20 de junho de 2020

Divã de Escrita 2020 #5 (Rashômon e Outros Contos, de Ryünosuke Akutagawa) - Um conto com múltiplas versões | Portão Literário

Oi gente!

Como combinado, dando continuidade ao Divã de Escrita aqui pelo blog, enquanto não consigo retomar o canal. Se você chegou agora e não entendeu nada, pode se atualizar lendo a postagem anterior. Hoje vou deixar minhas impressões sobre mais um dos contos listados para o projeto, que me proporcionou conhecer a literatura de um grande contista japonês: Ryünosuke Akutagawa.


Embora o conto que dá título ao livro também seja ótimo e muito comentado, vou me concentrar nas impressões do conto citado no projeto, "Dentro de um bosque", e que basicamente dá ao leitor uma reconstituição do assassinato de um samurai em sete versões diferentes. Duvida que um escritor faça isso? O Akutagawa fez! Então antes de falar do conto, vamos falar um pouco sobre o autor.

Ryūnosuke Akutagawa (1892 - 1927)
Ryünosuke Akutagawa nasceu em Tóquio no ano de 1892. Não escreveu nenhum romance mas foi um grande contista japonês, deixando mais de 150 contos durante sua curta vida (cometeu suicídio aos 35 anos). Ficou famoso pelo estilo e riqueza de detalhes nas suas histórias, considerado por isso o "pai do conto japonês". Acredita-se que o sentimento de solidão por ser abandonado pela mãe, que enloqueceu logo após seu nascimento, tenha sido um dos combustíveis para sua literatura. Apesar de ter sido adotado pelo tio, ele cresceu em um ambiente empobrecido, cujo isolamento fazia parte da rotina e incorporando-se ao seu trabalho. Seu conto "Dentro de um bosque" foi publicado em 1922 e é um dos contos mais reconhecidos da literatura japonesa, inclusive serviu como uma das inspirações para o filme "Rashõmon", clássico de 1950 do diretor Akira Kurosawa (que eu preciso ver!). 

A construção do conto, que tem uma essência sombria, envolve o leitor de uma forma única. Sua narrativa compreende os relatos de sete personagens que tentam explicar como foi o assassinato de um homem, cujo cadáver foi encontrado em um bambuzal. A vitima viajava com sua esposa, quando foram abordados por um ladrão que lhe rouba a espada, o arco, as flechas e estupra sua mulher, sem que ele consiga reagir. 

O autor constrói um enredo similar a uma história policial e o curioso é que mais de um personagem assume a responsabilidade pelo ato, mas a cereja do bolo é que no final das contas, ele não entrega ao leitor qual dos depoimentos é o verdadeiro e quem realmente é o assassino. 

É extremamente intrigante a leitura deste conto. Os relatos mostram divergências, um último relato surpreende mas deixa dúvidas da mesma forma por ser "terceirizado", digamos assim. Ainda que exista essa estrutura fragmentada, o conto é coerente e compreensível. E para mim, o melhor, nos faz refletir como uma mesma situação pode ser encarada por diferentes visões e experiências de cada um. Deixamos nos levar por cada testemunho, cogitando se realmente o personagem acredita no que está expondo ou se mente por vontade própria. Para mim, um dos pontos marcantes do conto foi o depoimento do ladrão, que depois de confessar o crime, deixa ao policial uma reflexão acompanhada de um sorriso irônico, que sugere claramente uma crítica ao Estado.  

Estudos apontam que Akutagawa, ao escrever "Dentro de um bosque", inspirou-se em narrativas clássicas da literatura japonesa, que fazem parte de uma coletânea chamada "Konjaku Monogatarishû", composta de anedotas de cunho budista, compiladas no século XII. São histórias que registram novos valores de uma época, a sociedade de guerreiros simbolizada pelos samurais e um momento de tranformações políticas, culturais e sociais. Tanto que a personagem feminina do conto é o oposto do que era o tradicional na literatura da época, mulheres passivas, submissas e invisíveis. Basta ler seu depoimento para o leitor reparar que os papeis sociais do marido e esposa estão completamente invertidos para os padrões sociais da época.

"Dentro de um bosque" é um conto direto e minimalista (característica do autor), em que o leitor é apresentado apenas aos depoimentos, sem situar-se em um contexto ou local, antes ou depois dos acontecimentos. Sequer existem conexões gramaticais ligando os depoimentos, os fatos são desencadeados e o último depoimento coloca fim à narrativa. Simples assim. E simples assim, muito bem escrito! Assim como Tchekhov, citado no último Divã de Escrita, também não encontrei apelos moralistas nos contos de Akutagawa, o que me satisfaz como leitora, por sentir-me liberta a construir minha própria interpretação.  
Vale também citar que o Prêmio Akutagawa, um dos prêmios literários mais cobiçados do Japão, foi criado em 1935, em homenagem ao autor. 
Recomendo aos contistas de plantão que conheçam o trabalho de Ryünosuke Akutagawa, mais uma aula para nós!
Até!

1 comentários:

khadija disse...

Veja o filme Alê! Akira é muito bom! Esse filme é excelente, momentos bem engraçados nas versões do assassinato, mostrando a todos nós a complexidade de nossas percepções, bem filosófico ao meu ver.Mostra a construção das Verdades.