23 de fevereiro de 2016

Eu li #48 - Madame Bovary

Oi gente!

Enfim, enfim, enfim. A tão pedida resenha de Madame Bovary! Como o encontro do Clube do Livro aconteceu no sábado e já comentamos sobre o livro das férias, agora posso registrar as minhas impressões por aqui. E olha só! Que livro polêmico! 

Vamos por partes, porque sinceramente, não consigo dizer que gostei, mas também não consigo dizer que não gostei. Difícil! Acho que a melhor afirmação sobre meu sentimento é que foi uma leitura diferente e única! E só por isso, valeu a pena. Meu exemplar é uma edição pocket da L&PM, o que imagino ser um dos motivos da leitura arrastada (não me dei muito bem com esse formato). O outro motivo é, sem dúvida, não ser romance meu gênero literário preferido. Mas ainda assim, eu tenho muito a contar sobre a leitura de janeiro que levou mais tempo para ser concluída (rs).


O autor da obra, Gustave Flaubert, nasceu na cidade de Rouen, na França, em 12 de dezembro de 1821 e faleceu em 8 de maio de 1880. Ele dedicou cinco anos para terminar seu romance de estreia, "Madame Bovary", escrevendo e reescrevendo as palavras até que soassem como queria, sempre muito preocupado com a forma de sua escrita. Seu processo criativo envolvia várias versões e uma incansável busca pela "palavra exata". Pudera, o resultado desse empenho é uma obra indicada como um dos melhores romances já escritos na história da literatura. Li depoimentos que afirmam serem problemas com as traduções que fazem a qualidade da obra se perder em muitos casos.

Gustave Flaubert é considerado um dos principais representantes do Realismo. Sua obra "Madame Bovary" contradiz com o romantismo, que era o estilo literário da época, e ao invés de uma história linda de heróis e heroínas com finais felizes, aponta uma visão realista da sociedade, através de uma dura crítica sobre os valores burgueses. O livro foi tão polêmico que Flaubert foi acusado pelo governo francês, por atentar contra a moral e os bons costumes, e criticar a burguesia e o clero. Quando os juízes lhe perguntaram no julgamento do caso, em 1856, quem teria sido o modelo da sua personagem, Flaubert respondeu: "Madame Bovary sou eu." Alguns críticos acreditam que realmente o autor ridicularizou no livro a sua própria condição social, já que era filho de um médico rico e viveu de rendas na propriedade do pai até a fase adulta. Seja como for, Gustave Flaubert foi absolvido em fevereiro de 1857 pela Corte do Tribunal do Sena, em Paris. E todo esse "bafafá" deu ao livro ainda mais visibilidade, óbvio desde que o mundo é mundo (rs). ^^

Illustrations de A. Fourié, gravées à l'eau-forte par E. Abot et D. Mordant, Paris, A. Quantin, 1885.

A história começa com a apresentação de Charles Bovary, ainda criança. Um garoto que cresce tímido, torna-se médico e se casa com uma mulher mais velha. Então ele conhece Emma, filha de um paciente, se apaixona e, como sua mulher falece pouco tempo depois, a toma como esposa. O casal passa a morar em uma cidade no interior da França.

Emma, a princípio empolgada com sua nova vida de casada, com o tempo passa a sentir-se infeliz. Na verdade ela foi criada em um convento e sonhava em viver um amor como aqueles dos romances que tanto lia. Ela viu no casamento com Charles essa oportunidade. Porém, ao mesmo tempo, era egoísta e ambiciosa, queria uma vida cheia de glamour e riquezas. Constantemente entrava em crises existenciais, até que Charles resolve se mudar. Mas ela não se contenta, deslumbra-se com o novo e logo se entedia. Até que seus desejos ficam mais ousados e Emma começa a se encantar por outros homens. Se apaixona, se decepciona, entra em depressão, se apaixona de novo, se decepciona, entra em depressão. Nesse ciclo infinito aí (rs).

Emma não consegue enxergar felicidade em nada real, sempre e somente em algo que ela projeta. Esse tédio da personagem vai muito além do seu insonso casamento. Porque ela é vaidosa, cheia de vontades, amante do luxo. De repente está exaltante, depois em terrível depressão. Dá a impressão que ela precisa do extremo para sentir-se viva. Nem mesmo o nascimento da sua filha a torna plena de amor. Muito pelo contrário, ela renega carinho e ignora a menina na maioria das situações. Suas traições começam a ser percebidas pelas pessoas, porque ela começa a perder a noção da realidade e procura emoções cada vez mais arrebatadoras. Não dá para descrever mais da história sem deixar spoleirs, só posso dizer que Emma Bovary certamente é uma personagem que desperta no leitor contradições de sentimentos. Ora estamos torcendo para que ela realize seus sonhos, ora nos irritamos com a vaidade excessiva e sua imaturidade. Mas é indiscutível na minha opinião o quanto Emma foi corajosa em lutar contra a submissão, tão imposta na mulher da época.

Algumas das capas da obra e pintura de Jean Honoré Fragonard.

Entretanto, confesso que não tive paciência para compreendê-la em algumas situações. Talvez não tenha conseguido ler o livro totalmente com olhos no contexto da época. Mas teve um lado de Emma que me chamou a atenção. Todo seu comportamento foi decorrente de ela ter sido, no convento, uma leitora assídua. E nós leitores sabemos o que é sentir tédio de certas coisas do "mundo real", não é mesmo? Assim era Emma, ela se apegava a sensação de que a vida não poderia ser "só isso". E idealizava um outro caminho, não aquele que a sociedade a preparava para trilhar. Aí me irritava o fato de que ela não sabia a hora de colocar os pés no chão.

Mas logo após eu me perguntava: - E como? Se naquela época a mulher era praticamente empurrada para casar? Era dominada, subjugada e obrigada aos rótulos da sociedade, que não eram pouco exigentes? Emma vivia em um constante conflito entre seus sonhos e a realidade conservadora e burguesa em que vivia. Mas agiu sim em algumas situações, na minha opinião, com maldade, frieza e outros atributos nada simpáticos (rs). Percebem como é difícil chegar a uma opinião uniforme? O enredo e as ações da personagem nos levam a muitas reflexões.

Illustrations de A. Fourié, gravées à l'eau-forte par E. Abot et D. Mordant, Paris, A. Quantin, 1885.

"Madame Bovary" é um livro de poucos diálogos, outro motivo que fez minha leitura ser mais arrastada. A narração é em terceira pessoa e as cenas são descritas e, importante ressaltar, extremamente detalhadas, do ponto de vista dos personagens e não do narrador. Isso ajuda a perceber as analogias que Flaubert fez entre os personagens e características da época. Por exemplo, Charles é o conformismo em pessoa. Rodolphe (um dos amantes) era o retrato da decadência da nobreza. Já Homais, o farmacêutico, representava a ciência se sobrepondo à religião, que já estava em crise. E Emma, obviamente, um retrato fiel de uma sociedade em conflito, tentando encontrar um lugar, sem importar-se muito com a moral.

Uma das reflexões que a obra me deixou diz respeito ao conceito da felicidade. A eterna pergunta que não se cala: - O que faz você feliz? E porque, até hoje, é comum encontrarmos pessoas que só enxergam a felicidade em algo que não tem, ou pior, que nunca alcançarão? Mais de um século e meio depois da obra, as noções de consumismo e futilidades em prol da concepção de felicidade de muitos, são facilmente percebidas na escrita crítica de Flaubert.

Mia Wasikowska interpretando Emma Bovary, na mais atual versão cinematográfica da obra, de 2015.
Para mim, "Madame Bovary" foi uma leitura cansativa e em alguns trechos, chegou a ser deprimente, mas sem dúvida é uma obra incomparável pelo contexto e estilo de escrita. Não é à toa que trouxe um novo estilo literário e se tornou um dos grandes clássicos na história da literatura.

Beijos!

1 comentários:

Lolô Artesanato disse...

Esse ainda não encarei, mas está na lista!
bjsss