5 de junho de 2020

Divã de Escrita 2020 #4 - Aprendendo com os melhores | Portão Literário

Oi gente!

Para quem não acompanhou, estou em pausa dos trabalhos literários devido ao internamento da minha mãe, desde 01/05/2020, por problemas advindos da insuficiência cardíaca. Minha mãezinha tem 82 anos e está bem fraquinha, saiu da UTI e já está em casa, mas bem debilitada e estamos priorizando nosso tempo para os cuidados com ela. <3 p="">

Bem, claro que é uma pausa parcial, apesar das leituras diminuírem muito, sempre que sobra um tempinho eu alento meu coração nos livros. Escrever não tô conseguindo, por enquanto, mas estou sentindo que quando essa fase passar, a escrita fluíra aos montes. Vivências profundas e delicadas despertam inspirações que nem sabemos que existiam. 

Decidi publicar o Divã de Escrita aqui no blog, já que não estou conseguindo gravar para o canal, pois sei que tem várias pessoas acompanhando e assim como eu, adoram conversar sobre suas produções. Então, para quem está chegando agora, melhor assistir ao primeiro vídeo do ano, lá eu falo como está funcionando meu projeto de ler contos, para melhor escrever contos. Só clicar aqui.

Depois do vídeo introdutório, publiquei mais dois vídeos. Um em março, conversando sobre Diálogos e um livro bem didático que li sobre o tema. Além de falar aqui no blog sobre o conto "Teoria do Medalhão", de Machado de Assis, que é basicamente escrito através de um diálogo. Em abril o Divã foi um pouco diferente, através de uma leitura maravilhosa do livro "Atitude Empreendedora - Descubra com Alice seu País das Maravilhas", abordei alguns aspectos do Empreendedorismo Cultural e percepções vindas da minha bagagem corporativa de mais de vinte anos.

E a sequência seria ler os contos de Tchekhov e falar sobre eles no próximo vídeo, mas... Então, vamos continuar por aqui nossos Divãs até as coisas se acalmarem? A proposta do projeto do Divã era ler um dos contos mais famosos dele: "A Dama do Cachorrinho". Mas eu curti tanto que devorei dois livros inteiros do autor.


"A Dama do Cachorrinho" conta a história de duas pessoas que não eram felizes em seus casamentos, até que certo dia se conhecem em um balneário na Crimeia. No início sentem que a inspiração para viver retorna em seus corações mas com o tempo vem o sofrimento por estarem deixando suas famílias de lado. No século 19, o divórcio era absolutamente inimaginável, então o conflito interior dos personagens é gigantesco e o autor utiliza do conto para expressar muito do sentimento humano.

Lendo Tchekhov percebi como alguns autores desenvolvem tão bem a escrita de contos. Partindo do fato de que um conto precisa ser objetivo, ter poucos personagens, um clímax e detalhes que prendam o autor do início ao fim, nem todo escritor consegue sucesso nessa empreitada. Um dos traços que achei marcantes nos contos de Tchekhov é que ele não é aquele autor chato e moralista. Sempre deixa um espaço para que o leitor tire suas próprias conclusões, permitindo inclusive várias interpretações, sem impor suas crenças e ideologias. Só quem escreve sabe como é difícil ser imparcial!

A edição da L&PM Pocket me surpreendeu muito! Tchekhov tem um humor inteligente, que nos faz rir dos outros, mas percebendo que também cometemos os mesmos tropeços. Seus contos de humor tem a capacidade de ironizar atitudes humanas, trazendo ao mesmo tempo reflexões de nossas próprias atitudes.

Além do aprendizado com tantas leituras, também encontrei algumas dicas que o autor deixou para escritores, acho que vale transcrever algumas que achei tão valiosas:

Algumas dicas de Anton Tchekhov

  1. Não me permita Deus julgar ou falar aquilo que não sei e não entendo.
  2. Não retoques, não buriles demais, sê estouvado e audacioso. A brevidade é irmã do talento.
  3. Corto sem dó. Tudo o que leio, seja meu ou de outrem, parece que nunca é curto o suficiente.
  4. Na esfera da psique também são os detalhes que contam. O melhor de tudo é evitar descrever o estado de espírito das personagens; deve-se fazer com que ele seja apreendido a partir de suas ações...
  5. Sobrenomes supérfluos só atravancam
Mas para mim, a maior dica de todas e que é mencionada em muitos cursos de escrita, é a chamada "Arma de Tchekhov". Trata-se de uma técnica que afirma serem necessários todos os elementos colocados em uma história. O autor exemplificava: "Se você diz, no primeiro ato, que um rifle está pendurado na parede, no segundo ou terceiro ato ele deve, impreterivelmente, ser disparado. Se não será usado, não deveria esta lá". 

Percebo muito disso na literatura contemporânea. Elementos desnecessários no texto, que só servem para "encher linguiça" e avolumar obras. Li em algum site um bom exemplo atual do uso da "Arma de Tchekhov" em Harry Potter, escrito por J. K. Rowling. No segundo volume da série, "Harry Potter e a Câmara Secreta", alguém comenta no início da trama que o veneno do Basilisco era muito poderoso. No final, Harry lembra desse comentário e utiliza uma presa do Basilisco para matar uma Horcrux. Taí! Se você insere um elemento, precisa utilizá-lo, principalmente em contos!

Por fim, preciso registrar que me tornei fã do autor e concordo que é um dos maiores escritores de todos os tempos. Seus contos são aulas e suas dicas são atemporais e agregam muito em nossos trabalhos com a escrita. Já está na minha lista de leituras seu livro "A Ilha de Sacalina", um trabalho corajoso do autor, que já tuberculoso, viajou pela Sibéria até a Ilha, na época lugar que acolhia prisioneiros exilados. Seu trabalho de não ficção sobre o local é sempre indicado nas listas de literatura russa.

Boa leitura!

1 comentários:

Nikki disse...

Gostei muito mesmo dessa postagem, tanto que consegui lê-la ouvindo a sua voz! parabéns, minha querida, suas observações são sempre inspiradoras!