5 de janeiro de 2016

O taxista e a sonhadora

Oi gente!

Início do ano e todo mundo voltando para a rotina né? Uma delas é o trabalho, que geralmente é uma correria só. Quem nunca se atrapalhou, se confundiu ou apenas desligou-se do mundo, sem querer, em meio a tantos compromissos? Então hoje trouxe a história de Cassiana, que de tão sonhadora divertiu um taxista. Será que alguém se identifica? =)


"Aquela manhã ensolarada era raridade nos invernos frios e chuvosos da cidade. Cassiana levantou-se animada e sentiu que era o dia certo para colocar em ordem suas pendências externas do trabalho, sem ventos gelados e nuvens escuras para acompanhá-la.
Saiu de casa bem cedo e, disposta a fazer render o tempo, correu para a empresa para definir seu cronograma diário. Eram oito da manhã e poderia calmamente rever sua agenda e assinar as correspondências até o horário de almoço, para depois se aventurar pela cidade em busca dos documentos necessários para o processo em que estava trabalhando.
As horas passaram rápido. Entre toques de telefone, solicitações de clientes e papéis para separar, percebeu que era a vez de atender ao seu estômago. Aceitando o convite de seus colegas, juntos dirigiram-se para a lanchonete mais próxima, aquela em que já conhecia a atendente, que por sua vez já conhecia suas preferências. Adepta da alimentação saudável, quando precisava se apressar para ganhar tempo, Cassiana não tinha muitas exigências em suas escolhas. Enquanto os demais apreciavam o cardápio, engoliu um sanduíche de peito de peru com molho de ervas finas e, desculpando-se, voltou para separar as requisições que usaria durante a tarde. Depois, com a pasta em mãos e um rápido retoque de batom nos lábios, travou a porta e tomou o elevador.
O arquivo central não ficava longe, mas era necessário chamar um táxi.
A ida foi rápida e chegando ao destino, percebeu que teria uma longa fila para enfrentar.
- Não será de todo ruim. - pensou ela. Preciso mesmo organizar umas ideias em minha cabeça.
Cassiana estava passando por algumas mudanças em sua vida, e seu estilo sonhador não lhe permitia movimentar seu pensamento para planos pessoais enquanto lidava com questões materiais. Porque quando pensava no futuro, nos seus desejos, medos e anseios, ela se deslocava para seu mundo particular, onde não havia espaço para nenhum tópico analítico ou esquema corporativo. Embora romântica incorrigível, sua vida era movida a desafios, mas nem seus longos anos de estudo ou sua prodigiosa carreira profissional a fizeram esquecer sua essência verdadeira. Sonhar a vida!
Nessa fase de replanejamento e mudanças pessoais, procurava aos poucos reorganizar suas metas e prioridades. Mas quando fazia isso, sempre corria o risco de se alienar.
Foi assim que, sentada no banco de madeira naquele espaçoso salão do arquivo central, enquanto aguardava ser chamada pela senha de atendimento, iniciou sua viagem individual rumo ao seu arquivo pessoal imaginário. E nele implantou seus anseios. Aquele passeio no parque, o filme que assistiria, a pintura decorativa do corredor, as fotografias do jogo de boliche. Aquela macarronada integral com seu molho light que faria para receber suas amigas em casa, a maratona de recortes e colagens que esperavam por suas mãos criativas. A pintura do seu ateliê, cujas latas de tinta jaziam há meses esperando o pincel. A doação ao bazar, a visita à livraria, a compra daquele vestido turquesa que tomava parte das suas lembranças nos últimos dias.
Mesmo com o pensamento ausente do salão gelado e repleto de pessoas com pastas e papéis, não foi difícil perceber a chegada da sua senha. Era mostrada em um painel imenso com letras garrafais vermelhas e enormes, que se moviam rapidamente para a direita, como se estivessem sendo perseguidas por algo muito cruel. Além do apelo visual, o barulho que saia do aparelho acordaria até um elefante. Por isso quando tocou e o painel apontou o número 159, Cassiana levantou-se e dirigiu-se para o balcão indicado, a fim de resolver o assunto do seu interesse.
O atendente olhou firme para ela, e antes de qualquer palavra, tomou de suas mãos o papel da senha. Espetou ele no arame pendurado na borda da mesa de fórmica e esperou a solicitação. Cassiana precisava de um relatório, e o atendente, com a mesma expressão do início, rapidamente o enviou para impressão e entregou a ela, dando a entender que seu desejo era livrar-se logo da multidão que aguardava sentada no banco a sua frente.
- Que bom, - pensou Cassiana. Foi mais rápido que imaginei!
Saindo porta afora, percorreu a calçada até a rua e dobrou a esquina, tentando encontrar algum táxi parado no ponto para voltar ao trabalho.
Não havia nenhum. Então enquanto aguardava ela deixou-se novamente entrar no seu mundo particular.
Quando o primeiro táxi encostou no meio fio, resgatou seu celular da bolsa e discou o número de sua secretária. Gostaria de saber se o cliente já havia lhe procurado para solicitar-lhe o retorno do relatório.
Ainda falando ao celular, mecanicamente abriu a porta, e após sentar no banco traseiro, encerrou a ligação. Guardou seu celular na bolsa e com um sorriso de satisfação por ter cumprido sua tarefa, deixou-se relaxar um instante.
Passadas algumas dezenas de segundos, percebeu o taxista olhando para ela, com uma expressão curiosa e expansiva, como se tentasse desvendar uma linguagem interplanetária.
- Para onde vamos?
Então ela se deu conta que por um breve período, alienou-se tanto que esqueceu de avisar ao motorista qual era o seu destino.
- Me desculpe moço! Eu estava distraída. Siga para a Rua das Flores, por favor.
Ao que ele, de maneira cordial e divertida respondeu:
- Pois é moça, aqui no meu carro já tem GPS, mas bola de cristal ainda não.
Cassiana obrigou-se a rir do comentário, olhando para as árvores da praça movendo-se lá fora. E no seu mundo particular, também riu de si mesma."

Beijos!

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