Oi gente!
Vocês agora me perguntarão, porque, anos depois eu volto com a série Personalidades. Pois respondo que "não sei". Deu vontade. E estou naquela fase de transição para a menopausa que faço o dá vontade e ninguém me manda...rs. Por isso tô botando em dia alguns conteúdos que há tempos estou em dívida de deixar por aqui, até porque uso esse espaço para me organizar também e guardar tudo que acho importante relacionado à viagens, escritos e principalmente, literatura.
E um dos temas que preciso deixar aqui é uma das personalidades mais caricatas e debatidas da história da literatura inglesa: Charles Dickens. Autor que gosto demais e do qual já li quase toda a obra.
Minha narrativa sobre a vida de Charles Dickens
Entre os grandes nomes da literatura inglesa do século XIX, poucos tiveram uma trajetória tão intensa quanto a de Dickens. Embora tenha se tornado mundialmente conhecido como romancista e jornalista, sua primeira paixão era outra: o teatro. Desde muito jovem dizia sentir-se, antes de tudo, um ator. Para ele, a arte de representar não era simples entretenimento, mas uma espécie de refúgio, ou um espaço onde a imaginação podia transformar a realidade.
Essa ligação profunda com o palco atravessou toda a sua obra. Em seus romances, os personagens frequentemente surgem com traços exagerados, quase caricaturais, como figuras de uma peça teatral. A forma como falam, gesticulam e se expressam revela o olhar de alguém acostumado a observar o comportamento humano como um ator observa sua plateia.
Mas Dickens não permaneceu apenas como espectador do teatro. Ele também participou ativamente da cena cultural de sua época, escrevendo peças, dirigindo montagens e atuando. Em muitas ocasiões percorreu cidades com companhias teatrais e, mais tarde, com algo que se tornaria sua marca: as leituras públicas de seus próprios textos. Nessas apresentações, interpretava cada personagem com vozes e sotaques diferentes, transformando a leitura em verdadeiro espetáculo.
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| A aquarela "O Sonho de Dickens" pintada em 1875 por Robert William Buss |
O sucesso dessas apresentações foi tão grande que o levou até os Estados Unidos. As páginas de obras como Oliver Twist trazem inclusive indicações de entonação e emoção, quase como se fossem roteiros de palco. Para as leituras, Dickens costumava revisar seus próprios textos, selecionando os trechos mais dramáticos ou mais engraçados.
A dedicação era tamanha que, em casa, frequentemente ensaiava em voz alta diante do espelho. Sua filha Kate contava que, por vezes, pensava que o pai discutia com alguém em outro cômodo quando, na verdade, ele estava apenas experimentando vozes e expressões para seus personagens.
Na Inglaterra vitoriana, Dickens tornou-se uma figura de enorme destaque. Ele conviveu com nomes importantes da política, da literatura e do teatro, além de ter encontrado a própria rainha Queen Victoria. Entre seus admiradores estavam escritores como Fyodor Dostoevsky e Leo Tolstoy, que chegou a afirmar que os personagens de Dickens pareciam “amigos pessoais”.
Seu círculo de convivência incluía autores e intelectuais notáveis, entre eles Alfred Lord Tennyson, Robert Browning, Elizabeth Gaskell, Wilkie Collins e George Eliot. Durante um período, também recebeu em sua casa o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen.
Apesar da fama e do convívio com personalidades influentes, Dickens nunca perdeu o interesse pelos problemas sociais. Pelo contrário: quanto mais visibilidade conquistava, mais se dedicava a causas relacionadas aos mais vulneráveis. Defendia melhorias nas condições de vida de órfãos, crianças abandonadas e mulheres em situação de vulnerabilidade, chegando inclusive a apoiar a criação de instituições voltadas à recuperação de prostitutas.
Houve quem sugerisse que ele entrasse para a política. Dickens, porém, acreditava que sua maior força estava na literatura. Por meio da ficção, poderia alcançar um público maior e provocar reflexões profundas sobre a sociedade.
| Local de nascimento de Charles Dickens, no n.º 393, Commercial Road, Portsmouth |
Sua infância moldou a carreira de escritor. Grande parte da sensibilidade social presente em seus livros tem origem em sua própria infância. Ainda menino, Dickens viu sua família enfrentar graves dificuldades financeiras. Quando o pai foi preso por dívidas, a situação se agravou de maneira dramática.
O jovem Charles teve de abandonar a escola em Kent e enfrentar uma realidade dura em Londres. Enquanto a mãe e os irmãos foram viver na prisão de devedores ao lado do pai, ele permaneceu do lado de fora, trabalhando em uma fábrica de graxa em condições precárias.
Essa experiência de pobreza e abandono deixou marcas profundas. Décadas depois, essas lembranças surgiriam transformadas em literatura. Personagens como os protagonistas de David Copperfield e Oliver Twist carregam ecos claros dessa fase difícil da vida do autor.
A situação familiar mudou quando uma herança inesperada permitiu que seu pai quitasse as dívidas e recuperasse a liberdade. A mãe desejava que o filho continuasse trabalhando na fábrica, mas Dickens implorou ao pai que o deixasse voltar à escola. A decisão de retomar os estudos foi decisiva para seu futuro.
Já jovem adulto, Dickens começou a trabalhar como jornalista. Nos primeiros textos utilizava o pseudônimo Boz, nome sob o qual publicou seu primeiro grande sucesso: The Pickwick Papers, lançado inicialmente em fascículos mensais.
A estratégia de publicação em partes era comum na época e ajudou a construir um público fiel. Depois desse sucesso inicial vieram muitos outros romances, também publicados em série, entre eles Nicholas Nickleby, Bleak House, A Tale of Two Cities e Great Expectations. Outra obra marcante foi A Christmas Carol, escrita com o objetivo de sensibilizar a sociedade para a pobreza e estimular a caridade durante o período natalino.
O sucesso literário trouxe reconhecimento e prosperidade financeira. Mas apesar da fama e da estabilidade financeira, a vida pessoal de Dickens foi marcada por tensões. Após mais de vinte anos de casamento e dez filhos, separou-se da esposa, Catherine Dickens, decisão que gerou críticas e polêmica na sociedade da época. Nesse período também manteve um relacionamento secreto com a jovem atriz Ellen Ternan, muito mais nova que ele. A relação permaneceu envolta em mistério por muitos anos e ainda hoje levanta especulações entre biógrafos.
Mesmo com problemas de saúde cada vez mais evidentes, incluindo dores constantes, pressão alta e dificuldades cardíacas, Dickens continuou realizando suas famosas leituras públicas. Para ele, subir ao palco era uma forma de conexão profunda com o público.
Durante os últimos anos de vida percorreu diversas regiões do Reino Unido e também a América. Muitos contemporâneos acreditam que o ritmo exaustivo dessas apresentações contribuiu para o agravamento de sua saúde. Em março de 1870 realizou sua última apresentação diante de uma plateia emocionada. Poucos meses depois, Dickens morreria aos 58 anos.
A obra de Dickens continua sendo uma das mais influentes da literatura ocidental. Seus romances combinam humor, crítica social e emoção, retratando com força a realidade da Inglaterra do século XIX. Mais do que histórias envolventes, ele deixou um retrato vívido de seu tempo, povoado por crianças abandonadas, trabalhadores explorados, figuras excêntricas e personagens profundamente humanos.
Talvez o próprio Dickens fosse difícil de definir: escritor e ator, observador da sociedade e também protagonista de conflitos pessoais intensos. Como ele mesmo sugeriu em um de seus textos, cada ser humano é um mistério complexo e talvez seja exatamente isso que torna suas histórias tão duradouras.
Confira algumas
adaptações importantes de obras de Charles Dickens para o cinema:
• David
Copperfield (Reino Unido/EUA, 1935), de George Cukor.
• Grandes
Esperanças (Reino Unido, 1946), de David Lean.
• Oliver
Twist (Reino Unido, 1948), de David Lean.
• Conto de
Natal (Reino Unido, 1951), de Brian Desmond Hurst.
• Os
Fantasmas Contra-Atacam (Estados Unidos, 1988), de Richard Donner. (baseado
em Um Conto de Natal)
• Tempos
Difíceis (Reino Unido, 1988), de João Botelho.
• A Pequena
Dorrit (Reino Unido, 1988), de Christine Edzard.
• Grandes
Esperanças (Estdos Unidos, 1998), de Alfonso Cuarón.
• Os Fantasmas de Scrooge (Estados Unidos, 2009), de Robert Zemeckis. (baseado em Um Conto de Natal).


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