típica representante dos valores europeus da época, esposa recatada de Jerônimo. Temos a Pombinha, que leva algum tempo para se descobrir mulher, até deixar a pureza de lado e se tornar prostituta. A Estela, esposa infiel que levou o Miranda a mudar-se para o bairro do cortiço. Mas nenhuma merece tanto destaque como a Rita Baiana, representante fiel do imaginário da mulher brasileira: alegre, sensual, fogosa, dançante e fã dos pagodes e rodas de samba. Sempre otimista apesar das mazelas. Na minha opinião Rita Baiana é a personagem mais popular da história, que se destaca independente das suas participações na trama (até porque eu não concordaria com algumas atitudes suas), pelo modelo de exaltação da mulher que ela nos passa. Os capítulos com a Rita Baiana são cheios de brasileirismo, alegria, positividade, apesar da pobreza ambientada ao seu redor.


"O Cortiço" leva ao leitor muitos acontecimentos que marcaram a época retratada. Trabalho assalariado, desenvolvimento de setores secundários, novas categorias sociais, chegada de imigrantes, mescla de raças, descobertas na área científica e escravidão. Ambientação inspirada nos cortiços da época, espaços demarcados por construções precárias e sufocantes. Uma importante fonte literária para entendermos nosso Brasil antigo e fazermos uma análise social para infelizmente percebermos que muitas coisas ainda não mudaram em nada.

Estudiosos apontam como principal inspiração para Aluísio Azevedo escrever "O Cortiço", a obra do francês Émile Zola, "Germinal", que também usou seus personagens para gravitar em torno da narrativa, de modo a expor as questões naturalistas. Sabendo disso, a curiosa aqui resolveu então conhecer a obra de Zola, e enquanto publico esta postagem, devo estar já na parte dois ou três do livro. E já posso adiantar que sim, tem muitas semelhanças com a obra de Aluísio. Mas isso é assunto para outra postagem, ou vídeo. Logo volto com as atividades no canal!

Beijos!

21 de julho de 2020

EU LI: As cinco pessoas que você encontra no céu (Mitch Albom)

Oi gente!

Já passou da hora de comentar sobre essa história por aqui. Desde que comecei o canal no You Tube, "As cinco pessoas que você encontra no céu", do autor Mitch Albom, já foi citado em vários vídeos sobre leituras da vida. Embora eu tenha conhecido a adaptação antes, já fiz leitura e releitura dessa obra tão significativa para mim.


"As cinco pessoas que você encontra no céu" é um daqueles livros que afaga meu coração, por isso reli recentemente para enfrentar algumas dificuldades por aqui. Meu primeiro contato com a história já fazem alguns bons anos, foi assistindo a adaptação de 2004, dirigida por Lloyd Kramer. A dica foi do meu sobrinho, que sempre me indica ótimos livros e filmes, por termos alguns gostos em comum.



Um dos motivos para não ter feito ainda uma postagem sobre ele é que, seja lendo o livro ou vendo o filme, me preencho de uma vontade de falar muito sobre, porém quando tento as palavras somem. Desenvolvi uma teoria para isso. Essa história me desperta muitos sentimentos, sensações profundas difíceis de serem traduzidas em palavras. Agora decidi tentar.

A história é sobre Eddie, um senhor que trabalha em um parque de diversões, como responsável pela manutenção dos brinquedos. Conhecido pelas crianças como "Eddie Manutenção", o conteúdo do seu crachá de identificação. Eddie é um idoso sério, um tanto amargurado, mas que leva sua profissão com toda a responsabilidade, sempre preocupado em checar os brinquedos para garantir a segurança de todos. Algo acontece (e é algo que faz relação com a mensagem do livro) e um dos brinquedos acusa uma falha, em funcionamento. Tentando salvar a vida de uma criança, Eddie morre.

Então você me pergunta: - Mas morre assim, logo no início do livro?

Sim. Porque a jornada de Eddie vai começar após a sua morte. Quando ele encontra suas cinco pessoas. 

Então você me pergunta de novo: - Como assim, cinco pessoas?

A história usa como simbolismo as cinco pessoas, para explicar como as vidas terrenas são entrelaçadas, independente das pessoas se conhecerem ou não. E o principal e o que mais me toca: como uma pessoa pode impactar na vida de outra, seja de forma positiva ou negativa, muitas vezes sem nem saber disso! Como um pequeno gesto pode transformar sua vida para sempre.

Você entenderá isso melhor acompanhando o passado de Eddie, desde sua infância. Conhecerá durante a narrativa seus sonhos de menino, suas decisões na juventude, suas conquistas e fracassos. Tudo que o tornou o homem que era antes de morrer, sua frustração por achar que sua vida não valeu à pena, porque abriu mão do sonho de ser engenheiro para lutar na guerra. Enquanto tenta descobrir se conseguiu salvar a menina no parque de diversões, Eddie encontra suas cinco pessoas e com cada uma delas aprende uma lição. Inclusive a de que nada existe por acaso e que estamos todos ligados uns aos outros. 



É obviamente este um dos motivos deste livro me tocar tanto. Porque compartilha com o que acredito. E sempre que sinto vontade de pensar sobre o legado da minha vida, retorno à história de Eddie. "As cinco pessoas que você encontra no céu" é um livro para se ler nos momentos em que nos sentimos fracos e inúteis. Ele nos lembra que em momento algum desperdiçamos nossa vida e que pequenos gestos podem mudar o destino de outras pessoas para sempre. Um gesto de bondade pode ser nada para você, mas pode ser decisivo na vida de outra pessoa. O livro também nos alerta para o efeito negativo. O quanto nossa impulsividade e egoísmo momentâneos também interferem em outras vidas.

Para quem acredita na continuidade da vida após a morte, a leitura é um prato cheio. Principalmente porque temos sempre aquela impressão que reencontraremos as pessoas mais próximas, os entes amados ou familiares. Na história de Eddie, as coisas não são bem assim. E minhas crenças fazem com que eu trilhe junto com Eddie sua trajetória, me surpreendendo, me assustando, me emocionando.

"As cinco pessoas que você encontra no céu" certamente nos mostra uma forma diferente de entender a vida e a morte. Não precisamos de nada grandioso para deixar um bom legado. Tudo está conectado e temos diariamente o poder de impactar vidas. Que o façamos de maneira positiva!

Boa leitura!

26 de dezembro de 2019

EU LI: Serpentário (Felipe Castilho)

Oi gente!

Aos quarenta e cinco do segundo tempo, lá vamos nós deixar a última postagem do ano aqui no blog, com as impressões de "Serpentário", do autor Felipe Castilho. Um livro que gostei muito e que tem como pano de fundo algo que curti por vários anos na minha vida: passar o reveillon na praia! Delícia!!! #sqn desta vez (espia só aí embaixo!)


Pois é. Neste livro, um reveillon dos quatro protagonistas não foi tão delícia assim. A história é sobre três adolescentes de classe alta que cresceram com a tradição de curtirem férias juntos no litoral de São Paulo. Agregado ao grupo, temos Paulo, um quarto adolescente, filho de uma empregada doméstica. Opa! Percebi que teríamos uma crítica social aí, já gostei. Mas não é exatamente isso que permeia o livro não, se prepara para uma história de suspense com pitadas de terror.

Mais precisamente no reveillon do ano 2000, os quatro amigos fazem o quê? O que a gente quando adolescente (lembrem que eu já fui uma!), mais faz de melhor: "burrada!". Vão parar na Ilha das Cobras, um cenário real na costa brasileira e que segundo informações, possui mais de quarenta cobras por hectare. Quer mais? Tem! Não bastasse o conglomerado de cobras (já adianto que o livro não é recomendado para quem tem problema com elas), eles saem da ilha traumatizados com uma experiência bizarra, deixando lá o seu amigo Paulo, que foi morto. A partir daí a narrativa é intercalada em dois tempos: passado e presente. Aliás, vamos descobrindo detalhes sobre esta experiência ao longo da história, enquanto os amigos já adultos, decidem se reencontrar para lidar de vez com as consequências emocionais deixadas pelo trauma do passado. Contando assim, até parece um suspense comum, eu particularmente não comecei muito empolgada, mas acabei gostando muito!

Não escolhi esta leitura, ela fez parte dos livros mais votados para concorrer ao Cubo de Ouro, o maior prêmio Geek do Brasil, em que fui convidada para ser jurada técnica na categoria Melhor Literatura Geek. E embora eu não ache que o "Serpentário" de Castilho se encaixe exatamente no perfil de literatura geek, foi uma das nove obras que mais gostei de ler!

Acredito que o autor conseguiu inserir na história algum segredinho que me prendeu do início ao fim, porque embora eu ame suspense e terror, sempre tendo mais aos clássicos e/ou policiais. "Serpentário" me instigou pelas experiências psicológicas dos personagens, me amedrontou com seu tom ameaçador e cenários intrigantes, me prendeu com o ar sobrenatural das situações e completou minha boa experiência de leitura, abordando temas como corrupção e racismo. O modelo construído pelo autor para contar a história, em estilo quebra-cabeças, funcionou positivamente para mim.

Além da edição caprichada da Íntrinseca, também destaco as referências culturais deixadas pelo autor na história, que trazem aquela aliviada da tensão em esperar o desfecho da história, que não deixa a desejar, na minha opinião. Eu gostei, a leitura me prendeu demais, o desfecho me satisfez e quero ler mais obras do autor. =)

Boa leitura e um maravilhoso 2020 a todos!

21 de novembro de 2019

O Caçador de Pipas, A Cidade do Sol e O Silêncio das Montanhas (Khaled Hosseini) | Portão Literário

Três histórias, três leituras em momentos diferentes, três vezes o coração a mil! No vídeo de hoje, minhas impressões sobre as obras do escritor afegão Khaled Hosseini.

10 de novembro de 2019

Adeus às armas (Ernest Hemingway) | Portão Literário

Oi gente!

Hoje encerro os vídeos do projeto #nobeldeliteratura de 2019, com mais uma obra de Hemingway, um romance um tanto autobiográfico, que conta a história de amor entre o tenente Frederic Henry e a enfermeira Catherine, durante a Primeira Guerra Mundial. Vale conferir!

Clique para assistir

25 de julho de 2019

EU LI: O primeiro telefonema do céu (Mitch Albom)

Oi gente!

Vamos então falar sobre o desencalha do mês de julho, lembrando que escolhi o título deste mês, buscando leituras mais "leves". E, apesar da capa do livro me trazer reflexões ("Como você se sentiria se um dia recebesse uma ligação de alguém que ama muito - e que já se foi?"), e a história algumas emoções, para mim foi sim uma leitura leve e agradável. "O primeiro telefonema do céu" é divulgado e catalogado como leitura de autoajuda, mas eu digo que não é. Apesar da forte conotação espiritual, tem uma trama muito bem bolada e personagens bem construídos.

"É preciso começar de novo. É o que todos dizem. A vida, no entanto, não é um jogo de tabuleiro,

e a perda de uma pessoa querida nunca é como 'recomeçar um jogo'. É, acima de tudo, 'continuar sem'. (trecho do livro)
Mitch Albom é americano e iniciou sua carreira na escrita esportiva, porque também é jornalista e locutor de rádio e televisão (além de dramaturgo e músico!). Porém, ele é mais conhecido pelo livro "As cinco pessoas que você encontra no céu", publicado em 2003 e que virou filme em 2004. Eu adoro e sempre cito ele nas histórias que marcaram minha vida. E isso me levou a escolher esta próxima leitura do autor.

A história, que é narrada em terceira pessoa, se passa em uma pequena cidade chamada Coldwater, localizada em Michigan. Já de início conhecemos a história de Sully, que perdeu sua esposa em circunstâncias trágicas e tenta cuidar sozinho do seu filho pequeno. Devido aos últimos acontecimentos da sua vida Sully perdeu totalmente a fé. Em paralelo com a história de Sully, a Katherine, outra moradora da cidade, recebe uma ligação estranha. Do outro lado da linha sua irmã Diane, morta há dois anos. Aí começam as ligações. Tess também recebe uma ligação da sua mãe, o delegado Jack do seu filho e por aí vai.

A notícia se espalha rapidamente e Coldwater torna-se uma cidade turística, invadida por fiéis e curiosos do mundo inteiro. Alguns estão lá para serem abençoados com telefonemas de pessoas queridas, outros por mera curiosidade, especulação e oportunismo. O leitor começa então a perceber muitos pontos de vista diferentes com relação aos acontecidos, inclusive pelas religiões, já que os telefonemas escolhem devotos de diferentes religiões. Aliás, reações do governo, imprensa e igrejas são inseridas na história com precisão pelo autor, mostrando-nos a realidade por trás de muitas manobras cotidianas. No final das contas, diante de tantas perspectivas, ações e reações a pergunta que fica durante toda a leitura é: "o que você faria se recebesse um telefonema de alguém que ama muito, e que já morreu?"

Em meio aos alvoroços, temos então o Sully, totalmente descrente de tudo pela perda da esposa, tentando tirar do filho pequeno a ilusão de que vai receber um telefonema da mãe, já que fica segurando durante todo o dia um telefone de brinquedo na mão. Ele começa então uma investigação pessoal, com o objetivo de descobrir o que há por trás desse inédito fenômeno. Então sim, o livro tem uma mensagem espiritualista. Mas também tem uma trama baseada em uma investigação e na minha opinião, com um final surpreendente!

Vale também destacar que durante a história, o autor insere trechos sobre a vida de Alexander Graham Bell, o inventor oficial do telefone. Como por exemplo o fato de ele nunca ter escutado a voz da sua amada no telefone, porque ela era surda. Este e outros fatos curiosos da sua vida foram colocados na história, de maneira leve e fluída.

Esperava por um livro normal, meio autoajuda, com bonitas mensagens. Encontrei um livro com ótimas reflexões e principalmente sobre a importância de estar vivo. E sobre ter fé. Ainda assim, indico também aos leitores céticos, porque a história no final das contas, atende o "tem que ver para crer". Ao menos eu achei, será que porque sou uma pessoa de muita fé? 

"O medo que nos faz perder a vida... um pouco de cada vez. O que damos ao medo, retiramos da fé".

Boa leitura!

25 de abril de 2019

EU LI: Contos de amor, de loucura e de morte (Horacio Quiroga)

Oi gente!

Demorei um bocadinho para contar sobre minha leitura de abril do #projetodesencalha, por um motivo: não sabia como falar o melhor possível sobre um livro que não me fez tão bem. Difícil né? Como contar a descoberta de um autor maravilhoso, porém que escreve sobre temas que não me atraem tanto assim? Bem, me encorajei, então vamos lá!


Horacio Quiroga foi um escritor uruguaio e é considerado o precursor do conto realista na América Latina. Não é para menos! Seus contos são sensacionais! Porém, pesados ao limite. Trágicos, repleto de fantasmas interiores e obsessão pela morte violenta. Na verdade a própria trajetória de vida do autor foi uma sucessão de tragédias: seu pai se matou quando ele tinha dois anos, seu padrasto se matou na sua frente, acidentalmente ele matou um amigo com um tiro, sua primeira mulher se matou e ele, após descobrir um câncer, escolheu adiantar seu fim com cianureto, em fevereiro de 1937. Talvez seja por isso que, nessa que é considerada sua principal obra, alguns contos falam de amor, outros de loucura, mas a maioria fala sobre morte. 

Os quinze contos de "Contos de amor, de loucura e de morte" (1917) obviamente são permeados por esses reflexos mórbidos e nem por isso são rebuscados. Quiroga conta de forma precisa, sem nada supérfluo em seus textos. Vários contos são ambientados no Uruguai, país de seu nascimento, outros na Argentina, onde escolheu morar e vemos até histórias passadas nas fronteiras com o Brasil, provavelmente devido a sua experiência de morada em algumas regiões selvagens.

"O travesseiro de plumas" e "A galinha degolada" foram para mim, de longe, os que causaram maior impacto. O primeiro conta a história de uma moça infeliz no casamento, por sofrer com os maus tratos do marido. Tudo começa com uma gripe, até que ela se vê impossibilidade de sair da cama, caminhando para a morte. Porém, a real causa de sua morte, revelada no final, me deixou horrorizada. Já o segundo é sobre um jovem casal que tem quatro filhos doentes e uma quinta menina com perfeita saúde mental. Ao deixar os quatro filhos de lado para preferir a menina saudável, culminam em um final cruel e repulsivo. É só um resuminho viu? Imagine-se lendo as quinze histórias, densas e nebulosas, nesse nível.

E todas as demais "desgraças" presentes nos contos me causaram um mal estar sim, mas não posso negar a genialidade e a qualidade literária da obra. Uma grande lástima o autor não ser tão mencionado no Brasil! Para quem interessar, encontrei um vídeo da Academia Brasileira de Letras, do Ciclo de Conferências "Literatura e loucura" de 2018, em que o tradutor e jornalista Eric Neponucemo palestra divinamente sobre o autor e sua obra, inclusive lendo o conto "O travesseiro de plumas". Só clicar:


Boa leitura!

28 de março de 2019

EU LI: A raposa já era o caçador (Herta Müller)

Oi gente!

Decidi publicar minhas impressões do livro de março do #projetonobeldeliteratura aqui no blog, acreditando que minha dificuldade com esse livro não influencie vocês de forma negativa. Isso porque a Herta é uma escritora sensacional e o livro é muito bom, portanto, minha dificuldade tem a ver com meus gostos literários e com minha inexperiência com o estilo da autora. Sabem aquela história de quem nem todo mundo consegue ler Guimarães Rosa? Pois é, eu amo Guimarães Rosa, mas com a Herta não me entendi muito bem. Dado meu ritmo particular de leitura, achei que demorei muito para concluir as 240 páginas. Mas em um contexto geral, gostei do livro. 



Herta Müller é romena e ganhou o Nobel de Literatura em 2009. Em "A raposa já era o caçador", a autora nos revela muito sobre a vida dos romenos no final dos anos 80, sob o regime totalitário de Nicolae Ceaucescu, implantador do estado comunista na Romênia entre 1965 e 1989.

São duas as personagens principais. Acompanhamos a vida da professora Adina e da operário Clara, ambas muito jovens e começando suas vidas. Moram juntas e, na narrativa, a autora relata suas rotinas, revelando as dificuldades daquela sociedade e o quanto sua segurança era vulnerável, a ponto de não confiarem nem nas pessoas mais próximas.

Adina possui um objeto que considera valioso, um tapete de pele de raposa que ganhou na infância. Esse objeto, aos poucos toma conta da história, através de acontecimentos na casa da personagem, que a faz sentir-se vigiada pelo regime. No final das contas, o tapete se torna uma metáfora do que acontece na própria vida de Adina e em sua amizade com Clara. Ao entender essa metáfora entendemos o título do livro.

A linguagem de Herta foi que me causou desconforto na leitura. Sua narrativa é fragmentada, o que me fazia perder o fia da meada em diversos momentos e precisar retornar alguns parágrafos na leitura. A autora narra a história criando uma cena completa em uma pequena frase, de modo que eu, acostumada com narrativas que correm rapidamente, precisava me concentrar muito para visualizar a cena apresentada. Mas ao conseguir, me deslumbrava, me emocionava, me revoltava, entre outras sensações difíceis de descrever.

Relatos de miséria, exploração e da influência do regime de Ceaucescu na vida daquelas pessoas, são lidos através de cenas indiretas, contados através de um formato que na minha opinião, só uma grande escritora é capaz de narrar. Um formato que exige atenção do leitor, mas que torna a leitura uma experiência incrível.

Pela temática, achei um livro perturbador, por entender nítida a crítica da autora ao totalitarismo e o quanto esse regime pode ser destrutivo, tanto para a individualidade quanto para a coletividade. O poder totalitário transforma as pessoas, destrói sonhos e coloca um ponto de interrogação no título deste livro: "A raposa já era o caçador?"

Boa leitura!

12 de fevereiro de 2019

EU LI: O mistério dos cavalos alados (Megan Shepherd)

Oi gente!

Hoje vou contar de uma leitura que fiz no kindle por esses dias. "O mistério dos cavalos alados", de Megan Shepherd. Não conhecia a autora e não vejo altas avaliações sobre ela, mas além da capa que obviamente chamou minha atenção, a temática me pareceu interessante. Precisava de uma leitura leve, então lá fui eu. Só que, embora seja voltado ao público juvenil, não achei a temática tão leve assim...


A história se passa na Segunda Guerra Mundial, quando as crianças eram retiradas das cidades devido aos bombardeios. Emmaline, nossa protagonista, vive em um hospital adaptado em uma antiga casa, junto com outras crianças, muitas delas tratadas de um mal denominado na história como "águas paradas", mas que entendemos ser turberculose, doença que matava muito na época.

Conforme as crianças são tratadas pelas freiras e pelo doutor que as visita frequentemente, percebemos a neve, a palidez e a melancolia tomando conta do lugar. E ao mesmo tempo, nossa personagem, como se lutasse bravamente contra isso, narra seus dias e as visões dos cavalos alados que descobre atrás dos espelhos, ou melhor, de qualquer coisa que possua reflexos. Junto com a amiga Anna, que já está em estágio avançado da doença e empresta à Emmaline sua caixa de lápis de cor, confidencia suas aventuras do lado de fora, ao descobrir que um dos cavalos alados transpassou os espelhos e veio parar eu seu mundo, com a asa machucada.

E nessa aventura Emmaline mergulha, tentando salvar sua "Lume de Luar" do assustador "Corcel Negro", sofrendo zombaria de outras crianças, conflitos ao tomar suas decisões, relembrando seu passado feliz e superando a própria luta contra suas "águas paradas", que acaba por representar um significado mais amplo ao final. Concordam que a temática não é nada leve? Por outro lado, por ser ela mesma, uma criança, a nos narrar a história, a fantasia toma conta das palavras e entramos naquele mundo de coragem e encantamento. Isso faz com que a autora foque na profundidade da protagonista, tornando rasos a maioria dos demais personagens.

Se você não tem restrições com leitura infanto, recomendo. Se fizer uma leitura superficial, dá para dizer que é leve, porém se como eu, você faz reflexões enquanto lê, prepare-se para se entristecer em alguns momentos e para muitos pensamentos ao encerrar a leitura.

Boa leitura!

27 de janeiro de 2019

A Casa Soturna (Charles Dickens) + seriado Bleak House (BBC) | Portão Literário

Senta que o vídeo de domingo é longo! Acabei extrapolando mas não consegui reduzir, porque comento no vídeo de hoje sobre minhas impressões de leitura da grande obra de Dickens "A Casa Soturna", cuja nova publicação eu estava desde 2017! Também deixo breves comentários sobre o que aprendi da obra na matéria Teoria da Ficção, que fiz no mestrado de Literatura. E para encerrar comento sobre o seriado da BBC "Bleak House", inspirado na obra. É muito assunto né gente? Mas na descrição tem o tempo certinho em que inicio cada assunto!

Clique para assistir

18 de janeiro de 2019

EU LI: O último judeu | Portão Literário

E 2019 já começa do jeitinho que eu queria, sem muitos livros programados e sem obrigação de cumprir TBR. Foi assim com "O último judeu", a leitura que chegou de repente mas para ficar! Confiram minhas impressões dessa obra de Noah Gordon, o autor especialista em romances históricos focados em medicina medieval.

Clique para assistir

29 de novembro de 2018

Projeto Desencalha 2018 - O último trem de Hiroshima (Charles Pellegrino) | Portão Literário

"De partir o coração, revirar o estômago e perder os parafusos da cabeça." 😔😭💔🖤
Com essas palavras eu inicio o vídeo mais difícil de fazer até hoje no canal, sobre "O último trem de Hiroshima", de Charles Pellegrino. Foi a leitura do #projetodesencalha de outubro.

Clique para assistir

19 de setembro de 2018

EU LI: Ima - Sempre em Frente (Eric Peleias)

Oi gente!
Conheci o autor Eric Peleias na Bienal de Quadrinhos 2018, aqui em Curitiba. Parei no estande dele porque bati o olho no seu novo trabalho, “Até o Fim”, que já é bem comentado positivamente nas redes sociais.

Mas conversando com o Eric, ele me contou como foi que surgiu “Ima - Sempre em Frente”. A HQ é um trabalho biográfico em volume único, escrito e ilustrado pelo Eric, que conheceu a protagonista pessoalmente e decidiu contar para nós a sua história. Ali eu não tive mais dúvidas que era a Ima que eu levaria para casa. =)

O prefácio é do ator Dan Stulbach e na história vamos conhecer uma personagem real, a Julia, que após a invasão da Áustria pelos alemães em 1938, foi enviada por seus pais aos EUA, para fugir do Holocausto. Julia saiu do seu país sozinha, com uma mochila e o coração aterrorizado.
*pausa para me encantar mais uma vez com essa dedicatória tão especial: "Siga sempre em frente"! E quem me conhece não sabe meu lema? "Devagar e sempre". Né?

Abri a HQ já com o coração na mão, porque eu sabia que me emocionaria. Para amplificar minha leitura, descubro que eu e Julia temos em comum nossa data de aniversário: 15 de fevereiro. Pode parecer bobagem mas para uma leitora como eu, que gosta de vivenciar a leitura, foi bem intenso. Como toda a história a seguir, uma jornada linda, inspiradora, tocante e contada pelo Eric da maneira mais suave e linda que já li em qualquer outra narrativa sobre o tema.

A história é triste? Claro que é. Nenhuma história nessa temática é gostosa de se ler. Mas a história da Julia tem tanta esperança e coragem, que não tem como não se alegrar junto com ela, conforme a narrativa vai avançando.

Recomendo para quem gosta da temática e também para quem está iniciando na leitura de quadrinhos, pois a narrativa é linear e as imagens são limpas e delicadas. Destaco uma particularidade da HQ, as cores claras ajudam o leitor a valorizar o lado belo da história e não as atrocidades.


Ao fechar a HQ, meu sentimento era indescritível. Tão bom saber que em meio a tantos horrores na história da humanidade, sempre existiram e sempre existirão sobreviventes para nos deixar exemplos de fé, força e garra. Nas últimas páginas o Eric nos presenteia com fotos e depoimentos da família, deixando aquela vontade de apertar a Julia bem forte e dizer no seu ouvido: Muito obrigada por compartilhar a sua história!

Ah! E o título IMA significa? Leia e emocione-se com ele também. ;-)
Boa leitura!

21 de agosto de 2018

EU LI: Lagartas e borboletas (Ana Rapha Nunes)

Oi gente!

No último dia 11 levei minha sobrinha Maria Clara no lançamento do novo livro da Ana Rapha Nunes, escritora que admiro e apoio. A Ana é carioca mas mora em Curitiba desde criança e tem uma bagagem incrível na área de educação. Foi professora por muitos anos e pouco depois de lançar seu primeiro livro, em 2015, passou a se dedicar integralmente à Literatura.

Sorte dos leitores! Principalmente do público infantojuvenil, que identifica-se muito com a escrita da Ana Rapha, por abordar na maioria de seus livros conflitos e descobertas que transitam entre infância e adolescência. Sorte a minha também, que amo literatura infanto e tenho a alegria de fechar um livro como esse e dizer: - É disso que precisamos na Literatura!


"Lagartas e borboletas" é o quinto livro da escritora, que sempre buscou inovar em sua prática pedagógica e agora nos presenteia com histórias que não só encantam, como também ensinam. Esse livro tão delicado em aparência e tão profundo em essência, fala de relações familiares, inseguranças, afetos, transformações físicas e psicológicas da adolescência.

A história é narrada em terceira pessoa e conta sobre Lara, uma menina de doze anos que vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando seus pais decidem pela separação. Não bastasse isso, seu corpo está ficando diferente e as amigas da escola surgem com conversas estranhas. A gota d'água é uma viagem que aparece do nada e Lara se vê transtornada diante de tantas mudanças!

O desenrolar das situações diante de novos cenários fazem com que Lara, aos poucos, amenize sua revolta e passe a desfrutar das mudanças com novas perspectivas. A presença de uma pessoa da família que entra na história e com sua vivência e sabedoria faz toda a diferença, me lembrou de como estamos carentes desse tipo de mensagem nos livros contemporâneos.



Certamente é uma história que cria empatia e identificação com o leitor, principalmente na mesma faixa de idade da protagonista. A história é triste em vários momentos, mas junto com a protagonista, transforma seus pesadelos em perspectivas belas e cheias de cor, como lagartas e borboletas. =)

Se você gostou e quer conhecer os outros trabalhos da Ana Rapha Nunes, só clicar aqui.

Boa leitura!

17 de agosto de 2018

EU LI: Angola Janga (Marcelo D'Salete)

Oi gente!

Na semana passada eu li essa HQ maravilhosa que comprei para compor os títulos do meu projeto África lá do canal. Nem todos eu consigo fazer vídeo, mas no final do ano pretendo compilar todos os links de resenhas em vídeos e escritas em uma única postagem. E também acho que algumas obras, como essa aqui, são melhor mostradas no formato escrito, com algumas fotos das páginas internas.

Vamos então falar dessa graphic novel linda que é Angola Janga - Uma história de Palmares, de Marcelo D'Salete! \o/


O Marcelo é quadrinista e mestre em história da arte pela USP - Universidade de São Paulo. Angola Janga é o produto de 11 anos de pesquisa sobre o mais conhecido movimento de resistência negra da época do Brasil Colônia. Já o título da graphic origina-se da língua quimbundu e quer dizer "pequena Angola", assim chamada a região de Palmares pelos negros que lá habitavam.


O bacana da obra é que o autor une ficção com realidade e reconta a história do principal líder do Quilombo dos Palmares, o Zumbi dos Palmares, que a gente sempre lembra de ter visto nos livros da escola. Só que diferente do que aprendemos nos livros da escola sobre Palmares (que aliás é muito pouco), em Angola Janga nós repassamos os acontecimentos pelos olhos das pessoas que estavam lá. Isso mesmo, pelos olhos dos negros nós imaginamos como eram suas vidas, já que os únicos registros documentados na história foram escritos por governantes e soldados, cujos interesses eram destruir os locais de resistência. 

Como leitora, senti a essência dos fatos, mesmo que possam não ter sido exatamente assim!


Marcelo também cita outros personagens importantes como Ganga Zumba, Ganga Zona e Antonio Soares. Com muita criatividade desenvolve outros personagens e leva o leitor a aprofundar-se nas suas trajetórias, sempre tentando conectá-los com alguns fatos registrados, como uma das tentativas de acordo de paz entre a Coroa Portuguesa e o quilombo. 

Eu curti muito a leitura! Achei que o autor conseguiu passar sua vontade de entregar uma releitura da história de Palmares, partindo do olhar dos protagonistas negros. A cada virada de página, encontramos pessoas buscando a liberdade, o controle de suas vidas. Conhecemos seus medos particulares, seus conflitos familiares, seus anseios em entender qual era seu papel no mundo, além das correntes a que eram submetidos. 


Angola Janga foi publicado pela Editora Veneta e possui 432 páginas. Os traços da graphic nos transmitem os sentimentos colocados acima, parecem carregar o drama vivido na época. Ao final do livro encontramos também um material adicional sobre a cultura afro dos mocambos, a história dos Palmares, mapas e estimativas. Tem até glossário com termos encontrados na obra!

Acho que nem preciso dizer mais nada né? Graphic Novel super recomendada, até porque eu sou do time que defende a preservação da história, mas com todas as suas verdades. Negros e índios também construíram a História do Brasil e Angola Janga traz um novo olhar sobre Palmares.

Boa leitura!

11 de julho de 2018

EU LI: O Alfabeto dos Pássaros (Nuria Barrios)

Oi gente!

Na semana passada li essa belezura aqui. Apesar de não ter curtido muito a narrativa, outros pontos positivos me fizeram gostar do conjunto da obra! Um deles é a edição caprichada da Cosac Naify, por isso não poderia deixar de trazer algumas fotos para vocês. 

Capa do livro.

A autora Nuria Barrios é espanhola e na obra ela nos conta a história da Nix, uma menina chinesa de seis anos que foi adotada por pais espanhóis. Só que mesmo tão pequena, ela questiona sua origem e não aceita ter sido abandonada pela mãe. Aí que a mãe adotiva entra em cena e na minha opinião a autora acertou a mão. Em meio a tentar acalmar tanta ansiedade e questionamentos da filha, ela cria uma sucessão de metáforas e histórias maravilhosas sobre sua trajetória. 

Verso da jacket do livro.
Só que mesmo com todo o esforço da mãe, Nix não se convence. Ela quer voltar para a barriga da mãe verdadeira para descobrir-se por completo. Os diálogos entre mãe e filha adotivas são mágicos, porém em alguns momentos doídos com as perguntas da menina, nos fazendo refletir sobre a rejeição familiar dos filhos adotivos.

Uma das lindas ilustração internas.
Nix tem uma irmã menor, a Nox, que também é chinesa e adotiva. E Nox age normalmente, ama a família e vê alegria em tudo. É muito legal acompanhar os momentos entre as duas para entender que crianças podem estar na mesma família, serem ou não adotadas, terem idades variadas, mas cada uma é um ser humano, uma pessoa, uma personalidade que pode sim ser lapidada, mas que sempre terá conflitos diferenciados e que devem ser trabalhados.

Detalhe dos títulos dos capítulos.
Não posso deixar de citar o trabalho bacana da ilustradora Catarina Bessel que deu vida e emoção ao livro, com ilustrações em preto e branco porém misturadas com colagens de letras impressas. E aí no decorrer da história você também vai entender o título do livro! Um ponto negativo para a capa com fundo branco em papel fosco, daquele que se levar para todo lado fica bem sujinho. =(

Quarta capa com sinopse de Rodrigo Lacerda.

Achei interessante trazer minha opinião, pois pode servir para famílias que vivem na prática o complexo processo de adoção. Um gesto lindo, que admiro demais, e que sim, pode ser apaziguado com amor e imaginação. Aliás, como sempre, a história pode curar muitos males!

Beijos!

22 de setembro de 2016

Eu li #86 - São Bernardo

Oi gente!

Depois de ler "Vidas Secas" no ano passado, coloquei outra famosa obra de Graciliano Ramos nas metas desse ano: São Bernardo. Graciliano fez parte da geração que marcou a segunda fase do Modernismo no Brasil, onde o regionalismo tomou o lugar do parnasianismo, que priorizava a formalidade. Então, com o mesmo estilo seco e direto, assim como em Vidas Secas, essa história também é marcada por sofrimentos e a necessidade de vencer obstáculos pela sobrevivência. A grande diferença é que Vidas Secas tem sua ambientação no sertão e São Bernardo se passa na vida urbana. Uma história breve e bem objetiva, de um homem humilde que acaba se tornando fazendeiro e busca uma esposa. Porém, seu objetivo com o casamento era acumular riquezas e não amar.


O protagonista da obra, Paulo Honório, que também é o narrador, é um homem fechado e hostil, que apenas se aproxima das pessoas por interesse próprio. O típico empreendedor obstinado, que deseja fazer fortuna sem importar-se com suas ações e a quem elas influenciam. O cara é espertão, manipulador e egoísta. Ah, e não aceita perder. Deu para perceber que não gostei nem um pouco dele né? Mas ainda esqueci de uma característica. Ele é ingrato. 

Bom, um certo dia ele arruma uma esposa, a Madalena. Que era totalmente o aposto, encantando todos com quem convivia e esbanjando carisma e boa vontade. O contraste era tanto que Paulo Honório "pirou". Foi um total choque de realidade que o levou a ações absurdas e impiedosas. E aí é que entra a maestria de Graciliano. Em descrever tudo isso e trazer à tona tantas reflexões, fazendo-me gostar do livro, ao contrário de muitos leitores. Porque no final das contas, percebi que Paulo Honório percebeu na esposa tudo que ele não era. E o autor, ao explorar esse conflito, foi perfeito! A leitura em si, de modo geral, é um pouco arrastada, mas o livro é breve e as reflexões que ele traz com relação ao amor e dinheiro, compensam muito.


Algumas pessoas comparam "São Bernardo" com "Dom Casmurro", de Machado de Assis. Acho que a rudeza do personagem até lembra (o ciúme doentio também!). Mas eu confesso que não consegui ler "Dom Casmurro" com a mesma boa vontade que li esse. Acho que a escrita de Graciliano é enxuta, não enrola o leitor, é eficaz e por isso me agrada mais. Recomendo!

Beijos!

24 de agosto de 2016

Eu li #81 - Sempre haverá um amanhã

Oi gente!

As resenhas estão atrasadinhas, mas considerando que o mês de agosto foi mais lento com as leituras, logo eu coloco o atraso em dia! Agora, em vésperas de Bienal, tá complicado sentar para atualizar o blog, mas hoje consegui um tempinho para deixar o registro de um livro muito especial que passou pelas minhas mãos no mês passado. "Sempre haverá um amanhã", de Giselda Laporta Nicolelis. Essa edição é antiga, imagino que a atual já deva ter outra capa. Porém, é do conteúdo maravilhoso dessa história, escrita para o público infanto-juvenil mas que atende a todas as idades, que eu vou contar um pouquinho para vocês.


O livro basicamente conta a história de uma menina, a Mahara, desde seu nascimento. Aliás, desde antes dele, quando ela ainda era muito desejada por seus pais e irmãos. Porém, embora ela tenha nascido aparentemente normal, logo acontece um fato inesperado: ela não chora como a maioria das crianças ao nascer. Seu pai, que é o narrador do livro em primeira pessoa, se preocupa mas diante dos laudos de que Mahara não apresenta indícios de nenhum problema, curte muito esse lindo momento.


Aos poucos, em casa, percebe-se que Mahara chora pouco e dorme muito. Toda essa mansidão é vista com estranhamento pelos pais, mais a pediatra revela que a criança é muito saudável. Até que certo dia, em uma visita de amigos, eles se dão conta que Mahara, perto de uma criança da sua idade, age muito diferente. Então os exames comprovaram o medo que os rondava. Constataram que Mahara sofria de um atraso psicológico. Parte triste! A autora descreveu de modo tão sensível que parece que acontece com a gente. Porque esse é um assunto super delicado, parece tão fácil explicar que a idade mental de uma criança não acompanha sua idade cronológica, mas na prática parece tão incompreensível pelas pessoas. E foi aí que os preconceitos começaram e que a história trouxe uma intensa reflexão sobre a reação das pessoas e como a sociedade lida com crianças especiais.


Só posso dizer que foi uma leitura emocionante. Houveram partes duras, em que eu não acreditava, onde Mahara sofria preconceito dos próprios irmãos. Não por maldade, mas porque nem eles entendiam direito o que acontecia com ela. A preocupação desse pai com o futuro de sua criança e seu amor infinito, defendendo-a de tudo e todos, é de doer. E então acompanhamos o desenrolar emocionante dessa história, até Mahara atingir a maioridade. E descobrimos como ela se saiu diante de uma sociedade preconceituosa e cruel. Pois é, aquela em que vivemos. ;-(

Recomendo a quem passa por uma situação assim. Recomendo a quem não passa. Recomendo principalmente a quem precisa entender que, limitações físicas e psicológicas não diminuem nem tiram a humanidade de ninguém. Muitas vezes, é bem o contrário.

Beijos!

20 de maio de 2016

Eu li #68 - A Confissão de Lúcio

Oi gente!

Li "A Confissão de Lúcio", do autor Mário de Sá-Carneiro, no início do mês, para atender ao cronograma de leitura das aulas de Literatura Portuguesa. E na última aula aprendemos um pouco mais sobre Fernando Pessoa. Opa! Mas o que uma coisa tem a ver com outra? Explico. Os dois escritores ficaram muito conhecidos em sua época pela "fragmentação do ser" em suas obras, embora de maneiras diferentes. Fernando Pessoa, desejando ser muitos, dividiu-se em heterônimos, assumindo em cada um, história e personalidade próprias. Já o Sá-Carneiro, projetou-se em outro, em "ser o outro". E isso é bem visível nessa obra, que provoca no leitor as sensações e impressões vividas pelo protagonista.

O livro é narrado em primeira pessoa e conta a história de Lúcio, que como o título diz, nos deixa uma confissão. E ela se dá após ele ser condenado e preso por dez anos, por assassinato! Lúcio foi acusado de assassinar o poeta e seu melhor amigo, Ricardo de Loureiro e, depois de cumprir sua pena, decide defender-se e relatar os acontecidos. Então, na medida que ele descreve seus sentimentos é que vai revelando os acontecimentos externos que os envolveram, tornando a narrativa um pouco lenta. Pequenos gestos são relatados detalhadamente, mas por outro lado, esse excesso de detalhes é que nos aproxima do protagonista e nos envolve na trama.


A impressão que eu tive ao ler foi de que Lúcio parece juntar os pedacinhos, reconstruir toda sua existência, quando triste e solitário, vai minunciando os fatos sob a sua perspectiva. Revive tudo lentamente, desde o primeiro acontecimento, no ano de 1895 até o momento atual em 1913. Mas também há um tempo psicológico que parece tentar buscar, conforme a memória desponta, a origem dos seus problemas. Uma história para muitas sensações, eu diria!

Mario de Sá-Carneiro
Falando um pouco do autor, Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa em 19 de maio de 1890. Filho e neto de militares, teve seus primeiros anos marcados pela morte da mãe, em 1892. Passou grande parte da infância com os avós e iniciou na poesia com doze anos. Aos quinze já traduzia Victor Hugo e aos dezesseis, Goethe e Schiller. Um passo para começar a escrever.

E aí chega novamente Fernando Pessoa, que o conheceu em 1911 na Faculdade de Direito de Coimbra e tornou-se seu melhor amigo, introduzindo-o no ciclo dos modernistas. Sá-Carneiro deixou a faculdade quando foi para Paris, entregando-se à boêmia e aos espetáculos para esquecer suas crises existenciais. Não consegue adaptar-se socialmente, continua dependendo financeiramente de seu pai e nessa época, totalmente instabilizado emocionalmente, é que produz grande parte da sua obra e troca várias cartas com Fernando Pessoa, seu confidente. As crises de depressão aumentam e com elas as crises financeiras. Foi então que em 1916, ele anuncia em uma das cartas à Pessoa, a intenção de suicidar-se. E o faz, no dia 26 de abril daquele ano, em um quarto de hotel.

Mais um escritor que deixou sua marca na história da Literatura, embora tenha decidido escrever sua própria história de maneira tão trágica. 

Beijos!