1 de março de 2016

Eu li #50 - O Livreiro de Cabul

Oi gente!

Entramos no mês de março, e logo comemoramos o Dia da Mulher. Então resolvi iniciar o mês com uma resenha que de certa forma, representa uma homenagem a um determinado grupo de mulheres guerreiras, as mulheres afegãs! Não é novidade que a cultura no Afeganistão assusta a nós ocidentais, por ser tão radical e diferente. Há muitas polêmicas e discussões sobre o assunto e não acredito que haverá consenso em um tema tão complexo, que aborde religião, costumes e tradições. O fato é que toda leitura que nos transmite o assunto, nos choca e nos faz refletir. Lembro de ter lido "O caçador de pipas", do autor Khaled Hosseini e o sentimento foi igual.



O livro em questão entitula-se "O Livreiro de Cabul", que foi lançado em 2006 e vendeu milhões de cópias em mais de vinte países, permanecendo por várias semanas na lista de livros mais vendidos. A autora é a jornalista Asne Seierstad, que após ter convivido por três meses com a família de um livreiro do Afeganistão, registrou as histórias que ouviu e presenciou. Asne atuou como correspondente internacional na guerra contra o regime do Talibã. Depois da queda do Talibã, ela conheceu o livreiro, a quem deu o nome fictício de Sultan Khan para preservar sua identidade. 

O livreiro conta a ela sua luta para manter a livraria aberta e proteger o que restou do seu acervo de livros, porque boa parte havia sido queimada. Depois de um convite para jantar na sua casa, Asne sugeriu que sua história deveria ser registrada em um livro e ele aprovou. Então ela mudou-se para lá, por um tempo, para acompanhar as rotinas da família. Alguns filhos falavam inglês e ela se comunicava bem.

Imagem do centro de Cabul.

A escrita como um todo parece uma mistura de prosa com texto jornalístico, que resulta em uma narrativa profunda, onde a autora nos revela o íntimo dessas pessoas, vivendo em um mundo tão diferente do nosso. Nos sensibiliza com seus sofrimentos, nos faz compartilhar de seus sonhos e também nos choca com algumas questões culturais. Descrevendo o cotidiano e a relação de Sultan com suas duas esposas e filhos, ela mostra os mais emocionantes relatos dos homens e mulheres da família. Apesar de ser liberal em aspectos políticos, ela mostra um Sultan autoritário, um chefe de família controlador e machista. 

Em particular sobre as mulheres, percebe-se nos relatos que, embora algumas poucas corajosas que se arriscam e enfrentem a tudo para seguir seus sonhos, a maioria acostuma-se a submissão. Acabam encontrando consolo em um bonito vestido, nas fofocas cotidianas e principalmente nos filhos. Elas não tem poder de escolha nem de decisão, em momento algum. E tristes ou conformadas, aceitam isso. A própria autora precisou submeter-se ao uso da burca, para circular em segurança por Cabul.

Mulheres afegãs circulando pela cidade - via Exame

Apesar de "O Livreiro de Cabul" ter como pano de fundo as consequências do Talibã no Afeganistão e mostrar todo um legado de destruição, a história principal foca na família do livreiro. Talvez seja por isso que algumas contradições são visíveis. Ao mesmo tempo que no cenário como um todo, Sultan é admirado por ter amor aos livros e a preservação da cultura e do conhecimento de seu povo, ele choca com suas atitudes perante a família. Um exemplo é não permitir que os filhos estudem, fazendo-os trabalhar todo o tempo em sua livraria.

Na minha opinião é um livro bem polêmico! Por um lado, a autora capricha nas narrativas com sua visão ocidental das coisas, que obviamente para nós são relatos impactantes. Porém, tudo aquilo é o reflexo de tradições milenares difíceis de serem quebradas, somadas a uma sociedade opressora e extremista recém libertada do regime Talibã. 

Talvez seja por isso que depois da publicação, a autora tenha sido processada pelo livreiro, por ter exposto demais a vida de sua família. E descobri que ele mesmo publicou um livro em resposta, chamado "Eu sou o Livreiro de Cabul", onde narra a sua versão dos fatos, mostrando-se insultado e justificando que seus atos advém de uma realidade a sua volta que ele não pode escapar. 



Ainda não li esse livro (já está na lista!), mas essa resenha veio ao encontro de algo que acredito muito. Que cada um tem a sua verdade e tudo possui duas vertentes. O ideal é sempre estarmos abertos a ouví-las e entendê-las. Só assim aprenderemos mais sobre a humanidade e principalmente, sobre nós mesmos. 

E não estou com isso defendendo nenhum lado, no fundo estou lamentando, porque pegando o exemplo dos livros escritos vamos pensar? Enquanto duas pessoas de mundos opostos brigam pela razão (ou por dinheiro), lá no Afeganistão, as viúvas, as crianças, os órfãos, as mulheres, continuam da mesma forma. Sem escolhas, sem vez, sem voz.

Por isso decidi com essa resenha deixar minha homenagem a essas mulheres, que sonham como nós, em viver seus sentimentos e mostrar suas qualidades, mas que acabam subjugadas pelas leis, pela pobreza e pela guerra. E ainda assim, enquanto ninguém as derruba, estão em pé. 

Beijos!

1 comentários:

Fátima Tauffer disse...

É, são umas heroínas pela vida que levam. Quero ver se não perco nem mais uma resenha tua. Adoro. Bjinhos Alê