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10 de dezembro de 2024

EU LI: SALENS Novo Ciclo (Nicolas V. da Roza)

Oi gente! Voltei quase no finalzinho do ano para deixar uma sugestão de leitura, uma publicação da qual fiz parte e que amei o resultado.

Se você é fã de fantasia, prepare-se para mergulhar de cabeça em um universo que mistura tradição, mistério e amadurecimento. Salens: Novo Ciclo é uma obra que encanta pela sua riqueza de detalhes e pela profundidade de seus personagens. Com um enredo que combina mitologia própria e aventuras cativantes, o autor entrega ao leitor um mundo onde os desafios e os ciclos da vida se entrelaçam de forma magistral.


A história acompanha Draken, Draina e Clawen, três jovens pertencentes aos sete clãs dos Salens, escolhidos para proteger seu povo. Seus dilemas pessoais e o caminho de amadurecimento são o ponto de conexão com o leitor, que se vê refletido em suas dúvidas e superações. A narrativa, habilmente conduzida, explora temas como amizade, coragem e o enfrentamento de medos, enquanto revela um mundo repleto de lendas, rituais e batalhas épicas.

Um dos pontos altos do livro é a construção do universo de Cycles. A Cidade das Lendas, por exemplo, é descrita com tanto esmero que parece saltar das páginas. Essa atenção aos detalhes transporta o leitor para os cenários vibrantes, permitindo que ele experimente cada emoção junto aos personagens.


Outro mérito é a forma como o autor apresenta seu mundo. A complexidade do universo fantástico de Salens não é um obstáculo para o leitor, mas sim um convite à exploração. Ao descrever os elementos desse mundo, o autor não sobrecarrega a narrativa, mas a enriquece, permitindo que as particularidades do universo sejam absorvidas aos poucos, quase como uma conversa fluida.

Para quem aprecia histórias de fantasia que vão além da ação, oferecendo também um mergulho nos sentimentos e nos valores dos protagonistas, Salens: Um Novo Ciclo é uma escolha certeira. Uma obra que, ao mesmo tempo, entretém e emociona, nos lembrando que a vida, assim como em Cycles, é feita de desafios e renascimentos.


Se você gosta de se perder em mundos fantásticos e encontrar em suas narrativas reflexões sobre o próprio mundo, este livro merece um lugar na sua estante. 

Boa leitura!

13 de abril de 2024

EU LI: Os Manuscritos Perdidos (Charlotte Brontë)

Oi gente!

Tem um livro que fez parte das minhas leituras de 2021 mas acho que vale registrar aqui.


"Os Manuscritos Perdidos" contém quatro ensaios de pesquisadoras e especialistas nas obras das Bronte sobre a história de um livro da família que ficou escondido com colecionadores por mais de duzentos anos.

Tudo teve início em 1810, quando Maria Branwell, que se tornaria mãe das famosas irmãs Brontë, obteve um livro, em sua terra natal. Dois anos depois, ela se mudou e o exemplar estava entre seus bens que naufragaram em um navio. O livro foi recuperado intacto e tornou-se precioso para toda a Família Brontë, sendo não apenas uma fonte de leitura, mas também de anotação pelas irmãs Charlotte, Emily, Anne, seu irmão Branwell e seu pai, Patrick. O ensaio que trata sobre como o livro inspirou Emily a escrever sua obra-prima "O Morro dos Ventos Uivantes" é sensacional.

Para quem gosta das vidas e obras das Bronte, é um livro riquíssimo de informações.

Boa leitura!

8 de abril de 2024

EU LI: Correndo Atrás dos Sonhos (e outros livros de Onacir Bueno)

Oi gente!

Estou decidida a deixar as redes sociais e voltar para o blog, um lugar que foi meu refúgio por anos e que está muito abandonado. Sinto-me bem aqui porque é um espaço meu e que chega quem quer. Diferente das redes sociais que espalha aos quatro ventos nossas opiniões e quereres, e só o que percebemos são críticas, comunicação violenta e comentários sem noção.

Por isso, pretendo retornar aqui ao menos com uma postagem semanal, por enquanto. Se você gosta desse espaço, se me segue há anos ou está chegando agora por aqui, sinta-se à vontade para maratonar e entrar em contato se quiser. Tem muito conteúdo bacana no histórico, para todos os gostos.

Hoje, por exemplo, vou falar de uma pessoa que conheci em 2019, o Onacir! Foi apresentado a mim pela amiga Margareth e na época ele precisava de assessoria para publicar seu primeiro livro. Não é um trabalho oficial que ofereço no mercado, vocês sabem. Minha profissão oficial é outra, mas literatura é uma paixão em paralelo e achei o trabalho do Onacir inspirador e necessário nas estantes.


Então posso dizer que tive o prazer de participar da produção, fazendo a revisão e leitura crítica. "Correndo atrás dos Sonhos" é baseado na palestra homônima que o autor apresenta em várias oportunidades, contando sua história de superação. Onacir é Economista, Licenciado em Letras, possui especialização em Gestão de Pessoas e Gestão Empresarial. Já foi Educador Corporativo, Mentor e Consultor Financeiro. Diagnosticado precocemente com uma doença neurodegenerativa, decidiu viver a vida intensamente e correr, literalmente, atrás dos seus sonhos, participando de maratonas e ultramaratonas pelo mundo. 

E mais recentemente, no início desse ano de 2024, eu recebi um exemplares de cada livro do Onacir publicado desde então, cuja edição não acompanhei e isso prova que o ajudei no "caminho das pedras" né? \o/
Aliás, produção esta que vem crescendo a cada ano, dá uma olhada aí!! "A estrada continua" é uma extensão do seu primeiro livro. Eu adorei a leitura e saber mais um pouco da trajetória do Onacir.


Ele também publicou o livro de contos "Crianças Imaginárias", o livro de poemas "Encontros e Desencontros" e um livro de contos com teor erótico "Fetiches e Fatoches". Uma produção de qualidade, com capas bem feitas, edição impecável e bem revisada da Editora Becalete.



Importante destacar que a renda líquida da venda dos livros do Onacir Bueno são doadas para a Associação Parkinson Paraná. Interessados em colaborar, contato direto com o autor via facebook ou pelo site da Editora.

Obrigada Onacir, por me permitir fazer parte do início do seu sonho. Desejo muito sucesso sempre!

28 de abril de 2023

EU LI: ÉTICA & ENVELHECIMENTO – Memórias e Reflexões de um Engenheiro de Trincheiras (João Carlos Cascaes)

Oi gente!

O tempo está escasso, mas continuo tirando um tempinho para prestigiar os colegas escritores que me oportunizaram as maravilhas das suas escritas. Hoje eu mostro uma leitura que fiz nos últimos tempos e que recomendo demais, por sua autenticidade e valor agregado nas experiências reais descritas na obra.


Li recentemente o livro do Cascaes, membro da ALJA que nos brinda com os registros e memórias dos momentos da Academia e seus participantes. Também não poderia deixar de mencionar a breve conversa que tive com ele no Piquenique Cultural de março. Foram quinze minutos que representaram horas de aprendizado. Conversar com alguém que tem a visão de mundo e vivência do Cascaes é um privilégio. Eu posso dizer que tive.

No seu livro, além da sua experiência de vida e trabalho, Cascaes nos permite conhecer um pouco do que pensa e procura praticar, nos dando exemplos valorosos de ética e poder de controle sobre o processo de envelhecimento, aprendizado que todos deveríamos ter. 

Ao refletir sobre a passagem do tempo ele nos afirma que “todo ser humano precisa aprender a envelhecer, a não temer a morte. A receita para isso está na felicidade. Ela é saudável e pode ser conquistada de muitas maneiras”. Grande ensinamento, Cascaes! Eu aprendi muito sobre isso durante os últimos anos de vida da minha mãe e hoje procuro prezar a paz de espírito, meditação, oração e reflexão como base de tudo que faço, pois a serenidade é fundamental para aceitarmos esses processos. 

Além dessas profundas reflexões, Cascaes também nos passa sua experiência profissional, como engenheiro eletricista. Destaco, entre muitas funções importantes que exerceu, a presidência da Copel por um período. Fala também sobre sua aposentadoria, mas nos dá um exemplo de profissionalismo ao abordar temas tão atuais no mundo corporativo, como inclusão, prevenção e sustentabilidade.

Uma obra tão rica deve ser divulgada! 

Abraços a todos!

24 de abril de 2023

EI LI: Aprisionadas (Cida Varela)

Oi gente! 

Dando continuidade nas leituras de colegas escritores que fiz nos últimos tempos, hoje vamos para mais uma dica, o livro "Aprisionadas" da escritora Cida Varela. Conheci a Cida virtualmente, ao receber com surpresa um convite para fazer a leitura crítica do seu novo livro, “O Sono do Sol”, que será lançado nessa semana! Mais informações sobre isso no final desse post.

Em nosso primeiro encontro presencial, a Cida me presenteou com “Aprisionadas”, também de sua autoria. Uma obra que relata a vida real de mulheres antes e após a prisão, buscando romper as correntes que as aprisionam para renascerem livres. Cida é formada em Direito e atuou como Servidora do Departamento Penitenciário do Paraná desde 1995. Seu foco é escrever sobre temas ligados à defesa dos Direitos da Mulher. A obra é fruto de relatos de histórias que lhe foram contadas e autorizadas a publicar.



Seus dois primeiros livros, Aprisionadas e Corpos na Horizontal, são inspirados no relato de mulheres, detentas em instituições, aprisionadas em relacionamentos abusivos ou padrões comportamentais sufocantes, mas que se libertaram. A escritora praticou várias ações culturais envolvendo o fomento da escrita produzida por mulheres do sistema prisional da Penitenciária Feminina de Piraquara (PR) e, pelas suas ações sociais, é autora homenageada no 3° FLIPI, Festival Literário de Pinhais (PR).


Os livros terão segunda edição em breve, porque agora a autora está lançando seu segundo romance: "O Sono do Sol". O evento de lançamento será na próxima quarta, na Biblioteca Pública do Paraná. Abaixo informações detalhadas:





Esperamos vocês lá!

Beijos!

17 de abril de 2023

EU LI: Estrada Invisível (José Assumpção)

Oi gente!

Inicio hoje uma série de postagens com os livros de colegas queridos que li nos últimos meses. E já chego com uma dica fresquinha porque foi um dos melhores livros sobre história de vida e paixão por um esporte que já li. 

Conheci o “Giba” no NLCAC – Núcleo de Literatura e Cinema André Carneiro e até ler seu livro, apenas o que sabia dele, era que escrevia, era baterista de uma banda de rock, tinha uma webrádio e era fã de pedal, inclusive proprietário de uma empresa de entregas com bicicleta. E eu achava que já sabia muito, ledo engano.

“Estrada Invisível” é fruto de um momento delicado de saúde que o Giba passou recentemente, mas a gratidão é dos leitores que terão o prazer de ler essa lição de vida e superação. O pano de fundo é sua história com as “magrelas”, mas tem muito mais embutido nas linhas desse livro. Sua infância, amadurecimento, vida em família, trabalho e principalmente, seus sonhos vivenciados em números de quilômetros rodados. Chorei e sorri percorrendo com o Giba sua história pelas rodovias do Sul do Brasil. Embora eu não tenha pedalado, passei por muitos dos lugares que ele citou, e imaginar que por onde passei existem rastros e suor e memória de uma pessoa guerreira como o Giba, me emocionam.


E no próximo dia 22/4/2023 tem lançamento desse livro incrível. Abaixo informações sobre o evento. 

29 de dezembro de 2022

EU LI: COLORINDO GIOCONDAS (Valter Cardoso)

Oi gente!

O lançamento já tem um tempinho, mas eu optei por ler (ou reler) com calma os contos de “Colorindo Giocondas”, o novo livro do autor e amigo Valter Cardoso. Embora eu esteja sempre lendo seus escritos, pois organizamos e participamos de coletâneas juntos, eu sabia que essa leitura teria um gosto diferente.

Já adquiri logo dois exemplares, para presentear um amigo de leituras que logo vai receber.

Conheci o Valter em 2017, quando também fui presenteada com um exemplar do seu livro "Tesouros de Curitiba e Outras Histórias", na época fiz um vídeo sobre ele no canal, com direito a fotos de Curitiba e barulho da furadeira do vizinho. Nesse link aqui. Lembro que na época o que mais me surpreendeu foi a experiência de ler contos fantásticos através do olhar de um profissional da área de exatas (que também era meu caso!)

Então nosso contato se tornou amizade, com os encontros do NLCAC e trabalhos literários que fizemos juntos. É claro que tudo isso tem um peso na minha satisfação com a leitura, já que sou fã do Valter e da sua maneira de escrever. Mas "Colorindo Giocondas" foi além.


"A vida reflete nossos sonhos, ausentes de sentidos e repletos de significados". Cada conto do livro é antecedido por uma página com uma ilustração e uma frase. Essa é a frase que antecede o conto "Colorindo Giocondas". Tá bom prá você? Depois dos meus preferidos do livro Tesouros: "Fita de Moebius", "Meu filho" e "Genitura", ler o conto que dá nome ao novo livro, que através da fantasia nos deixa uma real reflexão sobre a diferença entre ver e enxergar, me paralisou. Ao mesmo tempo que entendi uma pergunta embutida: Você vê ou enxerga?, fiquei me perguntando: Será que li corretamente o que as palavras tentaram me dizer? 

Louco né? Mas é isso que a escrita do Valter causa nos leitores. Se você espera histórias previsíveis e com soluções mastigadas, leia outros autores (poderia até citar nomes aqui como sugestão, mas temo más interpretações). A capacidade do Valter em contar algo em entrelinhas e despertar a curiosidade do leitor para pesquisa de elementos citados, somada à sua exímia preocupação pelo primor e revisão do texto, para mim é algo único nas minhas leituras de contos contemporâneos. 

Colorindo Giocondas é uma coletânea de 12 contos, com histórias que mesclam aventura, suspense, humor e emoção, ambientadas no realismo fantástico. Vários contos eu já conhecia, como por exemplo, "Malditos CGIs" e "Reality Show", que fazem parte, respectivamente, das coletâneas "Tempo de Dragões" e "Tempo de Exploradores", que organizamos junto com o Rafael Bertozzo Duarte.


Preciso citar um conto do livro que amei quando li, agora reli e continuo amando: "Informágica". Tá, quem conhece minha paixão por fadas vai dizer que não é novidade. Pode até ser a justificativa, mas não é a única. A temática, misturada com a forma de contar do Valter e aliada com elementos tecnológicos, na minha opinião resultou em um conto incrível. Pode até ser uma história mais simplória, comparada às demais, mas eu fico imaginando um mundo à parte e um livro só para ela! "Informágica" fez parte da coletânea "Féericas", organizada por mim e pela autora Lu Evans.

Percebem como me empolgo para falar das histórias do Valter? E aquele final do conto "Sangue em Preto e Branco"? Até vou parar por aqui, porque gostaria de mencionar as lagartas do conto "A Transformação", o pacote roxo de "Certas Palavras", os filmes antigos de "Sangue em Preto e Branco"... Ops! Parei por aqui. 

Bora ler "Colorindo Giocondas" porque é muito bom! \o/

Você pode adquirir o livro físico na UICLAP, clicando aqui.

Você pode adquirir o e-book na Amazon, clicando aqui.

Sobre o Valter:

Valter Cardoso, natural de Curitiba (PR), Brasil. Membro do Núcleo de Literatura e Cinema André Carneiro - NLCAC. Membro efetivo da Academia de Letras José de Alencar - ALJA. Organizador de eventos multiculturais como a Megacon Brasil, Literatiba, Jedicon PR e Gincanas da Tribo. Também autor de Tesouros de Curitiba e Outras Histórias (2016) e Mobius Strip (2021). Organizador das coletâneas de contos: Passageiros do Desconhecido (2018), Tempo de Dragões (2020), Tempo de Exploradores (2021), Tempo de Robôs (2021), NEON - 20 anos do NLCAC (2022) e Tempo de Vilões (2022). Participação em outras coletâneas de contos e poesias, desde 2009.

Aproveito para desejar um excelente 2023 a todos, que seja um ano de muitas leituras !

28 de novembro de 2021

EU LI: O castelo do homem sem alma (A. J. Cronin)

Oi gente!

Fiquei um tempinho sem postar aqui, mas tenho revisto para descontinuar algumas coisas em 2022, objetivando sobrar mais tempo para escrever aqui. Afinal, é meu meio mais antigo de divulgação do meu trabalho e o mais visitado! Obrigada a todos por estarem sempre por aqui!

Hoje quero falar sobre uma leitura peculiar que fiz no mês de novembro. Enfim conheci a obra de A. J. Cronin! Minha sogra, fã do autor há muitos anos, tem uma coleção rara da década de 60 e há tempos insistia para eu ler. Bom, esse momento chegou. Eu escolhi o primeiro livro que ela leu dele, e que a fez ler todos os outros: O CASTELO DO HOMEM SEM ALMA. 



A coleção é da José Olympio e a publicação do livro é de 1968 com tradução de Rachel de Queiroz. E já fico me perguntando porque o autor não foi mais publicado no Brasil. Archibeld Joseph Cronin (1896 - 1981) foi um escritor escocês, formado em Medicina, que escreveu vários romances. Sua temática predominante era, sem dúvida, a medicina, mas também as críticas sociais. Dizem os críticos que "A Cidadela", de sua autoria, junto com "O Físico", de Noah Gordon (maravilhoso!) e "Quando Nietzsche Chorou", de Irvin D. Yalom (preciso ler!), formam o trio dos grandes romances médicos na literatura universal. 


"O castelo do homem sem alma" (ou Castelo do Chapeleiro pois o título original é Hatter's Castle) possui sim um personagem médico, mas que não é o centro da trama, embora tenha uma participação importante do meio para o final do livro. O principal personagem é esse chapeleiro, que aliás, se tornou para mim o pior personagem que já li. Tirou o posto do Ernesto Vidal de "O Labirinto do Fauno".

Essa pessoa vive em Levendorf, uma cidadezinha inglesa que ao seu entender, não chega nem aos pés da importância da sua família. James Brodie, patriarca da família, não se misturava porque mantinha a certeza de que era parente de um conde, devido ao nome que trazia ou a motivos que nem me detive, porque eram óbvios que foram criados por sua imaginação doentia. 

Sua esposa Margareth, seus filhos Matt, Mary e Nessie e sua mãe idosa que com eles morava, eram vítimas diárias da sua personalidade egocêntrica, mesquinha e dominadora. Só "gostava" mesmo da sua filha caçula, pois a achava inteligente e fez dela uma muleta para seu tão sonhado sucesso, já que ela estudava para concorrer a um concurso importante. Considerava seu primogênito Matt um "estragado" pela mãe e proibiu sua filha Mary de casar com um rapaz decente e trabalhador, apenas porque ele era filho de um comerciante, a quem ele chamava "taverneiro".

Esse episódio de Mary traz um choque ao leitor antes da metade do livro e como disse minha sogra, "em um ponto você acha que o livro acaba, mas é aí que ele começa!". Não tem como não se envolver com a família Brodie e sofrer com as consequências causadas pelo patriarca tirano. Chegou um momento que deu vontade de largar o livro, tanto era a raiva dessa pessoa. Mas não tem como largar, impossível não querer chegar ao final, mesmo trilhando situações tristes ao extremos ao longo da história.

Já aviso. Há tempos uma leitura não me agarrava tanto. Li em cinco dias as 400 páginas do livro, esperando um final completamente feliz, mas ele não veio. Há sim, boas surpresas no final mas a ttrma é marcante e inesquecível. Daqueles desfechos que há alguns anos, se eu lembrar do livro, lembrarei com detalhes do final. Só indo até o fim para saber se haverá ou não a ruína de James Brodie, ou se o patriarca machista, preconceituoso e orgulhoso enfim vai se redimir de suas faltas.


Mas como não só de trechos ruins é feito um livro sofrível, há também muitas passagens bonitas, retratando a união das duas irmãs e principalmente, a garra e coragem de Mary para sobreviver ao acontecimento do início do livro, em uma sociedade da época com um pai machista e hipócrita. Para mim, a melhor personagem da história.

Também uma curiosidade histórica, que ainda não tinha visto retratada em nenhum livro. Naquele momento que contei que parece que o livro acaba, um dos personagens é vítima do desastre da ponte Tay, um fato real que ocorreu durante uma tempestade em 28 de dezembro de 1879, quando um trem que percorria o trecho entre Burntisland para Dundee, na Inglaterra, a fez desabar, matando todos que estavam a bordo.

Então pense bem, porque apesar do protagonista odioso, a história tem muita coisa boa e foi escrita por um autor que já me conquistou. Já estou com "A Cidadela" aqui para ler.

Beijos!

19 de julho de 2021

EU LI: O Primo Basílio (Eça de Queirós)

Oi gente!

Nosso processo de mudança está quase lá! Estamos no auge das reformas e se tudo der certo, mais uns quinze dias estamos mudando em definitivo. Mas agora é a fase mais trabalhosa, correrias mil e tá bem difícil gravar vídeo. Então, decidi deixar aqui no blog as minhas impressões da leitura de junho do nosso grupo com o Carlos do canal Livros &Ebooks: O PRIMO BASÍLIO de Eça de Queirós.


Acho legal comentar que a escolha do livro foi uma consequência da leitura de maio, que foi Madame Bovary do Flaubert e tem vídeo no canal. Quando comentado no grupo que a literatura de Flaubert foi inspiração para muitos escritores, inclusive para o Eça escrever "O Primo Basílio", batemos o martelo com o intuito de não só conhecer a história, mas comparar as obras e identificar paralelos entre uma e outra. Isso porque o tema central das duas obras foca foi um tema bem comum na chamada vanguarda realista: o adultério. 

Publicado pela primeira vez em 1878, "O Primo Basílio" é ambientado na sociedade urbana de Lisboa e percebe-se um intuito muito grande do autor em criticar o romantismo e analisar a moral da classe burguesa em Portugal na época. Além de  "Madame Bovary", o romance português também dialoga com o russo "Anna Karenina" e o brasileiro "Dom Casmurro", cujo autor aliás, nosso grande Machado, era crítico ferrenho da obra de Eça. Mas isso dá "pano prá manga" e seria assunto para outro post.

Em resumo e sem spoilers, a história mostra um lar aparentemente feliz, onde vivem Jorge e Luísa. Jorge é um engenheiro e marido dedicado, enquanto Luísa é uma vítima de fantasias românticas (como Bovary). Essa alienação da realidade a leva ao adultério, enxergando em seu primo Basílio a realização dos seus sonhos românticos. Já Basílio, que é irresponsável e conquistador, aproveita-se da situação e exerce tamanho poder em Luísa, que a torna incapaz de discernir seus valores morais. Inconsequente e apaixonada, durante uma viagem de Jorge a trabalho, ela se rende aos encantos do primo. Nessa apresentação de personagens e início da história notei um paralelo de Jorge com Charles Bovary, no sentido de ser acomodado, quando Luísa lamenta não poder viajar ou conhecer lugares porque "o marido era tão caseiro", e Eça aproveita para alfinetar sua gente completando a fala de Luísa: "...tão lisboeta"!

Temos outros dois personagens importantes na história: Juliana e Sebastião. Juliana é empregada doméstica da casa e não se entende com Luísa de jeito nenhum. Luísa é impositiva o tempo todo, alimentando em Juliana, que já se apresenta com caráter duvidoso, o desejo de vingança. Já Sebastião é amigo de Jorge desde criança, com laços fraternos e indissolúveis. Conformado por seus planos de ser sócio de Sebastião terem minguado, agora atua como um sombra do casal, ajudando Jorge nos agrados com a esposa. Além dos personagens centrais, temos também a beata Dona Felicidade, o fofoqueiro Senhor Paula, o empregado Julião e Castro, que tem uma paixão platônica pela Luísa. 


Em meio aos personagens e enredo, temos uma Juliana frustrada com sua vida solitária, que canaliza sua raiva em Luísa pelos maus tratos e abraça a oportunidade de vingar-se e beneficiar-se com os segredos que descobre. O final do livro remete ao que deveria ser o final para os padrões da época, mas muito triste, como em Madame Bovary. Enfim, era o que eu esperava levando em conta o autor, época e escola literária. Gostei da leitura, exceto pelo que me irritou um pouco, o excesso de diminutivos utilizados pelo autor ao se referir às características, ações ou sentimentos de Luisa (pensamentozinhos, pezinhos, rendazinhas do vestido...), ou descrição de locais (canteirinhos, terraçozinho), mas imagino que foi proposital.


"O Primo Basílio" foi adaptado para o cinema e televisão. A Globo lançou a sua versão em 1988, escrita por Gilberto Braga e dirigida por Daniel Filho, que também assinou a adaptação de 2007. Há também uma versão portuguesa dirigida por Antônio Lopes Ribeiro e recentemente, o ator londrino Ben Kingsley anunciou que a sua produtora, a Lavender Productions, em parceria com a Nevision, faria uma adaptação televisiva para o romance reconhecido mundialmente. A obra já está em domínio público e pode ser acessada por esse link aqui. 


Boa leitura!

7 de junho de 2021

EU LI: Piano Mecânico (Kurt Vonnegut)

Oi gente!

Como não consigo gravar vídeos de todas as leituras que gostaria, deixo algumas impressões aqui pelo blog. E a leitura que venho contar hoje foi bem especial! Minha segunda experiência com o escritor Kurt Vonnegut (a primeira foi Matadouro 5) também não deixou a desejar. Uma distopia de qualidade que deveria ser citada junto com outras distopias famosas: Piano Mecânico.


Decidi ler "Piano Mecânico" para me inspirar a escrever meu conto para a coletânea "Tempo de Robôs", meu trabalho atual de publicação, terceiro volume da coleção "Tempo", que organizo junto com os colegas Valter Cardoso e Rafael Duarte. Mas minha experiência de leitura foi muito além da inspiração para escrever. "Piano Mecânico" é um livro intrigante, com uma trama bem elaborada e um desfecho bem reflexivo.

A história se passa após uma Terceira Guerra Mundial, num contexto em que as máquinas venceram os homens e a sociedade vive em um sistema no qual é a capacidade intelectual que diferencia as pessoas. Humanos de QI mais alto, mais propriamente os engenheiros e os gerentes, como são descritos no livro, são privilegiados e moram no lado rico da cidade. Paul Proteus é um desses engenheiros, o mais importante e inteligente das Indústrias Illium. Mas após receber a visita do amigo Ed Finnerty, passa a perceber as injustiças sociais em seu meio.

Isso porque as pessoas com capacidade intelectual menor foram substituídas pelas máquinas e moram do outro lado da cidade, após uma ponte que a divide. A situação lá é bem diferente e a situação totalmente desigual. Ao atravessar o rio com Ed, Paul reconhece a realidade dos excluídos e começa a questionar o sistema, mesmo sabendo que ir contra ele poderá lhe gerar complicações muito graves. Paul é casado e na sociedade em que vive, as mulheres se beneficiam da posição hierárquica do marido, então nessa virada seu casamento também é colocado em risco. Chega o momento de Paul fazer escolhas.

Em paralelo à jornada de Paul, há outra narrativa que aparece em alguns capítulos. Conhecemos um xá que visita a cidade e espanta-se com a forma como é organizada. Tece comentários comuns em seu país, que para eles beirava o absurdo, fazendo o leitor refletir e construir comparativos. Em um determinado ponto da história as duas narrativas se conectam.

A história entrega ao leitor muitos críticas sociais e é interessante o fato de uma obra que foi publicada em 1952 se mostrar tão atual. Um tema tão abordado em nossa sociedade que é a substituição do trabalho humano por máquinas e o medo de que as pessoas se tornem dispensáveis. Em "Piano Mecânico", a sociedade era muito organizada, não existia fome nem falta de atendimento médico, mas ainda assim a desigualdade social era grande, atingindo outros fatores da vivência humana. Isso porque essa questão aborda muitos fatores comportamentais, na minha opinião. Mais do que uma simples leitura, "Piano Mecânico" é um livro para debates e reflexões.

Boa leitura!

13 de abril de 2021

EU LI: A TERRÍVEL MISSÃO DE JUDITE EVANS (Frankcimarks Oliveira)

Oi gente!

Hoje vou falar sobre um belíssimo trabalho que já deveria estar publicado aqui desde o ano passado, mas vocês já sabem como foi meu 2020 né? Mas antes tarde do que nunca!

Apresento a vocês mais uma participação na literatura dos colegas escritores. Fui convidada para escrever a apresentação e fazer a leitura crítica do livro de estreia do autor paraibano Frankcimarks Oliveira, "A Terrível Missão de Judite Evans". Um trabalho que me trouxe, além da alegria em fazer parte deste projeto, uma experiência intensa de leitura.

SINOPSE

Aos treze anos de idade, Judite Evans muda-se com a tia para o orfanato São Jerônimo no pequeno distrito de Capela Branca. Lá ela conhece Monique Anderson, uma anciã misteriosa que a fará descobrir os poderes ocultos de sua fé. A amizade com Monique é um refrigério para a menina que testemunha os mais horrendos tipos de abusos dentro da instituição onde vive. Os órfãos correm perigo. Judite sente-se impotente diante dos fatos. Entretanto, seus traumas despertam um dom. O que Judite fará com ele?


Só a sinopse já dá aquela vontade de ler né? Além do título e da capa super atrativos e que deixam o leitor muito curioso. Apesar do livro abordar uma temática pesada, mas não menos importante de ser divulgada, que é o drama da violência infantil, a história é recheada de fantasia e realismo mágico.

A protagonista da história, Judite, é uma menina de treze anos que vive em um orfanato. E lá presencia uma série de abusos, principalmente por parte de sua tia Margot, acostumada a maltratar as crianças. Esse fato que torna o semblante de Judite triste, além de sua personalidade desconfiada e de pouca fé. Além da tia Margot, alguns padres também ajudam a ampliar o problema, se afastando de sua principal função de ajudar ao próximo.

É aí que Judite, já sem esperanças, se aproxima de uma vizinha, a velha Monique, que tenta ajuda-la através de um enigmático livro, que contém mistérios de magia advindos de uma filosofia que mostra um lado sombrio do poder da religião. Nossa protagonista, sedente por conhecimento, memoriza os encantamentos e tenta com eles solucionar os problemas do orfanato.

"A Terrível Missão de Judite Evans" é uma narrativa que prende o leitor do início ao fim pelo tom de suspense e mistério, além de escrita em linguagem de fácil compreensão. O tempo todo torcemos para que Judite tenha um final feliz e livre as crianças daquela situação catastrófica, que sabemos existir fora da ficção. Por isso, também valorizo o livro como uma denúncia aos abusos cometidos contra crianças, no mundo inteiro.

O escritor, que é paraibano da cidade de Patos, concedeu uma entrevista sobre seu lançamento para a Folha Patoense, você pode conferir clicando aqui:

http://www.folhapatoense.com/2020/05/09/escritor-patoense-lanca-livro-de-ficcao-e-fantasia-na-internet/

Você pode adquirir “A terrível missão de Judite Evans”, no Kindle Unlimited ou em qualquer dispositivo móvel, basta clicar no livro e será direcionado ao site da Amazon:


Boa leitura!

8 de abril de 2021

Uma viagem à Índia (Gonçalo M. Tavares)

Oi gente!

Hoje encerro as postagens das aulas da matéria do mestrado. Fecho com chave de ouro, comentando um pouco sobre o livro que tive o prazer de escolher como meu tema de apresentação e que me trouxe uma gratificante experiência de análise e leitura: "Uma Viagem à Índia", de Gonçalo M. Tavares.


Falando um pouco do autor, Tavares nasceu em 1970 em Angola, já foi premiado e seus livros foram traduzidos para vários idiomas. Um de seus livros mais renomados, "Uma Viagem à Índia" trata-se de um romance escrito de forma epopeica, dividido em dez cantos, sendo que cada um divide-se em estrofes, que também podem ser lidas de forma aleatória e separada. Sim, é uma experiência incrível!

O livro conta-nos a história de Bloom que após uma série de acontecimentos trágicos que serão contados durante o decorrer da ação, decide partir de Portugal para a Índia, pensando em adquirir sabedoria e libertar-se do passado. Bloom acredita que é impossível viajar à Índia sem passar por diversos lugares antes de alcança-la. Para ele, a Índia não é uma mera localização geográfica, mas sim um estado de espírito.

O livro faz um paralelo com "Os Lusíadas" de Luis Vaz de Camões e também com "Ulisses" de James Joyce, onde ele vai buscar o nome do personagem. Mas apesar das referências, é uma obra original e muito bem escrita. Bloom tem sua inspiração maior em "Ulisses", de James Joyce, porém ao invés de concentrar a sua "odisséia" em um só dia, a faz durar meses, se metendo em confusões e encrencas.

Este Bloom de Tavares, que vive em 2003, parte e volta sozinha de sua viagem física e mental. Ele viaja para esquecer o passado e viver o presente sem laços. Ao fazer o personagem demorar-se em cada paragem, nunca revelando pressa, Tavares manifesta a sua posição em relação ao excesso de velocidade a que opera o mundo no século XXI. Excesso este responsável pelo tédio nas sociedades dos dias de hoje. No presente ambiente de excesso de consumismo (senso) e de experiências instantâneas, o homem procura constantemente novas sensações, viajando entre emoções na esperança de se sentir alguma espécie de felicidade, ainda que transitória e passageira.

O maravilhoso do livro não é a história, mas sim o personagem e sua caminhada. Bloom não é um herói, é um ser humano como todos nós, com mágoas e alegrias do passado, buscando respostas para construir um futuro melhor. Nesse caso o caminho físico nada mais é do que um deslocamento interno pelo sentimento de culpa, tédio, fuga e busca da sabedoria. Imaginação não é distante da realidade. Quem imagina também parte de elementos do mundo.

Em "Uma viagem à Índia", Bloom também se entrega a essas alegrias passageiras para escapar ao tédio que o domina durante a viagem, particularmente no seu regresso da Índia, depois de descobrir, ou melhor, depois de confirmar que tudo o que acreditou ser aquele país mágico e místico não passava de uma mentira.

A viagem termina precisamente com aquilo que fez com o que protagonista iniciasse a sua fuga - um assassinato, que significa que nada deu resultado, tudo voltou ao mesmo, à semelhança do que aconteceu com o tédio, a indiferença. "Chega à Lisboa, nenhum ódio o recebe e nenhum amor". Mas essa libertação temporária que sentiu não dura muito, dando lugar ao pânico e ao medo que o levam a regressar, agora com pressa, à Lisboa, onde apenas encontra o vazio.

O final da aventura de Bloom é melancólico e nele se revelam finalmente, de forma bastante intensa e profunda, todo o desencanto e todo o tédio que o acompanham ao longo de seu percurso. Uma mensagem de que preocupamo-nos muito com o que é a vida, com a busca da felicidade, com grandes acontecimentos, e acabamos paralisados de tanto pensar, não percebendo que a cada dia a vida passa, e somos nós que não damos peso ao que nos acontece.

Garanto a você que a leitura da apopéia de Bloom marcará para sempre sua experiência como leitor!

Boa leitura!

20 de março de 2021

O Livro do Desassossego (Fernando Pessoa)

Oi gente!

Vamos hoje comentar sobre mais uma das aulas da matéria do mestrado que fiz em 2017. Uma das mais complexas, daquelas que fazem surgir assunto para um mestrado inteiro. Falamos sobre o "Livro do Desassossego", uma das mais belas e importantes obras do poeta português Fernando Pessoa, que aparece no livro sob o heterônimo de Bernardo Soares, um ajudante de guarda-livros que mora em Lisboa.


"Livro do Desassossego" começou a ser escrito em 1913 e foi publicado em 1929. Inicialmente foi escrito com o heterônimo de Vicente Guedes para depois Pessoa decidir por Bernardo Soares. Segundo ele, é um fragmento dele mesmo. A obra foi escrita em cartas sem nenhum tipo de norma ou organização. Uma das complicações do livro é que é impossível desmembrar ou estudar um parágrafo isolado, pois Bernardo Soares escreve em um nível de autoanálise que resulta em "estou em um estado triste", já abaixo da minha consciência.

A obra é permeada por temas como metafísica e história, mas também retrata a condição humana, as angústias do ser e o tédio como uma sensação de inutilidade. Em meio à prosa poética, se destacam novos rumos de pensamento e reflexões, trazendo ao leitor uma identificação com as dores e confissões expostas. Uma frase do prólogo diz que: "A palavra desassossego refere-se não tanto a uma perturbação existencial no homem como à inquietação e incerteza inerentes em tudo e agora destiladas no narrador retórico. Mas a força dum outro desassossego - mais íntimo e profundo - impõe-se pouco a pouco, e o livro assume dimensões inesperadas". Diz-se que a obra contém uma espécie de biografia do autor, contendo todo o essencial da sua diversidade heteronímica. Bernardo Soares mistura objetividade e subjetividade, quando declara que "o universo não é meu: sou eu".

Fernando Pessoa, em toda a sua obra, refugiou-se em personalidades inventadas. Há muitos estudos envolvendo esse tema e muitas explicações já registradas. Assim como todos nós, o autor muda durante a vida, sua realidade não é imutável, e suas obras acompanham esses ciclos através de seus heterônimos. Seria como se o autor se metamorfoseasse em vários livros e diferentes autores. A todo momento do livro em que novas sensações e reflexões afloram, os pensamentos tomam um novo rumo. Dizem que "O Livro do Desassossego" é um livro interminável, uma leitura que deve ser feita sem pressa e sem ordem, para uma melhor experiência e percepção da inquietação que o autor pretendeu passar ao leitor.

Em "Pensamento e Imaginação", por exemplo, de Alberto Caiero, o próprio Pessoa conta sobre sua "pequena humanidade imaginária", mas em nenhum momento menciona o termo "imaginação". Caiero é considerado o mestre dos heterônimos de Pessoa, pois é ele quem revela a "realidade", que de certa forma é sentida. Álvaro de Campos diz que o mestre Caiero foi o poeta mais sincero do mundo. A forma dele escrever é uma forma livre, não segue modelos.

Já "Poemas Inconjuntos" foi escrito em forma de diário durante a evolução da doença que o matou. Alberto Caiero morreu em 1915, deixando o diário para Ricardo Reis publicar postumamente. Questiona-se o motivo do pensamento ser um problema para Caiero e a resposta está em que cada pensamento gera uma realidade e as pessoas não aceitam a realidade do outro. Caiero abomina crenças e esperanças. Nesse momento, é interessante pensar na relação paradoxal entre a personagem Madame Bovary de Flaubert e as afirmações de Caiero sobre sentir em primeiro lugar sem racionalizar. Pois ao racionalizar você perde a capacidade de sentir o mundo, como o fez Bovary.

Ainda que analisando outras obras de Pessoa, percebemos que a prosa poética do "Livro do Desassossego" demonstra, para além da invenção dos nomes e biografias, que essa diversidade é um movimento próprio da escrita de Pessoa, que permeia toda a sua obra. 

"Porque eu não sou nada, eu posso imaginar-me a ser qualquer coisa".

Boa leitura!

6 de março de 2021

Defesas da Poesia (Sir Philip Sidney & Percy Bysshe Shelley)

Oi gente!

Hoje trago mais uma aula da matéria do mestrado que estava em minhas anotações. Estudamos a obra "Defesas da Poesia", publicada em 1585 e que contém dois ensaios dos autores Sir Philip Sidney e Percy Bysshe Shelley (sim, o esposo da nossa queridinha Mary Shelley, autora de Frankestein!). 

Com cerca de 240 anos de intervalo, duas clássicas "Defesas da Poesia": a de sir Philip Sidney (1554-1586) e a de Percy Shelley (1792-1822) empenharam-se em responder ao famoso anátema de Platão. A editora Iluminuras, em colaboração com a FAPESP, reúne os dois textos num único volume, com tradução de Enid Abreu Dobránszky, que também assina um extenso, erudito e importante ensaio introdutório.

Na aula focamos no primeiro ensaio, cujo contexto histórico e autor eu descrevo abaixo.


Foi no reinado de Elizabeth I que surgiram na Inglaterra vários escritores que deixaram seu nome na história da literatura, entre eles Shakespeare e Ben Johson. Entre eles, embora longe das ruas e teatros pois vivia na corte, estava Sir Philip Sidney, um jovem poeta aristocrata e sobrinho de Sir Robert Dudley, um dos pretendentes à mão da rainha. Sidney nasceu em Kent, em 1554 e em 1572 viajou para a França com a embaixada que negociaria o casamento entre Elizabeth I e o Duque D'Alençon. Percorreu a Europa por vários anos, passando pela Alemanha, Itália, Polônia e Áustria e conhecendo intelectuais e políticos da época.

Em suas andanças, Sidney se incomodou com acusações feitas por puritanos, de que a poesia incitava à imoralidade, e em resposta, escreveu "Defence of Poetry", que dois séculos mais tarde, Shelley usava como inspiração para escrever sua defesa também, agora para responder a acusações de irrelevância da literatura dentro de uma era de progressos científicos. Hoje, os ensaios publicados postumamente adquiriram grande importância nos estudos da língua inglesa e na crítica literária ocidental.

Voltando à Sidney e sua defesa, cujo texto insiste no caráter edificante da poesia, o autor usa de vários argumentos e considera que os historiadores estão presos ao que aconteceu, enquanto que os poetas imaginam o que vai acontecer. Para ele poesia é a "arte da imitação" da natureza. Na época, para os classicistas, "imitar" (inclusive um autor) era um grande valor, diferente de hoje que beira a ofensa. 

"A poesia é, pois, uma arte de imitação, uma vez que Aristóteles a define pela palavra "mímeses", isto é, uma representação, uma simulação, ou figuração - para falar metaforicamente, uma imagem eloquente -cuja finalidade é ensinar e dar prazer". (Página 98) 

No texto Sidney parece que não querer banalizar a literatura, sequer se colocando como poeta. Embora defenda a poesia, a defende para os sábios. Segundo ele, o poeta é um "filósofo popular", ou seja, chega às massas. Em Poética, de Aristóteles, não havia espaço para a liberdade de escrita. Ex.: Quero falar de tragédia preciso falar dos nobres. Se quero falar das classes baixas, preciso escrever comédia. Havia regras, que só se extinguiram com o romancismo. Sidney atuou antes de Shakespeare, que inclusive teve muitos problemas com os neoclassicistas por chegar a misturar comédia com tragédia. Segundo ele, o poeta inspira ao que é valor, princípios, verdade. Ex.: Hércules, Áquiles, Enéas.

"...nem serdes mortos pelos encantamentos da poesia, ... ainda assim vos envio esta maldição, em nome de todos os poetas: que enquanto viverdes apaixonados e nunca sereis correspondidos porque vos faltará o talento para compor um soneto e quando morrerdes, ... vossa memória será varrida da terra por falta de um epitáfio".

Sidney tornou-se um dos mais importantes poetas do Reino Unido, chegando a conhecer Giordano Bruno em 1584, que a ele dedicou dois livros. Como protestante, participou de várias batalhas contra tropas espanholas e holandesas, até que em 1586, na Batalha de Zutphen, foi atingido e faleceu vinte e seus dias depois. 

O texto de Sidney nos traz uma análise da literatura da época e do quanto esforço houve para rebater os que a consideravam mentirosa e fútil. Talvez hoje tenhamos nos distanciado muito do puritanismo e do espírito de cobrança política a que esses dois textos, cada qual com o vocabulário próprio de seu tempo, procuram responder. Mas é interessante acompanhar os movimentos e como a literatura mudou sua forma ao longo dos séculos.

Boa leitura!

28 de fevereiro de 2021

Ficção, por Catherine Gallagher (do Livro A Cultura do Romance, organizado por Franco Moretti)

Oi gente!

Prosseguindo com o conteúdo da matéria de mestrado que fiz em 2017 (Teoria da Ficção), hoje vou falar um pouco sobre a aula em que estudamos o ensaio de Catherine Gallagher para o livro "A cultura do romance", organizado por Franco Moretti e publicado pela Cosac Naisy (esgotadíssimo!!).


O livro apresenta ensaios sobre história e teoria literária e narra sobre esse gênero tão transgressor e único que é o romance. Franco Moretti é um grande conhecedor da literatura mundial e fez um belo trabalho. "A cultura do romance" basicamente narra sobre a ascensão, o apogeu e a crise do romance, com sua trajetória de conflitos e contradições. 

O ensaio que estudamos chama-se "Ficção" e foi escrito por Catherine Gallaguer, uma historicista americana, crítica literária e professora de inglês na Universidade da Califórnia. Diferente de Frye (que vimos na postagem passada) que buscou as diferenças a partir do romantismo, Gallagher analisa o movimento histórico da ficção. Começa seu ensaio afirmando que "nada no romance é tão óbvio e ao mesmo tempo tão invisível quanto o fato de ser ficção". Para ela, o primeiro passo onde a ficção não tem o compromisso com a veracidade é um exemplo de um personagem que não existe carnalmente mas que existe como espécie. 

Um ponto que achei bem interessante no ensaio é que ela enfatiza a pouca importância teórica dada ao estudo da ficção como conceito. Ela deixa então a sugestão para repensarmos o funcionamento da ficção, iniciando pelo modo de como a literatura tem se expandido para outras formas de narração, especialmente as combinações com narrações históricas ou etnográficas. Também aponta que uma das principais marcas delimitadoras da ficção enquanto modalidade discursiva é reconhecer a diferença entre a pessoa e a personagem. 

Na aula foi citado o exemplo de Fernando Pessoa. Seu espólio está sendo estudado por Jerônimo Pizarro, cujos escritos de Ricardo Reis, um dos heterônimos de Pessoa, alterado frequentemente pelo autor nos textos originais e publicados pelos críticos antigos em suas primeiras versões, agora vem à tona justamente na intenção de dar ao leitor a opção de analisar as nuances do escritor ao colocar no papel suas mudanças como personagem. Ou seja, sair da edição antiga, da qual o leitor está acostumado, para a nova realidade do autor. Na prática, especificamente no caso de Pessoa, é isso: a realidade é precária, mutável. Esses estudos representam a necessidade de se fazer uma separação, mas Pizarro problematiza essa separação, entre o útil da realidade objetiva (sequência de experiências vividas ao longo da experiência humana) e a subjetividade da ficção. 

Para Gallagher, “Não existiria modo algum de entrarmos em outra pessoa e não poderíamos experimentar aquele sutil alívio que sentimos ao pensarmos em nossa particularidade” se não pudéssemos contar com a certeza de que estamos em um mundo inventado, de que a “realidade criada pela ficção” é palpável por meio do personagem que atua como uma máscara para nos lembrar do quanto somos desconhecidos de nós mesmos. Ela fecha o ensaio sugerindo que esse estudo será atemporal, inclusive cita o jogo ontológico como tendência do século XXI. Jogo ontológico é não deixar que o leitor perceba onde está começando a veracidade factual. Quando as fronteiras entre a ficção e a realidade ficam "borradas", pergunta-se ao leitor: - Quem disse que era para ser só prazer, que não era para se correr riscos? 

Por fim, uma citação que achei interessante: "Se a etimologia da palavra tem algo a nos ensinar, devemos concluir que a ficção foi descoberta como modalidade discursiva com estatuto próprio somente quando os leitores desenvolveram a capacidade de distingui-la tanto da realidade como – sobretudo - da mentira."

É muita reflexão acadêmica né? Mas confesso que esse estudo abriu minha mente para meus trabalhos de escrita também.

Consegui alguns links em que você pode baixar o texto da Gallagher, caso interesse:

https://pt.scribd.com/document/317699461/Ficcao-Catherine-Gallagher

https://www.passeidireto.com/arquivo/78115578/literatura-ficcao-catherine-gallagher

https://vdocuments.site/4-catherine-gallagher-ficcao.html

Boa leitura!

10 de fevereiro de 2021

O Imaginativo e o Imaginário (do Livro A Imaginação Educada de Northrop Frye)

Oi gente!

No final de 2017 eu fiz uma matéria do mestrado de Literatura na UFPR (Teoria da Ficção), naquele esquema de aluno-visitante, para ver como era e decidir se encararia um mestrado aos quarenta e três anos, sem pretender lecionar. Por alguns motivos que prefiro não mencionar, mas também por achar que seria muito empenho para pouco conteúdo que realmente me interessava, não me inscrevi no curso (não diminuindo o mestrado, mas como não era minha intenção lecionar, achei muito técnico e pensei ser mais vantajoso partir para os cursos livres e focados nos meus temas preferidos).

Pois bem, como nenhum aprendizado é jogado no lixo, foram alguns meses de muita bagagem literária que angariei e até hoje mantive em minhas anotações pessoais. Então, dias atrás, pensei: "Porque não compartilhar né? Quem sabe animo alguém a fazer o mestrado!"

Então hoje começo a resgatar minhas anotações das aulas e registrar aqui no blog para quem se interessar. A primeira aula foi sobre um dos ensaios de Northrop Frye contidos no livro "A Imaginação Educada". 

Imagem: pxhehe.com


"Mas na imaginação vale tudo o que se possa ser imaginado, e o limite da imaginação é um mundo totalmente humano. Aqui resgatamos, em plena consciência, aquele perdido sentimento original de identificação com o que nos cerca, onde nada é externo à mente humana, onde tudo é idêntico à mente humana.” (Northrop Frye)

E quem foi Herman Northrop Frye? Frye viveu entre 1912 e 1991 e foi um dos mais influentes teóricos da literatura do século XX. "A Imaginação Educada" é uma transcrição de seis palestras concedidas pelo autor, na década de 60, a uma emissora de rádio canadense. O crítico apresenta sua visão sobre o significado e importância da literatura, apresentando inclusive um plano de estudos de literatura objetivando "educar a imaginação". Como assim? (também me perguntei isso na época!)

Imagem: wikipédia


Na verdade Frye reforça o conceito de que a linguagem e a literatura são a base de todas as relações sociais, por isso para ele, a criatividade e a imaginação que podem ser influenciadas pela literatura, se encontram na base da vida social. A força imaginativa ou criadora na mente é o que produziu tudo, o que chamamos de cultura ou civilização. Ou seja, o mundo em que vivemos foi criado em grande parte pela imaginação humana. Então educar a imaginação é também criar um povo liberto, que não se limita aos padrões ou se ilude com clichês. Ele afirma na página 121 que, "o trabalho que a imaginação vai executar no dia a dia é produzir, a partir da sociedade em que temos que viver, uma visão da sociedade em que queremos viver". Profundo né? 

Se pensarmos que a mitologia foi a primeira forma de associação e identificação e que deu origem ao que veio depois, inclusive a literatura, percebemos que com as transformações sociais, culturais e históricas, muitas narrativas mitológicas se tornaram desacreditadas. Porém, os heróis continuam representando arquétipos até hoje inseridos nas obras literárias. 

Com o romantismo, a ordem maior, antes privada pelo senso (principalmente das religiões), agora poderá ser regulada pelo indivíduo. Com isso, a criação passa a ser também do indivíduo, confrontando com a ideia de ordem de força maior.  Notamos uma mudança, por exemplo, desde a publicação de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, em 1840, que foi criticada por sair dos padrões literários, onde a autora mostra a natureza violenta (real) apresentada no contexto dela. Vivemos uma era dos discursos que se adequam à compreensão de que hoje nós construímos o nosso mundo e nosso modo de operar o mundo. O conceito de individualidade já estava consolidado em 1962, quando Fyre escreveu seu ensaio, mas foi reforçado a partir de então.

Imagem: pxhehe.com

O autor traz ao leitor vários conceitos que facilitam a educação imaginária, que não apenas conhece as narrativas que moldam o ser humano, mas também aplica esse olhar associativo para pertencer ao mundo, protegendo-se de ideologias e ilusões nas tentativas de grupos da sociedade que tentam manipular as pessoas.

Então, é possível vivermos em um mundo onde a visão é descompromissada com o real?  

Segundo Frye, Dom Quixote sugeria entrar no centro do senso, onde cada visão particular respeitava a visão do próximo, a fim de vivermos em sociedade de maneira ideal. A aposta de Frye é que, se existe um senso estabelecido, você tenha um imaginário para aplicar o contra senso quando o mesmo sair do controle. No final das contas, para ele sem a imaginação não existe humanidade, pois ela é uma forma das pessoas se identificarem e pertencerem ao mundo.

Mas será que vivemos em um mundo democrático onde tudo pode? Quais os termos do senso que nos regem hoje? São perguntas provocativas que nos levam a pensar, por exemplo, em uma questão muito debatida atualmente, sobre literatura como arte ou como produto. Nesse caso, será que a lei de mercado no contexto atual rege o senso?

"A Imaginação Educada" abre nossa mente como escritores e leitores de literatura. Vale a pena mergulhar no mundo de Frye. Ele nos passa o recado de que educar a imaginação é também nos assumir como transformadores da sociedade em que vivemos. 

Boa leitura!

14 de janeiro de 2021

O Palhaço e sua Filha | Halide Edib Adivar

Oi gente!

Enquanto tento colocar o emocional nos eixos, as leituras vão fluindo. Comecei o ano literário conhecendo esse clássico da literatura turca, da escritora Halide Edib Adivar.

Como é um livro pouco conhecido, deixei um vídeo gravado com as minhas impressões.

Clique para assistir