12 de junho de 2016

Torta de Maçã do Amor

Oi gente!

Hoje é Dia dos Namorados e eu quero falar de amor!!! Porque eu sempre acreditei no amor, não apenas como resultados de expectativas criadas, baseadas em depoimentos felizes, novelas dramáticas ou filmes românticos. É legal romantizar, claro! Sou romântica e não nego. Mas para mim o amor também é uma busca, um estado de espírito a se alcançar, algo muito além do que nossa consciência ainda é capaz de sentir.

Não sou capaz de definir o amor com palavras, mas acredito que seja também a arte de compreender os motivos que levam algumas pessoas a cruzarem nosso caminho. Acredito que o amor também envolva o respeito ao próximo e ao planeta em que vivemos. O amor é difícil, por isso é um aprendizado. Porém, é sublime. Por isso é um estado a se alcançar. Como já escreveu Arnaldo Jabor: "O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. Ama-se justamente pelo que o amor tem de INDEFINÍVEL!".

E hoje é um daqueles dias especiais em que celebramos o amor na sua melhor forma: respeito, companheirismo, carinho, paixão, diversão. Tudo de bom! Por isso, deixo hoje um dos meus contos mais românticos. "Torta de Maça do Amor". Saboreiem!


Torta de Maçã do Amor


Doroty lembrou que hoje era seu dia de cozinhar. E segundo seu trato conjugal, o cardápio teria que conter algo exclusivo e novo. Na última semana estreou sua forma de bolo octogonal e Miguel não aprovou muito bem a cobertura de maracujá com pé-de-moleque, que em sua ânsia de inovar, ela demorou horas para planejar.
Hoje faria algo mais tradicional, para não correr o risco de se perder nos ingredientes e deixar de lado a diplomacia, terminando por enterrar no refratário de plástico algo que sobraria inteiro após o jantar. Pensou em usar frutas. Maçã era a preferida de Miguel, pois segundo ele, além de ser suculenta, servia para higienizar a boca. Impressionante como ele sempre tinha uma explicação científica, médica ou analítica, na maioria das vezes sem graça, para exorcizar sua visão romântica das coisas.
Como era mês de aniversário de casamento, um prato com maçãs lembraria o tempo em que eram jovens, aventureiros e viciados nas maçãs do amor de seus passeios no parque. Lembrou-se daquela tarde, em que no auge da diversão, entraram na sala do terror, com a promessa que lá dentro conseguiriam dar um teco na tenra maçã com cobertura docinha e vermelhinha, símbolo dos apaixonados. Mas os sustos foram tantos que na saída poderiam ser confundidos como parte do elenco de atores. Miguel tinha calda escorrendo no canto direito da sua boca, parecia um seguidor do Drácula. E Doroty derrubou a maçã no babado branco de seu vestido e parecia que tinha caído e se arrebentado toda.
Por essas e outras ocasiões que seu namoro com Miguel havia sido o que chamam de comédia romântica. Eram tantos detalhes vividos, alegres e tristes, cômicos e trágicos, que ela um dia chegou a pensar em escrever um diário amoroso. Pena que seu dom não era escrever, mas cozinhar. E como uma alma gêmea por teoria sempre deve complementar, o dom de Miguel era a degustação.
Antes que sentisse saudades do café na cama que ele lhe ofereceu em sua lua de mel, deu vazão aos pensamentos e levantou-se, sem antes lembrar que foi exatamente debaixo de um pé de macieira que se conheceram quando crianças.
A terça-feira não era dia oficial de compras, mas ela precisava fazer uma visitinha extra a fim de comprar o que faltava para produzir sua torta de maçã. Seria melhor chegar ao mercado assim que as portas abrissem, pois ainda tinha outros compromissos para cumprir durante o dia.
O que ela não daria para ser liberada da visita ao mercado! Doroty amava cozinhar, mas detestava comprar a matéria-prima. Não era de nenhum modo feliz passeando com o carrinho de compras ao longo daqueles corredores apertados e movimentados. Principalmente porque sua tendência à distração lhe atrasava demais nessa empreitada. Era comum estar na penúltima prateleira e lembrar, por exemplo, que se esquecera de pegar um pacote de grampos de roupa que ficava na primeira sessão de utensílios. E após analisar a necessidade do item e concluir que não poderia deixar para a próxima compra, pois as meias de Miguel caíam as pencas do varal por falta de grampos, novamente percorria toda a longa extensão do mercado para procurá-los.
Suas sessões de compras eram assim, um apanhado de atrasos e lembretes de última hora, quase um mural de recados, cheio de papéis coloridos e assimétricos se encavalando, sem ordem cronológica nem alfabética. Nada parecido com suas horas na cozinha, quando mesmo ao inventar uma nova receita ela conseguia, do início ao fim, uma sincronia perfeita de ingredientes e tempo de preparação.
Hoje não seria diferente, pois já pensava no que iria comprar. Farinha de rosca, manteiga, será que tinha canela na dispensa? Era melhor garantir também o açúcar mascavo. Ao voltar com suas compras, prendeu o cabelo e vestiu o avental vermelho que Miguel lhe deu de presente dias atrás. “Qualquer esposa ficaria ofendida, menos eu” – pensou Doroty. Cozinhar para Miguel era como amá-lo, acariciá-lo, senti-lo mais perto. O tempero era seu sentimento. E vê-lo provando seus pratos era como sentir-se responsável pela felicidade dele. E do relacionamento, caso ele não aprovasse. Esse pensamento lhe trouxe uma boa gargalhada.
De posse de um refratário de vidro, misturou com cuidado o trigo, a manteiga, o sal e o leite, que tinha acabado de amornar nas micro-ondas. Antes de iniciar o preparo do recheio, tomou um gole de chá. Estava ansiosa. Depois de descascar quatro maças tenras e grandes, tirar as sementes e cortá-las em finas fatias, acrescentou açúcar, canela em pó e cascas raladas de limão. Tinha que inovar e incrementar com seu toque pessoal. Então optou pelas uvas passas brancas, sem sementes. Estava quase pronto, só faltava pincelar a manteiga derretida e polvilhar com farinha de rosca. Colocou para assar enquanto esperava Miguel chegar.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Miguel voltava para casa. E lembrou-se da fracassada cobertura de maracujá do último bolo de Doroty. Pensou como era feliz em ter uma esposa preocupada com seu maior pecado, a gula. E decidiu pela primeira vez, descumprir o trato conjugal e deixar de lado sua aversão ao romantismo, para fazer a ela uma surpresa. Em sua mente vieram todas as aventuras da juventude, e o quanto Doroty, romântica incorrigível, sorria ao ganhar uma maçã do amor. Sem hesitar se dirigiu ao parque da cidade e comprou, não uma, mas um buquê de maçãs do amor para ela.
Algumas horas depois, Doroty abriu a porta trazendo na bandeja uma corada e cheirosa torta de maçãs. E quando viu nas mãos de Miguel, o lindo buquê vermelho, docinho e caramelizado, sorriu como nunca.
O encontro de maçãs foi inevitável. E o beijo também.

0 comentários: