21 de maio de 2016

Um chá para a feiticeira

Oi gente!

Depois do vídeo sobre como comecei a publicar meus escritos em antologias, várias pessoas mostraram-se curiosas para ler mais contos, além dos que deixei na descrição do vídeo. Então hoje vou deixar aqui um dos meus preferidos. "Um chá para a feiticeira" foi escrito em 2012 e publicado nas antologias da CBJE no mesmo ano. Depois, ele acabou fazendo parte do livro "O diário de Lirityl" e foi um dos contos mais apreciados. Conheça o encontro de Razel com Aurora e comprove o poder de um precioso chá preparado com muitas boas intenções. =)



UM CHÁ PARA A FEITICEIRA
(Ale Dossena)

Era dia de feira no povoado do norte. Um vilarejo pobre e escondido entre duas montanhas, bem longe de todos os reinos existentes. Os habitantes eram simples, a comida era escassa e as pestes chegavam todos os dias. Mas eram felizes com o que possuíam. Para eles, as estações do ano e os ciclos lunares tinham um profundo significado em suas cerimônias e por isso sempre festejavam as mudanças da Lua, mesmo sem recursos para banquetes. A Lua era para eles um símbolo divino, por isso todas as celebrações eram feitas sob a sua luz e cada início de um ciclo ou estação do ano era marcado por um ritual, realizado unicamente com chás de ervas e uma dança para simbolizá-lo.
Nas tardes que antecediam a festa, uma feira era construída na rua central, que era uma estrada larga castigada pelas tempestades que assolavam o lugar. Várias barracas eram montadas, e, em cima das mesas de madeira, os produtos eram oferecidos aos visitantes. Um ou outro mercador às vezes passava pela região, perdido no caminho e necessitado de mantimentos. As curandeiras aproveitavam para vender suas poções mágicas e ervas curativas em centenas de vidros coloridos, que, com as mais variadas misturas, eram dispostos nas tábuas envelhecidas dos carvalhos derrubados pelas chuvas.
Certa vez, numa dessas feiras, avistou-se um forasteiro ao longe, chegando pelas montanhas e quase rastejando, maltrapilho. Ao aproximar-se e parar em um tronco de árvore para descansar, tirou a capa. Pelo semblante notaram ser uma feiticeira.
As feiticeiras eram conhecidas e temidas por viverem como ermitãs nas montanhas, praticando atos malignos e enfeitiçando as plantações da vila. As misérias daquele povo eram incumbidas a elas, que, rejeitadas pelas pessoas, carregavam a culpa de exercerem vinganças sobre o povoado. Essa velha conhecida, a feiticeira Razel, que morava na montanha perto do único lago da região, ficou sabendo das comemorações e resolveu comprar produtos para suas magias.
Algum tempo depois, refeita da viagem, levantou-se bruscamente e a passos largos, dirigiu-se para a barraca das ervas. Foi Aurora, a menina-moça filha do cuidador de cavalos, quem a atendeu.
- O que deseja, minha senhora?
- Procuro ervas, menina. Não é isso que vendem aqui?
- Como quiser, senhora. Temos ervas para várias ocasiões, e estou aqui para ajudá-la com o que precisar.
Razel, irritada com a simpatia de Aurora, decidiu assustá-la.
- Menina educada demais, pelo seu atrevimento vou levar todas.
E, levantando seus braços no ar, girou as mãos e fez voar para dentro de seu bolsão mágico todos os vidros da prateleira.
Aurora, astuta e inteligente como o pai, mas gentil e cheia de compaixão como a mãe, não se assustou com a cena, nem tampouco reagiu mal. Dirigiu-se para a feiticeira com os seus olhinhos azuis e ofereceu:
- A senhora aceita uma xícara de chá?
Razel, embora atônita com tal atrevimento, achou que deveria mostrar à menina, que além de ser feiticeira e ter tudo o que quisesse, era esperta o suficiente para levá-la na conversa.
- Sim, menina. E, já que foi gentil, quero que vá até a barraca dos doces e adoce meu chá com o doce mais rico da região.
Nas barracas eram vendidas algumas iguarias que os mercadores deixavam em troca de alimento. Aurora foi até uma delas e pegou um caramelo, o maior, para oferecer à feiticeira junto com seu chá. Ao entregar o chá na caneca velha e amassada para Razel, a menina esboçou um sorriso limpo e puro. E a feiticeira tomou em dois goles o conteúdo. Minutos depois, devolveu o mesmo sorriso à menina e tirou do bolsão não só os vidros de ervas, mas toda a riqueza que havia confiscado das terras que ela odiava.
E, depois desse dia, Razel nunca mais foi embora da vila. Disse a todos que o importante era amar e ser amada e que enquanto permanecesse no povoado, seria como as estrelas e iluminaria os cantos mais escuros. Passou a dançar em todos os banquetes e alegrar os doentes. Aceitava todos como eram e não prejudicava ninguém. Respeitava a natureza e se emocionava com as noites estreladas e com o nascer do sol. O povoado enriqueceu e as pessoas se tornaram ainda mais felizes.
Acredita-se que naquela tarde, Aurora colocou no chá de Razel, uma gorda porção de alecrim, a erva da alegria. E com sua gentileza e pureza, foi mais esperta que a velha feiticeira.
_________________________________________________

Espero que tenham gostado! Beijos!

0 comentários: