29 de janeiro de 2016

Apadrinhados pela chuva

Oi gente!

Hoje o sol apareceu, mas essa semana foi bem chuvosa aqui em Curitiba (novidade né? rs). Mas sabe aquela chuva fininha, que acorda nosso romantismo e nos deixa (no meu caso) mais sonhadores e apaixonados? Pois é. Então lembrei desse conto, publicado nas antologias da CBJE em 2013. Conta sobre os encontros e desencontros da vida e como o universo conspira em favor dos sentimentos verdadeiros. Conheça então a história de Maurício e Manoela, que foram apadrinhados pela chuva! =)

Illustration Jim Schaeffing of 1950s couple via  wefollowpics.com

APADRINHADOS PELA CHUVA

Ela era doce, previsível e atrapalhada. Ele, falador e divertido. Caminhavam separadamente em um dos parques da cidade, quando nuvens escuras encobriram o céu. Ela tentava consertar sua sombrinha, enquanto os pingos vorazes já a atingiam por completo.
- Precisa de ajuda? - ele se aproximou.
- Eu não moço, mas minha sombrinha parece que sim.
Nesse instante, uma rajada de vento entortou mais alguns aros da sombrinha. Ela desistiu:
- O jeito é correr até a lanchonete.
- Se eu fosse você não faria isso, já olhou para lá?
A única lanchonete do parque parecia uma lata de sardinha. Não bastasse uma multidão tentando se esconder, os copos voavam das mesas e caíam no rastro lamacento da calçada.
- E agora?
- Quem está na chuva, é para se molhar. Meu nome é Maurício e o seu?
- Manoela. Muito prazer. – E um sorriso satisfeito apareceu na sua face.
Até a chuva terminar, andaram lado a lado. Manoela, entretida com a conversa prazerosa, nem se incomodou com o cabelo escorrido e os sapatos encharcados. Descobriram afinidades em comum, até mesmo diferenças, que os completavam. 
Maurício falava muito e Manoela, tímida como era, sentia-se à vontade sem muito espaço para elaborar respostas e procurar assuntos. O tempo correu e não havia mais sinal de pingo algum quando Manoela parou na frente dele, e piscando seus olhos azuis, convidou:
- Hoje a noite tem festa lá em casa, quer ir? Fica ao lado da padaria.
- Devo levar uma nova sombrinha?
- Não. – disse ela. Prefiro andar na chuva novamente com você.
Ele entendeu. Despediram-se rapidamente e, após Maurício estalar um beijo na bochecha clara de Manoela, se afastaram.
Maurício não conseguia esconder tanta satisfação. Há algum tempo estava sozinho e procurava justamente o que encontrou em Manoela. Alguém que demonstrasse interesse no seu exagerado dom de conversar. E ao mesmo tempo, se mostrasse delicada e romântica. Já sonhava com a festa e pensava se o novo encontro lhe proporcionaria bons, e o mais importante, o primeiro de muitos momentos com ela.
Mas foi então que o inusitado aconteceu. Ao chegar a sua casa, um recado na secretária eletrônica o convocava urgente para uma viagem de trabalho. Ele não acreditou! Sem tempo suficiente para, ao menos passar na festa e desculpar-se com Manoela, descobriu que não trocaram números de telefones. Mas ele sabia que era a certeza de um novo encontro a responsável por essa negligência. A afinidade foi tão recíproca, que o número de um contato telefônico já parecia insignificante para eles.
Como de costume quando estava chateado, lamentou-se resmungando inconformado pela casa, enquanto arrumava seus pertences. Saiu inconsolável e dirigiu-se ao aeroporto, cuja passagem já estava emitida no balcão. A viagem estendeu-se e quando ele retornou, dirigiu-se a casa dela para conversar. Apertou a campainha, esperançoso, e ao mesmo tempo, ansioso.
- Quem é? - perguntou a voz do outro lado do interfone.
- Me chamo Maurício. A Manoela está?
- Não mora ninguém com esse nome aqui.
Um ar pesado saía de seus pulmões.
- Como assim? - Maurício precisava conferir a informação.
- Essa casa foi comprada há duas semanas meu jovem. Acho que quem você procura não mora mais aqui.
- E por acaso você teria o endereço do antigo proprietário?
- Me desculpe, não tenho essa informação. Após o casamento eles partiriam para outra cidade. Passe bem.
Maurício paralisou e só deu-se conta que a conversa havia terminado quando ouviu o barulho do interfone sinalizando que estava desligado. Virou as costas e tomou a rua, cabisbaixo e pensativo. Manoela se casou? Toda aquela magia no parque teria sido um sonho curto e imprevisível?
Levou dias para absorver o ocorrido, semanas para lamentar a história que não existiu, e alguns meses para sorrir novamente. Mas o sorriso de Manoela ele não conseguiu apagar da memória.
Alguns anos depois, Maurício foi transferido de cidade, também por exigências do seu trabalho. Passou a morar em uma região ainda mais chuvosa, onde os verões eram úmidos e os invernos congelantes.
Naquele dia, não menos do que de costume, molhou-se todo ao sair a pé para uma reunião. A empresa ficava perto do endereço combinado e ele gostava de andar. Uniu o útil ao agradável. Mas o resultado foi catastrófico. No meio do caminho uma das frequentes pancadas de chuva o alcançou, obrigando-o a cancelar a reunião.
Depois do episódio vergonhoso, lá estava ele, no dia seguinte, comprando um guarda-chuva para deixar no trabalho, já que tinha um em casa, outro no carro e mesmo assim a chuva o encharcava vez em quando. Escolheu um guarda-chuva sóbrio e seguiu ao caixa para pagar, quando a viu. Num sobressalto, piscou os olhos rapidamente e olhou mais uma vez. Não poderia ser verdade. Sim, era ela! Um pouco mais magra e com cabelos mais longos, mas era Manoela. Automaticamente a reação dela foi a mesma, e aproximando-se, exclamou:
- Que coincidência Mauricio! Como está?
Maurício ficou mudo por uns instantes, ainda estava em choque. Não conseguia coordenar a emoção com a surpresa, e consequentemente, a satisfação do reencontro.
- Estou ótimo, apenas envergonhado desde o dia em que não compareci a sua festa sem conseguir me desculpar.
- Eu fiquei lhe esperando, me culpei por não avisá-lo que, após o casamento da minha irmã, eu mudaria de cidade. Fiquei triste por não vê-lo mais.
- Naquele mesmo dia, - explicou ele, recebi uma ligação do trabalho e precisei viajar imediatamente. Quando retornei você já tinha partido.
Maurício e Manoela conversaram por horas. Coincidentemente, ele foi transferido para a cidade em que ela morava atualmente. Recebeu feliz a notícia de que não era ela quem tinha se casado, muito pelo contrário, continuava sozinha procurando o grande amor. Alguém como Maurício. Por fim, depois de atualizarem os contatos, e marcarem novo encontro, foi Manoela, tão quieta que fechou a conversa:
- Parece que existe uma força maior que une as pessoas que se gostam, em nosso caso, uma força da natureza, a chuva!
Descobriram então que, em meio aos desencontros da vida, também há muitos encontros, e reencontros. Basta que os sentimentos sejam intensos.
(Ale Dossena)


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E não é minha gente? Eu acredito na força dos bons sentimentos! Acho que a vida fica mais leve e bonita quando entendemos que tudo tem seu tempo e que certas mudanças aparentemente ruins podem nos trazer muitas coisas boas!! =)


Beijos!

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