26 de dezembro de 2015

Sabedoria angelical

Oi gente!

Em dias caóticos de uma cidade grande, a inspiração me alcançou. Foi um minuto dentro do carro, esperando o sinal abrir em uma movimentada avenida de Curitiba, que avistei um motivo para traduzir em palavras, o que senti. Veio a calhar uma famosa citação de Cora Coralina para ilustrar a postagem. Espero que gostem!


A cidade amanheceu, como de costume, barulhenta. Sirenes, motores e buzinas denunciavam o horário crucial da movimentação de ida ao trabalho. Embora ultimamente, determinadas horas não mais caracterizavam idas e voltas, pois durante todo o dia as ruas ficavam insuportáveis com o trânsito intenso. Mas ainda percebia-se sutilmente a diferença no início da manhã e final de tarde.
A via rápida estava lotada de automóveis e motocicletas. Pelas calçadas um amontoado de transeuntes caminhavam em todas as direções. Alguns se vestiam elegantemente e carregavam pastas, sinalizando estarem a caminho do trabalho. Outros, em trajes esportivos, ou se exercitavam correndo, ou passeavam com seus cães de estimação, que não menos assustados, abanavam os rabos ansiosos por saírem da confusão.
O sinaleiro havia fechado e os motorizados já se movimentavam lentamente, fumaça saindo dos escapamentos e barulhos de buzinas impacientes. Em meio ao caos da cidade grande, um dos motoristas conseguiu o quase impossível. Alienar-se da movimentação enfurecida e abrir o vidro do carro para sentir a brisa calma da manhã tocar seu rosto. Foi quando deparou com um detalhe paradoxal. Lá estava ela, entre os gigantescos aranhas-céus e altos muros cobertos por pichações.

Uma casinha de alvenaria, nem pequena nem grande, mas de tamanho suficiente para ser percebida. Rodeada de um jardim bem cuidado, com grandes roseiras de contornos visivelmente desenhados. As rosas brancas contrastavam com a coloração das folhas, e entre elas uma grande variedade cultivada de flores menores, misturando entre si, cores e texturas.
A singela construção se colava ao muro esquerdo, alto e imponente, dividindo o simples terreno com um esplendoroso prédio de esquina, caprichosamente marmorizado. Na frente, uma varanda enfeitada com duas janelas venezianas fechadas por cortinas vermelhas de cetim. Para quem olhasse a casa de frente, dava-se a impressão que, apesar de quase engolida pelos grandes edifícios que a rodeavam, não aparentava o medo de ser sufocada. Com entrada de portões de ferro e de grades baixas, suas cores eram claras, em tons de rosa e azul, ao mesmo tempo alegres. Detalhes em branco completavam o ar suave, também notado nos ligeiros toques femininos dos vasos e plantas bem colocadas. Um recanto de paz em meio ao caos!
“Como aquilo poderia ser possível?” – pensou o motorista.
Foi quando avistou o improvável. Pelas janelas entreabertas viu uma senhora alva, aparentando uns setenta anos, destacada por seus cabelos brancos presos atrás da nuca e marcas da idade, possibilitando serem vistas pelos metros que os separavam. Sua expressão tão serena trazia o inevitável o sentimento de paz a quem a olhasse.
“São aquelas marcas”, - pensou ele. “As responsáveis por essa surpresa.”
Com calma, ela levava aos raios de sol que adentravam pela janela, pequenos vasos de coloridas violetas, um a um. E como se dispensasse atenção especial e única a cada uma delas, balbuciava algumas palavras ao colocá-las no parapeito da janela.
O motorista não conseguiu ouvir o que ela falava, mas entendeu que se tratavam de palavras carinhosas, pois os movimentos das suas mãos para com as flores assim as traduziam. E assim como as flores, a senhora estava alheia a tudo que acontecia. Não se atentava sequer ao grupo de adolescentes que fazia bagunça em frente ao seu portão, sem nem perceber que dali para dentro existia um mundo à parte. Um mundo que ainda nem sonhavam conhecer.
Em meio ao paradoxo coletivo, havia um paradoxo particular. Aquela senhora, ainda vestida com seu pijama de malha desbotado, usava lindos brincos dourados que balançavam ritmicamente juntos com os vasos que ela levava. Simbolizavam algo de feminino, de bem cuidado, o toque único de alguém que exteriormente já teria sido uma linda mulher, para hoje se tornar uma alma leve. Um certo tipo de vaidade inocente que a sabedoria não tira.
Depois daquela manhã, sempre que o motorista parava no sinal, em frente a tão expressiva casinha, olhava para a janela na esperança de rever novamente aquele semblante, que de tão sereno, o fez pensar em anjos. Entretanto, a todos os dias que se seguiram após aquele, sempre no mesmo horário, ele nunca mais a viu. Ao olhar para a casa, embora a beleza continuasse lá, as cortinas vermelhas da janela permaneciam fechadas, deixando uma dúvida e um vazio naquele coração sedento de calmaria. “Seria mesmo um anjo? Ou se tornou um?”


Beijos!

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